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Como atravessar crises em cenários eleitorais

Em um mundo marcado pela fragilidade, pela ansiedade e pela dificuldade de compreensão, as crises se sobrepõem e se retroalimentam — em períodos eleitorais, esse movimento ganha intensidade

Patrícia Marins*

15/05/2026 às 18:30 · Atualizado há 4 meses
Foto: Justiça Eleitoral

Eleições nunca foram apenas disputas políticas. São, essencialmente, disputas de narrativa sobre o futuro. Nesse contexto, empresas não são observadoras externas. Ao operar, investir, empregar e se posicionar, já influenciam e são influenciadas por esse ambiente. Encarar os períodos eleitorais como uma pausa incômoda a ser suportada revela uma leitura estratégica limitada.

O ciclo eleitoral redefine o ambiente de negócios e impõe novas dinâmicas de risco e oportunidade. A pergunta central deixa de ser como evitar crises e passa a ser como operar com inteligência dentro delas.

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A ideia de crise como evento pontual perdeu sentido. O que se observa é um estado contínuo de tensão, um cenário de permacrise que se consolidou como condição estrutural. Em um mundo marcado pela fragilidade, pela ansiedade, pela não linearidade e pela dificuldade de compreensão, as crises se sobrepõem e se retroalimentam.

Em períodos eleitorais, esse movimento ganha intensidade. Narrativas se aceleram, polarizações se aprofundam e qualquer ruído pode escalar rapidamente. A gestão de crise, portanto, não pode se limitar à resposta. Exige preparo para sustentar a operação sob pressão e disciplina para manter coerência em meio à instabilidade.

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Nesse cenário, a leitura de contexto precisa ser ampliada. Monitorar imprensa e indicadores tradicionais já não é suficiente. A percepção pública é moldada em múltiplas camadas, muitas delas fora dos canais institucionais. Escuta ativa de redes sociais, comunidades e movimentos torna-se indispensável. Quem não acompanha esses sinais tende a reagir de forma desalinhada. E respostas desalinhadas comprometem a legitimidade.

IA e algoritmos são os novos atores eleitorais

O mapa de stakeholders ganha papel central nesse processo. Trata-se da identificação e análise de todos os atores que influenciam ou são influenciados pela organização. Historicamente, esse mapa incluía governos, reguladores, clientes, investidores e colaboradores. Hoje, esse desenho se expandiu de forma significativa. Passa a incorporar influenciadores digitais, lideranças informais, grupos organizados, detratores e, cada vez mais, sistemas de inteligência artificial.

A inteligência artificial deixou de ser apenas ferramenta operacional. Plataformas baseadas em IA já mediam decisões, organizam fluxos de informação e influenciam diretamente a forma como marcas e reputações são percebidas. Algoritmos definem visibilidade, priorizam conteúdos e moldam o alcance de narrativas. Ignorar esse ator é ignorar uma camada decisiva de influência.

Nesse sentido, a inteligência artificial deve ser tratada como um stakeholder a ser compreendido e influenciado. Isso implica estruturar comunicação e presença digital de forma que sistemas automatizados reconheçam relevância, consistência e confiabilidade. Dados bem organizados, narrativas claras e coerência ao longo do tempo passam a ser não apenas atributos de reputação, mas também fatores de legibilidade para máquinas. Quem entende essa lógica amplia sua capacidade de presença. Quem ignora perde espaço sem perceber.

O mapa de stakeholders, portanto, já não se limita às estruturas formais de poder. Ele exige uma leitura dinâmica, que inclui atores humanos e não humanos, formais e informais. Em um ambiente polarizado, a neutralidade deixa de ser uma opção confortável. O silêncio, longe de proteger, frequentemente expõe fragilidades. Posicionar-se passa a ser inevitável, ainda que complexo.

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Isso impõe outro desafio relevante: sair da própria bolha. Organizações que dialogam apenas com públicos previsíveis operam com visão estreita e reagem com atraso. A interlocução com ambientes divergentes amplia repertório, qualifica decisões e reduz o risco de surpresas. Não se trata de aderir a todas as visões, mas de compreender o cenário com mais profundidade para agir com mais precisão.

Há também um aspecto que diferencia empresas resilientes das vulneráveis: a clareza sobre seu papel social. Limitar a comunicação à agenda corporativa reduz relevância e aumenta exposição. Já organizações que conseguem articular de forma consistente seu impacto na sociedade sustentam melhor seus posicionamentos, mesmo sob pressão. Em um ambiente de interesses conflitantes, espera-se que lideranças empresariais contribuam para a construção de pontes e para a formulação de soluções concretas.

A velocidade com que os acontecimentos se desenrolam adiciona outra camada de complexidade. O tempo de resposta encurtou drasticamente. Não responder pode custar mais do que responder de forma incompleta. Isso não significa agir de forma precipitada, mas reconhecer que ocupar espaço com responsabilidade é parte da estratégia. Ainda assim, nenhuma resposta isolada compensa a ausência de consistência ao longo do tempo.

No fim, atravessar crises em períodos eleitorais não é um exercício de sobrevivência pontual. É um teste contínuo de alinhamento entre discurso e prática. Reputação não se constrói em declarações bem formuladas, mas na capacidade de sustentar coerência ao longo do tempo. Transparência e autenticidade deixaram de ser diferenciais. Tornaram-se requisitos básicos em um ambiente em que a sociedade observa, compara e reage em tempo real.

Para líderes empresariais, a conclusão é direta. Crise não é exceção. É contexto. E, em períodos eleitorais, esse contexto se intensifica. Quem entende isso mais cedo não apenas se protege melhor, mas também encontra espaço para exercer influência legítima em meio ao ruído.

*Patrícia Marins é sócia-fundadora da Oficina Consultoria, especialista em gestão de crises de alto risco reputacional e autora de “Muito além do Media training – o porta-voz na era da hiperconexão”.

Os artigos publicados pelo Amado Mundo não refletem necessariamente a opinião do site. O objetivo ao publicá-los é estimular o necessário debate em qualquer democracia.
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