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Medicina nuclear e Alzheimer: a imagem revela a doença antes dos sintomas

Avanços podem apontar sinais do Alzheimer ainda na fase molecular; por décadas, diagnóstico costumava ser essencialmente clínico

por Flávia Dornelas Kurkowski*
18/09/2026 às 05:58 · Atualizado há 3 semanas
Medicina nuclear
Medicina nuclear é nova esperança de diagnóstico mais cedo (imagem gerada com IA)

O diagnóstico da doença de Alzheimer foi essencialmente clínico durante décadas. O médico avaliava os sintomas, realizava testes cognitivos, solicitava exames para excluir outras causas e acompanhava a evolução do paciente. Embora essa avaliação continue indispensável, havia uma complicação: a enfermidade era descoberta pelas consequências e não pelos processos biológicos que a caracterizam.

Atualmente, esse cenário mudou. A medicina nuclear tornou possível observar alterações moleculares relacionadas dentro do cérebro. Alzheimer é a causa mais comum de demência e responde por cerca de 60% a 70% dos casos. É uma doença neurodegenerativa progressiva que compromete, inicialmente e com maior frequência, a memória e, ao longo do tempo, pode afetar linguagem, raciocínio, comportamento, autonomia e capacidade de realizar atividades cotidianas.

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No Brasil, estima-se que cerca de 1,2 milhão de pessoas vivam com a doença de Alzheimer, enquanto milhões convivem com algum tipo de demência. O desafio tende a crescer à medida que a população envelhece. Seu impacto ultrapassa a saúde: alcança famílias, cuidadores, sistemas de assistência e a própria economia. Estudo brasileiro publicado no Brazilian Journal of Psychiatry estimou que o custo anual das demências no país, considerando dados populacionais de 2022, poderia alcançar US$ 39,1 bilhões.

Avanços da medicina nuclear na descoberta de Alzheimer

Uma das soluções utilizadas é a tomografia por emissão de pósitrons (PET). Por meio de pequenas quantidades de substâncias radioativas, de uso seguro, é possível obter imagens de diferentes processos cerebrais. O PET com FDG, por exemplo, avalia o metabolismo da glicose e identifica padrões que auxiliam na diferenciação entre Alzheimer e outras doenças neurodegenerativas.

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Um avanço ainda mais significativo ocorreu com o PET amiloide. A beta-amiloide é uma proteína que se acumula no cérebro formando placas e constitui uma das alterações biológicas características da doença. Radiofármacos específicos ligam-se a esses depósitos, permitindo visualizá-los e quantificá-los.

Essa possibilidade representa uma mudança de paradigma: de um diagnóstico fundamentado predominantemente nas manifestações clínicas para a era do diagnóstico molecular da doença de Alzheimer. Em pacientes adequadamente selecionados, foi demonstrada a presença da patologia amiloide no cérebro antes que a doença alcance estágios avançados.

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Essa precisão tornou-se ainda mais relevante com a chegada de tratamentos direcionados à própria biologia da doença. No Brasil, donanemabe e lecanemabe, anticorpos monoclonais antiamiloide, receberam registro da Anvisa para pacientes selecionados nas fases iniciais da doença. Essas terapias atuam sobre a beta-amiloide e exigem a confirmação da presença da patologia amiloide.

Nesse contexto, o PET amiloide deixa de ser apenas uma ferramenta diagnóstica e passa a integrar uma estratégia de medicina de precisão, contribuindo para selecionar pacientes para terapias específicas e, em determinadas situações, avaliar a redução da carga amiloide durante o tratamento.

Nenhum desses exames, entretanto, deve ser interpretado isoladamente. A imagem molecular complementa a avaliação clínica e cognitiva, a ressonância magnética, os exames laboratoriais e outros biomarcadores.

Inovação precisa se tornar acessível

Os avanços científicos trazem também uma questão que precisa ultrapassar os limites dos hospitais e universidades: como transformar inovação em acesso? O impacto econômico das demências e a sobrecarga das famílias mostram que o Alzheimer não é apenas uma questão médica, mas um importante desafio de saúde pública.

Políticas públicas precisam contemplar prevenção, diagnóstico precoce e preciso, formação de profissionais, apoio aos cuidadores, acesso a biomarcadores e incorporação responsável de novas tecnologias. O Brasil já conta com a Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Demências, instituída em 2024. O desafio é transformar suas diretrizes em cuidado efetivamente acessível à população.

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Com o envelhecimento populacional, planejar essa estrutura hoje significa preparar o sistema de saúde para uma demanda crescente. Inovar não é suficiente se os avanços científicos permanecerem inacessíveis à maior parte da população.

Durante muito tempo, o Alzheimer foi reconhecido principalmente por aquilo que a doença havia retirado do paciente: memória, autonomia e capacidade funcional. Hoje, é possível enxergar parte de sua biologia diretamente no cérebro.

Para a medicina nuclear, isso significa transformar moléculas invisíveis em imagens. Para a sociedade, significa transformar conhecimento científico em diagnóstico, cuidado e políticas públicas capazes de fazer com que esses avanços cheguem a quem precisa.

* Flávia Dornelas Kurkowski é médica nuclear no Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul, membro colaboradora da Frente Parlamentar Mista da Tecnologia e Atividades Nucleares e diretora do departamento de comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear e Imagem Molecular (SBMN).

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