Comédia não é coisa de mulher? Brasil de Histórias debate uso do humor contra o machismo
Milly Lacombe, Bárbara Duvivier, Mayra Cotta e Alana Rizzo discutem a importância do humor feminino

Por que a comédia ainda é vista como um território masculino e o que acontece quando as mulheres assumem o controle do riso? A advogada Mayra Cotta, a roteirista Bárbara Duvivier e a jornalista Milly Lacombe debatem essas questões, com a mediação de Alana Rizzo, no novo episódio do programa Brasil de Histórias, produção do Amado Mundo em parceria com a Janela Livraria e a mapa lab. A conversa explora a importância da série “Afiadas”, disponível na TV Brasil e no YouTube, abordando a potência do uso da comédia contra o machismo.
Mayra Cotta afirma que “Afiadas” traz uma reação “subversiva” das mulheres pelo fato de levantar temas do universo feminino com leveza e alegria, aprofundando assuntos que normalmente são ignorados. Idealizada pela advogada, a série de comédia conta com roteiro de Bárbara Duvivier, Raul Chequer e Veronica Debom.
“Fazer um programa sobre mulheres, com os nossos temas, trazendo humor, foi não só uma experiência para o entretenimento, que também é válida e super importante, mas um convite a trazer as mulheres para a política. Temos que nos reapropriar dos espaços e das pautas que são nossas, sempre foram, mas das quais a gente não conseguia mais participar das conversas, dos debates e dos espaços, de tão tóxicos e violentos que ficaram”, destaca a advogada.
Veronica Debom também é uma das atrizes que integram o elenco fixo da série de comédia ao lado de Heloísa Périssé, Pretha Sousa e Carol Portes. A atração contou com diferentes convidadas durante a primeira temporada, entre elas a ex-ginasta Daiane dos Santos.
“A gente estava muito cansada de estar na página policial, de falar sobre os nossos temas sempre com a violência trágica, sempre tendo que derramar o sangue nosso para as pessoas prestarem atenção. O humor é essa ferramenta que permite chegar perto de temas que normalmente não conseguiríamos chegar”, completa Cotta.
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‘Mulheres não são criadas para fazer rir’
Com mais de 20 anos de experiência no jornalismo esportivo, Milly Lacombe exalta a importância da série. “Quando as mulheres entram nesse ambiente, elas entram para superar a ideia de que o humor precisa necessariamente matar alguém, que é aquele humor da quinta série. O que o humor deveria matar? Estruturas de poder. É uma coisa muito delicada. Como é que a gente vai fazer isso?”, indaga.
“Ver mulheres falando de humor é saber que alguma coisa já deu errado. Não é para a gente estar aqui. Mulheres não são criadas e socializadas para fazer rir, né? A gente é socializada para cuidar, pra gerenciar emocionalmente todos os ambientes, para trabalhar na conciliação. O humor não vai na conciliação. O difícil é a gente achar o tom e o ponto de ruptura do que a gente vai fazer, para fazer rir”, diz a jornalista.
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Milly aponta que a estrutura machista da sociedade não é prejudicial apenas para as mulheres, mas também para os homens, que são podados, muitas vezes, da própria vulnerabilidade e da capacidade de se conectar com o outro. “A gente ri do humor acidental masculino, e também está valendo, porque mostra um caminho do que não fazer. Eles têm muito medo de que a gente ria deles”.
A jornalista destaca que a Copa do Mundo feminina de 2027, que será disputada no Brasil, marcará uma revolução para o país. “Vai ser a Copa das nossas vidas. Elas vão fazer o que os homens não conseguiram. Vão gerar um afeto, as pessoas ficarão alucinadas com os próprios sentimentos. As meninas da seleção têm uma chance real, concreta, de conseguir esse título. […] Quem ficou falando do hexacampeonato masculino estava em um delírio ruim. Era óbvio que não viria”.
Homens têm liberdade na comédia
Já Bárbara Duvivier analisa os desafios enfrentados durante a elaboração do programa de comédia. “Qual é o limite que a gente coloca entre rir de algo ruim ou de exibir o reflexo de uma sociedade doente? Até que ponto você está reproduzindo ou rindo de uma opressão?”, questiona a roteirista.
“Você entra numa sinuca de bico porque o homem pode falar qualquer coisa, zoar qualquer coisa. Quando você coloca as coisas na boca de uma mulher, rapidamente aquilo se torna outra coisa. Você começa a lidar com muitos perigos do machismo recreativo, porque, por exemplo, é muito engraçado você falar de macho escroto, mas até que ponto você está reproduzindo comportamentos e você está trazendo pessoas para rir de uma violência que se reproduz todo dia?”, analisa Duvivier.
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A roteirista também destaca a construção do formato da série, que costuma deixar as convidadas à vontade. “As perguntas eram formuladas de acordo com a personalidade das mulheres. Muitas vezes, as próprias questões já faziam as entrevistadas rirem e as desmontavam um pouco. O segredo de misturar a ficção com a realidade é deixá-las muito empoderadas e apropriadas das personagens para seguir uma gravação sem texto decorado”.