Ratinho usa concessão pública para normalizar intolerância e preconceito em rede nacional
Nos anos 1990, quando surgiu na TV, Ratinho chamou atenção pelo sensacionalismo e pelo carisma; em 2026, oferece um show de intolerância e preconceitos

Quando Carlos Massa surgiu na televisão brasileira, em meados dos anos 1990, chamou atenção pelo sensacionalismo incontestável, mas também pelo carisma. No comando do “190 Urgente”, da CNT, Ratinho apresentava uma espécie de telejornal de baixo orçamento, com cenário chinfrim, matérias pobres, apelativas e mal acabadas. Exagerava nas reações, quebrava aparelhos de fax (geração Z, favor dar um Google!) e bradava palavras de ordem. Tinha uma indignação que cativava o cidadão médio, historicamente preocupado com questões de segurança pública. Mas também tinha um certo humor.
Apesar da (falta de) qualidade da atração, o talento do apresentador era inegável. Mistura de Mazzaropi com Luiz Carlos Alborghetti — de quem se tornaria desafeto —, Ratinho cativava o público e surpreendia ao atrair preciosos pontos no Ibope para uma emissora minúscula. Tanto que quase foi contratado pela Globo na época, como revelou em entrevista à jornalista Elvira Lobato o então presidente do Grupo Globo, Roberto Irineu Marinho.
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A Globo desistiu e, em 1997, o comunicador acabou contratado a peso de ouro pela Record. Com o “Ratinho Livre”, ganhou orçamento maior, horário nobre e um auditório para chamar de seu. Se os recursos sobraram, faltava qualquer vestígio de compromisso com o bom senso. No palco, entrevistados saíam no tapa, quebravam os cenários, e gritos e palavrões eram frequentes. A audiência acabou capturada pelo circo do grotesco e, em muitas ocasiões, o apresentador celebrou a liderança no Ibope dançando a música-tema do Jornal Nacional. Baixaria com deboche. Uma receita que deu certo.
Menos de um ano depois, Ratinho foi contratado pelo SBT. Maior comunicador da televisão brasileira, Silvio Santos reconheceu nele os atributos que garantem o sucesso de quem tem um microfone nas mãos e um auditório para animar. Acontece que a baixaria nunca foi melhor amiga dos anunciantes e, além de não atrair marcas de prestígio, com o passar do tempo, o público também começou a se afastar. Em 2006, Silvio chegou a tirar o apresentador do ar e prometeu uma reformulação que traria “alta qualidade” ao programa. Mas, sabemos, uma mesma frase dificilmente comportaria as expressões “Ratinho” e “qualidade”…
Com o passar dos anos, Ratinho ficou milionário. Construiu seu próprio conglomerado de mídia — a Rede Massa — e virou sócio do SBT na produção do próprio programa. Mergulhou de cabeça no bolsonarismo e fez do palco da emissora — que já se autointitulou a “mais feliz do Brasil” — uma espécie de trincheira do reacionarismo. A comunidade LGBTQIAPN+ virou alvo mais recorrente da metralhadora de preconceitos do apresentador. No episódio mais recente — e de maior repercussão midiática — vocalizou um repugnante discurso de teor transfóbico contra a deputada federal Érika Hilton (PSOL-SP), engrossando um perigoso caldo de intolerância no país que mais mata pessoas trans no mundo. Responsabilidade social? Nenhuma!
O problema é que o Brasil de 2026 já não deveria tolerar esse tipo de espetáculo travestido de “opinião”. Não se trata de censura, como gostam de alegar os defensores da barbárie sempre que alguém cobra responsabilidade. Trata-se de compreender que televisão aberta é concessão pública. É um serviço autorizado pelo Estado brasileiro e que, justamente por isso, deveria respeitar princípios mínimos de civilidade, diversidade e direitos humanos.
Ratinho colocou o próprio talento a serviço do atraso
Ratinho não é apenas um homem de opiniões controversas diante de uma câmera. É um dos comunicadores mais populares do país, falando diariamente para milhões de pessoas numa nação marcada por desigualdades históricas, violência estrutural e uma cultura profundamente intolerante com grupos historicamente minorizados. Quando transforma preconceito em piada, quando estimula o deboche contra pessoas LGBTQIAPN+, quando normaliza discursos discriminatórios em horário nobre, não está “fazendo humor”. Está ajudando a legitimar violências muito concretas.
E talvez aí esteja a maior tragédia de sua trajetória: talento jogado fora. Porque Ratinho sempre teve carisma, timing e uma capacidade rara de comunicação popular. Poderia ter usado sua influência para entreter sem humilhar, provocar sem agredir, dialogar sem disseminar ódio. Preferiu outro caminho. Colocou o próprio talento a serviço do atraso.
Mais preocupante, porém, é o silêncio cúmplice das autoridades responsáveis pela fiscalização desse tipo de conteúdo. O Brasil assiste, há anos, a manifestações preconceituosas recorrentes em uma emissora que opera uma concessão pública, sem qualquer consequência prática. Entre notas tímidas, indignações passageiras e repercussões nas redes sociais, nada muda. A mensagem que fica é perigosa: para determinadas figuras da televisão brasileira, tudo é permitido.E talvez seja justamente essa permissividade que ajude a explicar por que seguimos presos a debates que o mundo civilizado já deveria ter superado há muito tempo.