Reportagem

A democracia é um horizonte: jornalismo, memória e ataques institucionais

O jornalista Bernardo Mello Franco e o sociólogo José Henrique Bortoluci discutem a fiscalização do poder, a herança de 2013 e a crise da imaginação política no programa do Amado Mundo

por Letícia Corrêa
28/09/2026 às 17:07 · Atualizado há 2 semanas
democracia
O jornalista Bernardo Mello Franco e o sociólogo José Henrique Bortoluci (Amado Mundo)

O debate sobre a fragilidade e o futuro da democracia no Brasil foi o centro do episódio do programa Brasil de Histórias, produção do Amado Mundo em parceria com a Janela Livraria e a mapa lab. Sob a mediação de Kátia Brembatti, o jornalista Bernardo Mello Franco e o sociólogo e escritor José Henrique Bortoluci se reuniram para discutir a relação entre imprensa, verificação dos fatos e o regime democrático.

Leia mais: Comédia não é coisa de mulher? Brasil de Histórias debate uso do humor contra o machismo

O jornalismo como fiscalizador do poder e a ‘pós-verdade’

Ao abordar a premissa de que não há democracia sem jornalismo, Mello destacou que esse valor se evidencia no momento em que a imprensa é colocada sob ataque. O jornalista argumentou que a função precípua do jornalismo não é investigativa no sentido punitivo, mas de vigilância pública. Ele alertou ainda para o avanço global de campanhas organizadas de desinformação que buscam desacreditar a própria existência de fatos verificáveis.

“Nós não somos promotores, não denunciamos, não somos juízes, não julgamos, não condenamos, mas nós, muitas vezes, somos o meio pelo qual a sociedade fica sabendo a forma como o dinheiro do imposto está sendo gasto”, pontuou.

Já Bortoluci enfatizou que regimes autoritários têm aversão estrutural à liberdade e à busca pela verdade factual. Para o sociólogo, instrumentos como o jornalismo, a ciência e as universidades são alvos recorrentes de autocratas justamente por garantirem a autonomia do pensamento e a verificação dos fatos, elementos indispensáveis para uma população informada.

2013, o ‘bueiro aberto’ e os limites da crítica institucional

A conversa também repercutiu o livro de Bernardo, que reúne suas colunas cobrindo o período de 2018 até setembro de 2025, data marcada pela condenação de Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe. A obra foi aplaudida pela historiadora Heloisa Starling como uma forma de registrar a história no calor dos acontecimentos. Relembrando da experiência dele como correspondente internacional em 2013, o colunista observou que as manifestações brasileiras daquele ano abriram espaço para discursos autoritários que antes eram inaceitáveis no debate público.

“Às vezes parece que o Brasil destampou um bueiro e saíram deles figuras mórbidas, estranhas”, avaliou.

O jornalista também traçou uma distinção entre a fiscalização legítima das instituições — como a exigência de transparência e códigos de ética para a magistratura — e os ataques orquestrados voltados ao fim das garantias democráticas e à contestação infundada do sistema eleitoral.

Comece o dia sabendo o que importa. Receba gratuitamente a Antes da Reunião, a newsletter de política e economia do Amado Mundo. De 2ª a 6ª, às 6h30. Assine!

‘Geração Democracia’: escutar o Brasil real e problematizar o conceito

A obra “Geração democracia”, livro de Bortoluci que investiga as transformações do país nos últimos 40 anos através das trajetórias de pessoas comuns nascidas entre 1982 e 1988, foi um dos tópicos do debate.Entre os entrevistados estão um ativista camponês da Amazônia, uma policial militar negra e doutora em serviço social, uma professora trans, uma empreendedora periférica e um ex-traficante convertido à fé evangélica.

Com base na escuta dessas vidas, o sociólogo provocou uma reflexão sobre a própria ideia de democracia no país. Para ele, o regime democrático não deve ser visto como uma realidade pronta, mas como um processo dinâmico. Além disso, ao levar a ideia de Michel Foucault sobre os princípios de uma vida não fascista, José Henrique lembrou que a convivência democrática exige resistência constante contra a tentação de “se apaixonar pelo poder”.

“A democracia existe como horizonte, existe como desejo, existe como projeto coletivo”, afirmou.

A ‘crise de futuros’ e o papel de continuar informando

Os convidados, ao final da conversa, começaram a projetar os desafios para os próximos anos. O sociólogo definiu o futuro como uma “ficção política” que exige construção coletiva e diagnosticou uma profunda “crise de futuros”, na qual a sociedade perde a capacidade de imaginar alternativas ao presente. Segundo ele, o autoritarismo vence quando convence a população de que outros amanhãs não são possíveis.

Já Bernardo ressaltou que o combate à desinformação enfrenta uma indústria financeira poderosa e uma crise nos modelos tradicionais de financiamento da imprensa. Apesar das incertezas e do ceticismo em relação a papéis messiânicos da mídia, o jornalista defendeu que o compromisso com um trabalho honesto e rigoroso continua sendo um serviço público essencial para a preservação das garantias democráticas.

PLAYLISTS