Muka

A política, a TV, o entretenimento e o que bomba nas redes

A política, a TV, o entretenimento
e o que
bomba nas redes

Banner imagem do autor Banner mobile imagem do autor
Análise

Globo erra ao escolher espelhar Brasil mais conservador em sua programação

Tentativas de moldar a dramaturgia a uma suposta demanda conservadora não têm garantido sucesso junto ao público

03/05/2026 às 06:00 · Atualizado há 3 meses
Casal “Loquinha”, sensação da novela “Três graças”, mostra que representatividade ainda mobiliza o espectador (Reprodução/Redes sociais)

Nos últimos tempos, vários colegas da imprensa têm sinalizado uma percepção em comum: a de que a pesquisa “Brasil no Espelho”, da Quaest, virou o guia de bolso da TV Globo para definir os rumos da programação. O estudo, que teria comprovado um mergulho brasileiro no conservadorismo, passou a ser visto nos bastidores da emissora como o farol capaz de iluminar a empresa no tortuoso caminho da busca por audiência, num país cada vez mais polarizado e num cenário de disputa cada vez mais intensa pela atenção do público. Mas, ao que parece, a emissora tem interpretado a complexidade dos dados de forma seletiva, optando por um espelho que reflete apenas a fatia mais conservadora da sociedade brasileira.

Leia também: No BBB 26, Ana Paula Renault vive a crônica de uma vitória anunciada

Na pesquisa, também disponível em livro escrito por Felipe Nunes, 90% dos entrevistados afirmam que família significa amor, independentemente do modelo familiar. Além disso, 95% dos entrevistados dizem entender que a vida sexual de uma pessoa não é da conta de ninguém, e quase 70% rejeitam a absurda teoria da “cura gay”. Ao apostar todas as fichas em pautas conservadoras e podar temas “mais sensíveis” em suas produções, a Globo parece ignorar que o próprio estudo mostra um país que avançou, e muito, no respeito à diversidade.

Um exemplo dessa aposta equivocada é o programa “Em família”, comandado por Eliana. Desenhada como um aceno ao conservadorismo da “família tradicional”, a atração, após a euforia da estreia, tem enfrentado oscilações preocupantes. Apesar de se manter líder no horário e de não ter sido ameaçada pela concorrência até aqui, Eliana viu seu público encolher 20% desde a estreia, em 15 de março. Sinal de que alguma coisa está fora da ordem…

Globo Vs. Bolsonaro: Livro revela bastidores de como Bonner e cúpula da Globo lidaram com governo Bolsonaro

A novela das sete, “Coração acelerado”, só entrou nos trilhos há duas semanas. Concebida como um abraço aos entusiastas do Brasil do agro, a trama conseguiu desagradar público e crítica e, até o 50º capítulo, carregava o título de produção de menor audiência no horário, além de repercutir pouquíssimo nas redes. Para sair do limbo, a produção passou por ajustes, e a estrela sertaneja Ana Castela teve participação ampliada. Mais um sinal claro de que a tentativa de moldar a dramaturgia a uma suposta demanda conservadora não tem garantido sucesso junto ao público.

O mais irônico é que, enquanto a Globo se encolhe para caber na caixinha do conservadorismo, o sucesso acontece justamente quando ela se permite ir além. O casal lésbico “Loquinha”, de “Três graças”, virou um fenômeno tão grande que ganhou até spin-off no streaming, provando o apetite da audiência por representatividade. Um êxito que ecoa o fenômeno de Kelvin e Ramiro, de “Terra e paixão” (2023). Na obra de Walcyr Carrasco, o casal gay conquistou a torcida do Brasil e teve o desfecho muito celebrado, com direito a casamento, beijão e festa no capítulo final.

Risco de ignorar avanços reais no Brasil

Ao mergulhar em temáticas celebradas por parcelas tradicionais e religiosas, ou ao censurar e reduzir a visibilidade de narrativas sensíveis — como trajetórias de casais homoafetivos — a Globo corre o risco de ignorar o avanço real do país. O próprio estudo, longe de ser monolítico, revela um Brasil que progrediu significativamente na compreensão e no respeito à diversidade e aos grupos minorizados, dados que contrastam com a recente guinada da grade.

Se João Emanuel Carneiro tivesse se pautado por pesquisas, certamente teria descoberto que o público rejeita fortemente a ideia de que uma madrasta possa abandonar a enteada, ainda criança, num lixão. Numa leitura superficial dos dados, o autor poderia decidir riscar a personagem de sua novela. Assim, jamais teríamos o fenômeno Carminha numa produção antológica como “Avenida Brasil”. Ou seja: interpretar dados é uma arte, e quem usa a pesquisa para justificar o medo do novo acaba perdendo a chance de dialogar com o Brasil real — esse mesmo país que, ao contrário do que as “novidades” da Globo sugerem, já abraçou a diversidade há muito tempo.

Os artigos publicados pelo Amado Mundo não refletem necessariamente a opinião do site. O objetivo ao publicá-los é estimular o necessário debate em qualquer democracia.
PLAYLISTS