Entrevista

Cotado para o Nobel, Milton Hatoum avalia possível eleição de Flávio Bolsonaro: ‘Uma tragédia’

Em entrevista ao Papo Amado, escritor amazonense critica a extrema direita e avalia chance de vencer maior prêmio da literatura

29/09/2026 às 11:50 · Atualizado há 6 dias
O escritor Milton Hatoum, em entrevista no programa Papo Amado (Amado Mundo)
O escritor Milton Hatoum, em entrevista no programa Papo Amado (Amado Mundo)

A rota que levou Milton Hatoum a ser um titã da literatura brasileira tem seu rastro de Beirute ao Acre. Filho de imigrantes libaneses que vêm de uma região que hoje é bombardeada por Israel no atrito bélico do Oriente Médio, o escritor aparece cotado nas casas de apostas como um forte candidato a faturar o Nobel de Literatura neste ano, feito jamais alcançado por um escritor brasileiro. Segundo o autor, em tom de brincadeira, a única contribuição do prêmio seria aumentar seu público.

“Nenhuma importância. Qual poderia ser? Se eu conquistar mais leitores com isso, eu vou agradecer aos leitores”, afirma Milton Hatoum em entrevista ao programa Papo Amado, do canal Amado Mundo. A conversa sobre o primeiro Nobel de Literatura do Brasil foi sempre cercada dos grandes gênios que permearam as páginas da imaginação brasileira por séculos. E é por isso que Milton Hatoum não se sente incumbente de uma pressão para ganhar o prêmio inédito.

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A plausível vitória do brasileiro deu, no entanto, acesso de seus livros a mais leitores, e de outros países. “Eu ganhei mais traduções na Europa. Só com essa [possibilidade]. Eu acho que isso repercutiu lá também”, disse. Os livros de Milton Hatoum são traduzidos em 17 línguas hoje, lista que deve aumentar conforme o fechamento de novas traduções feitas neste ano.

“Então serviu para divulgar mais o meu trabalho. Mas eu não alimento… eu nunca, vamos dizer, batalhei por prêmios. E eu acho que um escritor não pode pensar nisso. Você não ganhar um prêmio, seja aqui ou no exterior, não significa absolutamente nada. Se você ganhar, vai ser bom para a sua obra.”

Na segunda temporada do Notas de Rodapé, programa do Amado Mundo que discute a sociedade contemporânea por meio da literatura, Milton Hatoum, ao lado da jornalista Marina Rossi, abordou a situação da Amazônia e dos desafios para proteger as florestas que os povos originários que habitam a região. Já no Papo Amado, a conversa também tomou outros caminhos.

Marina Rossi e Milton Hatoum, em episódio da segunda temporada do Notas de Rodapé (Amado Mundo)

‘Vão entregar tudo do Brasil’, diz Milton Hatoum sobre Flávio

Milton Hatoum falou ainda sobre o cenário político brasileiro, repleto do que chama de “fascínoras” e “fanáticos embriagados” — ambos deslumbram a possível volta dos Bolsonaro ao maior poder da República, o que escritor chama de “tragédia em todos os sentidos”. O escritor amazonense também prepara um livro de memórias de sua infância em Manaus.

A seguir, leia os principais trechos. Ou assista à íntegra da entrevista no final do texto.

Se a ideia é que sejam memórias de infância, elas vão se circunscrever a Manaus ou elas já entram um pouco na adolescência em Brasília?
Manaus. Termino em Manaus porque esse período da minha vida, e eu acho que para muitos escritores e escritoras, e para as pessoas em geral, é o grande período de formação para quem vai escrever e nem sabe que vai ser escritor ou escritora. Que são a infância e a juventude. Porque é na infância que você, vamos dizer assim, lida com sentimentos fortes.

A morte de parentes e outras crianças, as primeiras frustrações, o primeiro amor. Manaus tinha uma coisa uterina, assim como o Rio Negro. Era uma cidade pequena, um pouco idílica, cheia de garapés com água limpa. Era uma cidade em plena harmonia.

Uma coisa curiosa: você propositalmente não fala o nome do ex-presidente em entrevistas. Por quê?
Me dá um pouco de gastura. É tão ignóbil, é uma coisa tão fascinorosa, porque está no plano dos fascínoras, como dizia o Guimarães Rosa. Eu não sei como o povo brasileiro, a não ser os fanáticos que estão embriagados por uma ideologia extremista, é capaz de discernir. Você pega o histórico do presidente Lula e o histórico de qualquer presidente, do Fernando Henrique ou do Itamar Franco, para não falar só do Lula, e compara com o histórico dessa família onde só tem bandidagem, só tem mutreta, sabe? Isso aí é uma tranqueira, essa família.

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Como você vê a perspectiva de o Flávio Bolsonaro ser eleito?
Eu vejo como uma tragédia em todos os aspectos da vida brasileira. Para o próprio brasileiro de classe média que vai se empobrecer, porque a política deles é uma política voltada para os muito ricos. Não é uma política voltada para a classe média. Então, a classe média vai empobrecer e a população pobre vai ficar mais pobre ainda. Mas eu não espero que ele ganhe.

Eu não sou pessimista quanto a isso, porque acho que a população vai entender que será uma tragédia para o Brasil. Vão entregar tudo do Brasil, a Amazônia será totalmente devastada e vão entregar as nossas riquezas. O projeto desses caras é um projeto de destruição, só isso. E de riqueza para eles, para a família e para os seus comparsas, para os seus apadrinhados.

Você fala de umas coisas que são muito óbvias e claras. Por que você acha que tem esse descolamento de metade do eleitorado dessa realidade tão concreta?
Acho que há muitos fatores. Primeiro, há uma desinformação muito grande desses brasileiros. É uma questão de formação educacional, de escolaridade. Eu acho também que há uma fanatização a partir dos discursos de pastores de extrema direita que politizam, trazem a política para a religião e a religião para a política. Também a imprensa. Eu acho que a grande imprensa contribuiu para esse desastre.

Voltando à literatura, um tema permanente nos seus livros é a extrema desigualdade do Brasil. Essa preocupação nasce na infância ou na adolescência?

Começa na minha infância, porque eu presenciei cenas horríveis, com vizinhos, em casa de amigos. As empregadas não eram assalariadas, muitas. A maioria não era assalariada em Manaus. Era um regime de semi-escravidão ali. Vi cenas de violência. Isso foi um trauma.

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De que tipo?
Cenas de patroas que batiam mesmo. Não só de violência verbal, de grito. Então essa questão, vamos dizer, do subalterno nos meus livros, é muito importante. Isso está no “Órfãos do Eldorado”, na figura da Florita, uma mulher indígena que é fundamental nesse livro.

Você enxerga hoje, com 74 anos, momentos da sua vida em que você faria diferente em sua relação com as mulheres?
Sim, sem dúvida. Se bem que no caso do meu pai não havia isso.

Não?
Não. Porque ele era muçulmano, minha mãe era católica, e ele levava minha mãe à igreja todo domingo. Ele fez isso durante meio século ou mais. Mas os meus amigos, a minha turma, toda a minha geração era muito bruta, muito machista.

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