Exposição mostra imagens raras da intimidade de Fidel Castro nos anos 1960
‘Entre a utopia e o mar’ apresenta imagens do ex-líder cubano em 1964; fotógrafo quer expo de fotos de Fidel Castro na América Latina

Em meados de 1964, o jovem estudante francês de origem lituana Jonas-Perkūnas Liutkus, conhecido como Una, fez parte de uma delegação europeia convidada para conhecer de perto o novo país que surgia com a Revolução Cubana, sacramentada cinco anos antes. Munido de uma câmera amadora Voigtländer, ele registrou imagens cotidianas da intimidade de Fidel Castro. Foram esses cliques que deram origem à exposição “Entre a utopia e o mar”.
A exibição, com 18 fotografias, foi apresentada na noite desta segunda-feira (1o), no bistrô Cícero, em Lisboa, na abertura da programação do Lisboa Connection na Semana do Brasil em Portugal. No encontro, Guilherme Amado, publisher do Amado Mundo, mediou uma conversa com Jean-Pierre Sobral Guiraud, co-curador da mostra, e participação do advogado Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. Juliana Caus, diretora artística da Casa Caus e que assina a curadoria ao lado de Guiraud, também esteve presente.
— Essas fotografias estavam debaixo da minha cama desde o fim da exibição no Chapitô (espaço cultural lisboeta). Antes de partirem para uma nova exposição na França, trouxemos algumas para o Cícero — explica Caus. — São imagens de julho e agosto de 1964. O Una fez parte de um grupo de mais de 50 pessoas de esquerda que foram convidadas para a ilha. É o recorte íntimo de um lado mais humano.
Fidel Castro e os olhos frescos da juventude
Nas fotos, podemos ver Fidel acompanhado pelos jovens franceses numa pesca de lagostas, voltando ao barco após um mergulho e posando de calção de banho com uma faca de caça submarina atada a uma das pernas, como o James Bond de Sean Connery. Mas Una não teve acesso ao círculo próximo do revolucionário cubano por acaso. Deveu-se a uma história de amor.
— Quando o Fidel fez o discurso de boas-vindas aos jovens, com carisma e voz alerta, perguntou se alguém tinha alguma dúvida. Só uma vozinha no fundo da sala perguntou: “Comandante, por que é impossível encontrar bons fósforos neste país?” Foi aí que teve um crush, uma troca de olhares — conta Guiraud sobre o início do caso amoroso de quatro anos entre o líder cubano e Évelyne Pisier, então estudante de direito que se tornaria escritora, cientista política e Diretora do Livro e da Leitura do Ministério de Cultura da França entre 1989 e 1993.
Como era amigo de Évelyne e de sua irmã, a famosa atriz Marie-France Pisier, que também estava na viagem, Una teve a liberdade de registrar momentos daquele pequeno grupo de utópicos europeus ao lado de Fidel Castro.
— Ele queria mostrar para aqueles jovens o que a revolução estava construindo ali. É um retrato de um período conturbado, através dos olhos frescos da juventude. Foi com essa energia que chegaram lá — avalia Guiraud. — Na França, chamamos esse período de “Parênteses encantada”. E essas fotografias retratam essa época, aquela boa energia, quando tudo podia acontecer. E o futuro estava aberto, com ilusões e sonhos.
Ao final da conversa, o co-curador, amigo pessoal de Una e de seu filho, confessa um desejo do fotógrafo amador que eternizou momentos privados de uma das maiores figuras históricas do século XX.
— Una me partilhou um sonho dele de fazer uma exposição no continente americano, na América Latina. Ele disse que ficaria muito feliz em exibir suas fotografias no Brasil — comenta.