Governo Lula tem 51% de afinidade com ‘agenda imprescindível’ de movimento da terceira via
Levantamento realizado pelo Derrubando Muros mostrou convergências e discordâncias entre o grupo e o atual governo

A agenda deste terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, iniciado em janeiro de 2023, tem 51% de afinidade com as propostas consideradas imprescindíveis montadas pela iniciativa Derrubando Muros — movimento apartidário que reúne empresários, investidores, intelectuais, acadêmicos, ativistas e políticos de diferentes correntes.
O levantamento, realizado e divulgado nesta segunda-feira (10/8) pelo próprio Derrubando Muros, mede a proximidade entre a atuação de um governo ou liderança política e a posição política e estratégica do movimento, que costuma defender uma terceira via. O cálculo considerou análises de diferentes setores, dando a eles pesos diferentes para a composição de uma porcentagem final.
Na tentativa de fornecer um plano de ação ao país, o Derrubando Muros elaborou uma “agenda inadiável”, hoje chamada de “imprescindível”, e a apresentou a diversos candidatos na eleição de 2022, incluindo o atual presidente Lula.
Principais convergências e discordâncias
O índice de afinidade chega aos 78% quando se trata apenas dos quesitos ambientais e de transição energética. “A política ambiental constitui a maior área de convergência. O governo recuperou capacidade de fiscalização, protagonismo diplomático e apresentou resultados expressivos na redução do desmatamento”, concluiu o levantamento do grupo.
Outro índice de destaque foi a saúde pública, com 57% de afinidade. “O governo recuperou políticas de atenção básica, vacinação e financiamento do SUS e ampliou iniciativas de atenção especializada. Para a Agenda Imprescindível, o eixo central é a redução radical do tempo entre a necessidade clínica e o acesso efetivo ao diagnóstico e ao tratamento, especialmente na atenção especializada e de alta complexidade. O programa Agora Tem Especialistas reconhece diretamente esse gargalo e estabelece a redução das filas como objetivo”, detalhou a pesquisa.
Educação (55%), desenvolvimento produtivo (52%) e reforma do Estado (52%) também aparecem entre os critérios destacados, apontados pelo Derrubando Muros com políticas relevantes acompanhadas de problemas de execução e em resultados.
Considerando as análises por eixos, os menores índices de afinidade aparecem em dois setores: ciência (tecnologia, inteligência artificial e inovação) e segurança pública, ambos com 38%. Empreendedorismo (42%), geopolítica, soberania e defesa (42%) e sustentabilidade macroeconômica (43%) também aparecem com baixos índices de convergência.
“A velocidade internacional estabelece uma régua muito mais exigente. Em 2025, empresas de inteligência artificial receberam US$ 258,7 bilhões em venture capital, equivalentes a 61% de todo o investimento mundial de venture capital. Somente empresas ligadas à infraestrutura de IA receberam US$ 109,3 bilhões. Estados Unidos, China, União Europeia e outras economias tratam compute, chips, energia, modelos, dados, capital e talentos como ativos estratégicos de soberania. A agenda imprescindível coloca a transformação tecnológica no centro da estratégia brasileira de desenvolvimento. O principal gap está na escala, velocidade, centralidade política e capacidade de transformar ciência em produtividade, empresas, investimento e liderança tecnológica”, aponta o texto sobre as questões tecnológicas.
“O governo ampliou instrumentos de combate ao crime organizado, com maior ênfase em inteligência, integração institucional e desarticulação financeira. […] O principal gap está na capacidade de produzir, em escala nacional, uma redução perceptível da insegurança vivida diariamente pelas pessoas”, analisa o levantamento ao abordar a segurança pública.
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Críticas ao governo Lula
O grupo Derrubando Muros, criado há sete anos em meio às crises da pandemia e do governo Bolsonaro, reúne hoje 160 pessoas. Os participantes da organização acreditam que o Brasil tem toda a potência necessária para dar certo, mas carece de um projeto estratégico.
O empresário Zeca Martins, representante da iniciativa, afirmou em entrevista ao Amado Mundo que quase todo o movimento votou em Lula no segundo turno das eleições de 2022. Porém, segundo ele, o grupo se decepcionou, pois o governo escanteou cerca de 95% das propostas da agenda imprescindível para focar em acordos de curto prazo com o Centrão e garantir a governabilidade diária. Ele, contudo, não afasta a possibilidade de um novo apoio a Lula em 2026, considerando o cenário e um eventual segundo turno com Flávio Bolsonaro.
“Quando a gente está falando em igualdade de oportunidades, para nós é um motor da prosperidade. Gera uma engenharia econômica, reduz juros e tudo mais, e concentra a riqueza. E daí depois o bolo vai ser distribuído. Não é o pobrismo do PT, que distribui a escassez”, declarou.
Porém, o checkpoint do Derrubando Muros revelou uma afinidade intermediária e heterogênea entre o governo Lula e a agenda considerada imprescindível. “Os 51 pontos identificam o espaço existente de afinidade. Os 49 pontos restantes localizam a agenda sobre a qual uma convergência política precisa ser construída”, concluiu o levantamento.