Amado Mundo anuncia veto a publicidade que incentive apostas online
Por que o Amado Mundo não aceita veicular publicidade de casas de apostas online incentivando as pessoas a jogar – e por que acha fundamental discutir o setor
Do Amado Mundo

É praticamente impossível abrir hoje qualquer site, rede social, streaming ou programa de TV e não encontrar um anúncio incentivando apostas online. As iscas para jogos a dinheiro parecem inescapáveis: estão em jornais, revistas, shows, festas populares, nos times pelos quais torcemos, nas competições esportivas com as quais nos emocionamos. Mas nem sempre a aposta está associada a diversão.
O bombardeio é constante, profissional e caro — foram R$ 2,3 bilhões só em compra de mídia no Brasil em 2024, segundo a Kantar Ibope Media. E não é por acaso: o setor faturou R$ 37 bilhões no ano passado. O montante mostra o tamanho do mercado e evidencia a robustez de problemas que advêm da lógica de só se incentivar mais e mais jogo.
Foi essa situação que culminou, nesta terça-feira (21/7), no lançamento de uma iniciativa inédita na imprensa brasileira: 15 veículos lançaram um editorial conjunto se posicionando contra propaganda de bets. São eles: Agência Lupa, Agência Pública, Alma Preta, Amado Mundo, Aos Fatos, Manual do Usuário, Matinal, Meio, Mobile Time, My News, Notícia Preta, NeoFeed, Plural, Portal Imprensa e Reset.
No Amado Mundo, acompanhamos esse cenário, cobrindo de perto a dinâmica do setor, sem preconceitos. Acreditamos que a legalização das apostas online refletiu uma realidade já posta e trouxe para a economia formal um segmento que, deixado à margem, na ilegalidade, só trazia mais prejuízos.
Nossa cobertura jornalística, do setor e dos problemas causados pelo descontrole e o vício, nos fez decidir que não veicularemos publicidade de bets incentivando que as pessoas joguem.
Repudiamos publicamente essa influência, sobretudo sobre o jornalismo, que deve ser, antes de tudo, comprometido com o interesse público. Nosso papel é o da defesa da sociedade e, portanto, o de informar, promover debates, denunciar com independência as mazelas do setor e exigir das autoridades regras mais estritas às propagandas e quando há uma atuação nociva de qualquer segmento da economia.
Ao aceitar incentivar que mais pessoas joguem, por meio da publicidade, consideramos que estaríamos contradizendo nossa missão de gerar conversas para um mundo melhor.
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Apostas online: a dimensão do problema a ser enfrentado
O jornalismo existe para servir aos leitores, aos cidadãos. Os números revelam a dimensão do problema a ser enfrentado.
Um estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo mostra que as bets são hoje a maior causa de endividamento no país — cinco vezes mais que cartão de crédito e empréstimos. O Banco Central detectou que R$ 3 bilhões do Bolsa Família foram parar em casas de apostas em agosto de 2024.
O Ministério do Desenvolvimento Social viu 1,8 milhão de beneficiários usando o cartão do programa para apostar. E os afastamentos por ludopatia no INSS dispararam 2.000%. Gente que perde o controle, perde o dinheiro, adoece.
Liberado em 2018 e regulado de fato só a partir de 2023, o setor cresceu num vácuo de regras. Acumulou poder econômico e passou a patrocinar de influenciadores a times de futebol, de festas populares a programas de TV. A influência política virou escudo contra a regulação mais dura que a situação exige.
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Uma distinção necessária
Mas é preciso fazer uma distinção importante aqui. Dizer não à propaganda de bets não significa fingir que o setor não existe ou se recusar a tratar do tema. O Amado Mundo não acredita que faça sentido veicular publicidade estimulando as pessoas a apostar. Mas não se opõe a projetos que incentivem o jogo responsável, nem se nega a abrir espaço para eventos e discussões sérias sobre a indústria de apostas online. O setor já é parte da economia brasileira, goste-se ou não.
O que se pode — e se deve — cobrar é que ele se sofistique, que acompanhe as demandas sociais e reduza a nocividade que existe hoje. Fugir do debate não protege ninguém, apenas entrega o tema a quem prefere que ele fique nas sombras.
Informações apuradas com rigor pelas nossas equipes apontam que podemos, como veículo de comunicação, contribuir para fomentar debates regulatórios, como equilibrar a necessidade de essas empresas crescerem enquanto negócios sem pôr em risco a saúde pública e o futuro de famílias, como preservar a importância delas para a economia do esporte sem que isso signifique estimular mais e mais apostas, sem freios, ancorados apenas em ineficazes alertas de “Jogue com moderação”.
Debater o segmento de apostas online é urgente e necessário. O problema não é essa discussão. O problema é estimular o vício. A diferença entre uma coisa e outra é exatamente onde se apresenta o jornalismo responsável.
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