Após novo tarifaço, governo quer negociar, mas ‘não hesitará’ em adotar reciprocidade
Ministro diz que negociação segue como prioridade, mas governo está pronto para responder ao tarifaço

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Marcio Elias Rosa, afirmou nesta quinta-feira (23/7) que o Brasil não hesitará em recorrer à Lei de Reciprocidade caso seja necessário responder ao novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos. Segundo o ministro, o governo brasileiro não pode abrir mão desse instrumento, aprovado por unanimidade pelo Congresso Nacional.
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O governo dos Estados Unidos anunciou nesta quinta-feira (23/7) a imposição de tarifas adicionais de 12,5% sobre uma série de produtos brasileiros exportados ao país. O novo tarifaço faz parte de uma ação mais ampla, que atinge ao todo 60 economias ao redor do mundo, incluindo a União Europeia, Japão, Coreia do Sul, Suíça e Taiwan, entre outros parceiros comerciais por supostas falhas em proibir e fiscalizar de forma efetiva a importação de bens produzidos com trabalho forçado. O governo brasileiro rechaça a medida.
“O governo brasileiro não pode renunciar a possibilidade de usar o instrumento da reciprocidade. Porque seria abrir mão de um direito que protege a economia brasileira, os interesses do Brasil. O governo federal não vai renunciar nunca à possibilidade de, efetivamente, por todos os meios e formas, defender os interesses dos setores produtivos.”
Tarifas sobrepostas chegam a 37,5%
O ministro reforçou que a prioridade do governo é dupla: primeiro, tentar reverter por meio de negociação a tarifa de 25% já decidida anteriormente; segundo, buscar ampliar a lista de produtos isentos na decisão anunciada nesta quinta-feira. Somente caso essas frentes não avancem é que o instrumento da reciprocidade entraria em cena — mas, segundo ele, essa possibilidade não será descartada em nenhum momento das tratativas. Questionado sobre prazo e modelo da medida, o ministro disse que “o momento e a forma de fazê-lo é o tempo que vai determinar”.
O ministro detalhou que, para setores como calçados, máquinas, equipamentos, peças, componentes, confecções e produtos químicos não farmacêuticos, porém, a cobrança se soma à tarifa de 25% já em vigor desde a decisão anterior dos Estados Unidos, resultando em uma taxação combinada de 37,5% sobre as exportações brasileiras. A nova tarifa de 12,5% atinge o Brasil junto com outras 40 economias, enquanto outras 19 ficaram sujeitas a uma alíquota de apenas 10%.
Segundo Marcio Elias Rosa, o governo já identificou cerca de 2 mil produtos exportados pelo Brasil que ficarão de fora de qualquer uma das duas tarifas, casos de carne, café, suco de laranja e frutas, por exemplo. Já a celulose, que não era alcançada pela tarifa de 25%, passará a ser taxada em 12,5%.
Elias Rosa afirmou ainda que conversou nesta semana com representantes de 23 associações de setores produtivos, entre eles o madeireiro, apontado como um dos mais sacrificados pela medida. Ele destacou que, embora o impacto agregado sobre as exportações totais do país gire em torno de 15%, para os setores diretamente afetados o efeito é integral.
Conversa com os EUA
Sobre o diálogo com os Estados Unidos, o ministro informou que ainda não há data prevista para uma conversa com o representante comercial americano, Jamieson Greer. Segundo ele, a nova tarifa entra em vigor no dia 28, enquanto o tarifaço anterior passa a valer no dia 29 para produtos que já estavam em trânsito — e qualquer contato entre os dois países só deve ocorrer depois que esses prazos estiverem consolidados, no mês que vem.
Até lá, a prioridade do governo é organizar o acolhimento dos setores atingidos, inclusive por meio do programa Brasil Soberano 3, lançado nesta semana.
Novo tarifaço
O novo tarifaço foi aplicado com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana de 1974. Esse é um mecanismo legal americano usado para responder a práticas comerciais consideradas “injustas, irracionais ou discriminatórias” por parte de outros países.
Segundo o USTR, o processo começou em março de 2026, quando o governo americano abriu investigações contra 60 economias. Ao longo dos meses seguintes, houve audiências públicas, milhares de comentários recebidos da sociedade civil e empresas, além de consultas diretas com os governos investigados. Em junho, o USTR concluiu que as práticas desses países eram “irracionais” e prejudicavam o comércio americano, abrindo caminho para a aplicação de tarifas.
As alíquotas variam conforme a situação de cada país:
- 10% para nações que já têm proibição de importação de produtos de trabalho forçado, se comprometeram a implementá-la via acordo comercial recíproco, ou adotaram um regime parcial de restrição. Nesse grupo estão Argentina, Bangladesh, Camboja, Canadá, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, Índia, Indonésia, Jordânia, Malásia, México, Paquistão, Sri Lanka, Trinidad e Tobago e Reino Unido.
- 10% a 12,5%, acima da tarifa padrão (MFN), para certos produtos de União Europeia, Taiwan, Japão, Coreia do Sul e Suíça.
- 12,5% para as demais economias investigadas — grupo no qual o Brasil está incluído.
O USTR também previu isenções para matérias-primas essenciais, produtos que poderiam causar desabastecimento nos EUA, itens que não são produzidos em quantidade suficiente em território americano, e artigos cuja tarifação não ajudaria a resolver o problema de fundo apontado na investigação.
O Brasil está entre os países classificados no grupo de tarifa mais alta (12,5%), ao lado de outras economias que, segundo o USTR, não adotaram medidas consideradas suficientes para conter a importação de bens ligados a trabalho forçado. A decisão afeta diretamente as exportações brasileiras para o mercado americano, um dos principais destinos de produtos nacionais.