Reportagem

‘Tariflávio’ ou culpa de Lula ‘agressivo’: novo tarifaço dos EUA põe fogo na pré-campanha

Governo e petistas ligam possibilidade de novo tarifaço dos EUA à visita de Flávio a Trump; senador tenta se descolar e culpa “tom agressivo” de Lula contra EUA

por Henrique Fregonasse
02/06/2026 às 19:43 · Atualizado há 4 meses
Lula mostra cartaz "O Pix é do Brasil", durante anúncio sobre inauguração de campus de instituto federal em Catalão (GO)
Lula com cartaz “O Pix é do Brasil”, durante anúncio sobre inauguração de campus de instituto federal em Catalão (GO) (foto: Ricardo Stuckert/PR)

Revelada na madrugada desta terça-feira (2/6), a possibilidade de um novo tarifaço dos EUA ao Brasil, agora com uma alíquota adicional de 25% sobre produtos importados, incendiou a pré-campanha eleitoral brasileira. A recomendação foi feita pelo Escritório de Comércio dos Estados Unidos, e pode passar a valer em 15 de julho.

De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ministros e parlamentares governistas correram a reagir com indignação à nova ameaça econômica de Washington. Lula e aliados chamaram o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL ao Planalto, e o irmão Eduardo Bolsonaro de “traidores da pátria”. Políticos petistas criaram e passaram a repetir à exaustão o apelido de “tariflávio”, tentando colar o possível novo tarifaço à recente visita do filho 01 de Jair Bolsonaro ao presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca.

O senador Flávio Bolsonaro, por sua vez, passou o dia negando que tenha ligação com a ameaça dos EUA e atribuindo a situação ao que chamou de “tom agressivo” de Lula contra os americanos. Chegou a gravar e postar um vídeo afirmando ter inclusive pedido a Trump, ao vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, e ao secretário de Estado, Marco Rubio, que não impusessem novas taxas à economia brasileira, inclusive com uma carta.

“Falsos patriotas” e o novo tarifaço dos EUA

No início da tarde desta terça, o governo federal emitiu nota à imprensa na qual manifestava “indignação” com a conclusão preliminar anunciada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) relativa à investigação da Seção 301 contra alegadas práticas comerciais desleais do Brasil.

O documento afirma que, além de não haver justificativa para a aplicação de medidas unilaterais contra o Brasil, a investigação seria resultado exclusivo de provocações da família Bolsonaro, feitas em momentos como a visita de Flávio Bolsonaro à Casa Branca na semana passada.

“Essa investigação teve início em 15 de julho de 2025 por provocação da família Bolsonaro e está associada à tentativa de ingerência em temas internos do nosso país, como feito na recente viagem do senador Flávio Bolsonaro a Washington. Essas investidas têm contado com o auxílio de falsos patriotas, que usam cargos e funções públicas para conspirar contra os interesses nacionais”, traz o texto.

A nota diz, ainda, que o trabalho de diálogo e articulação feito pelo governo brasileiro, com envolvimento pessoal dos presidentes Lula e Trump, teria sido sabotado de forma lamentável por “interesses meramente eleitorais e familiares”. “É preciso estar atento aos traidores da pátria e trabalhar em defesa da nossa soberania e dos interesses do povo brasileiro”, completa a nota.

Flávio tenta se descolar, Trump posta foto

O senador Flávio Bolsonaro e o presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: Divulgação)

Pouco tempo depois da manifestação do Planalto, o presidente norte-americano, Donald Trump, publicou duas fotos da última visita de Flávio à Casa Branca — uma das quais também mostra o ex-deputado cassado Eduardo Bolsonaro. Em seu perfil na rede Truth Social, Trump escreveu: “Foi muito legal receber Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca — um inteligente homem jovem que ama muito seu país, Brasil”.

Pouco antes, o senador tinha divulgado um vídeo no qual atribuiu a ameaça das novas tarifas ao que classificou de “tom agressivo” de Lula contra os americanos. “A realidade é que essa tarifa é do Lula. Pelo seu tom agressivo com os Estados Unidos, seu discurso antiamericano, por defender que o dólar deixe de ser a moeda padrão nas relações internacionais”, argumentou.

Após o vídeo, Flávio divulgou um ofício endereçado ao secretário de Estado estadunidense, Marco Rubio, no qual manifesta preocupação com a possibilidade de novas tarifas contra o Brasil. No documento, o senador destaca o alto nível de endividamento presente no país e alega que o Estado enfrenta uma grave “crise fiscal”, sustentando que novas tarifas poderiam agravar a situação para a população.

Zema, Caiado, Tarcísio

A proposta do tarifaço também foi utilizada como arma política contra o governo e o PT pelos demais pré-candidatos da oposição na eleição presidencial e nas disputas estaduais. O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) e o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) atribuíram a culpa das novas tarifas à política externa do governo Lula, sem mencionar Flávio Bolsonaro.

Em vídeo publicado nas redes sociais nesta terça, Zema também classificou a proposta de taxação do USTR ao Brasil como uma ameaça “inaceitável” e como uma medida protecionista que afeta de forma injusta o setor produtivo.

“Isso não aconteceu por acaso. O governo Lula falhou na diplomacia e não conseguiu defender os interesses do Brasil. Agora, o país corre contra o relógio para tentar evitar esse tarifaço. A Casa Branca está vendo um Brasil que perdeu credibilidade, menos segurança jurídica, menos abertura comercial e menos força para negociar”, afirmou.

A manifestação de Caiado foi feita durante entrevista coletiva em Belo Horizonte. O ex-governador goiano criticou o que apontou ser a ideologização da política externa brasileira sob o governo do presidente Lula, a qual teria perdido seu caráter institucional.

“O Itamaraty sempre foi um ponto de poder capaz de conduzir grandes acordos internacionais. A chancelaria brasileira sempre foi uma referência internacional, mas tomou um lado ideológico e trabalhou todo o tempo para querer romper essa relação com os Estados Unidos”, alegou.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), por sua vez, reservou as críticas à postura dos Estados Unidos sobre a ameaça de tarifaço. Em coletiva de imprensa realizada no interior do estado, Tarcísio manifestou preocupação sobre o possível impacto negativo que a medida teria sobre empresas, empregos, o agronegócio e as indústrias do país. Ele disse que a manifestação americana “não faz o menor sentido” e que as questões investigadas pelo USTR se tratam de temas nos quais os Estados Unidos “não são referência, nem exemplo”.

O Pix no centro da disputa

Parlamentares das bancadas do PT na Câmara dos Deputados e no Senado também acusaram os irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro de atuarem junto ao governo Trump para pressionar o Brasil e enfraquecer conquistas nacionais, como o Pix.

O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), publicou, nas redes sociais, uma imagem de Flávio vestido de garçom entregando o Brasil em uma bandeja para Trump, com o letreiro “Flávio Bolsonaro traidor da pátria”. No texto que acompanha a imagem, o deputado afirmou que a situação é resultado de uma articulação política contra o próprio país.

O vice-líder da Maioria na Câmara, deputado Lindbergh Farias (RJ), também publicou um vídeo em que acusa os irmãos Bolsonaro de estarem “fazendo política contra o próprio país”. Lindbergh afirmou que o questionamento da medida ao Pix evidencia a tentativa americana de interferência na soberania do Brasil.

A deputada Gleisi Hoffmann também reforçou a crença de que a proposta do tarifaço seria resultado das articulações da família Bolsonaro. “O Brasil não pode e não vai ceder nada no Pix para as empresas americanas ficarem cobrando as taxas caríssimas dos cartões. O Pix é nosso, veio para ficar e vamos defender essa conquista para o povo brasileiro”, complementou a ex-ministra das Relações Institucionais.

Outros parlamentares da base governista também repercutiram as críticas a Flávio Bolsonaro e a defesa do Pix e da indústria brasileira contra a nova proposta de tarifaço.

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