Análise

Flávio Bolsonaro e Trump: a lógica contraditória de uma foto

Bolsonaristas e governistas apostam em interpretações diametralmente opostas sobre a imagem do encontro entre o senador brasileiro e presidente dos EUA: prova de força e prestígio ou de subserviência e entreguismo?

Por Lourenço Flores

Publicado em 27/05/2026 às 01:00
Flávio Bolsonaro com Donald Trump no Salão Oval, em 26/5/2026
Flávio Bolsonaro com Donald Trump no Salão Oval: senador pediu que EUA classifiquem facções brasileiras como terroristas (foto: reprodução X)

O cenário é o Salão Oval, coração da Casa Branca, sede do governo dos Estados Unidos. Sentado à mesa, sorrindo, com os braços à frente, está o republicano Donald Trump, espécie de exemplo e padrinho para a ultradireita mundial. Em pé, um pouco para trás e para o lado, o senador Flávio Bolsonaro (PL-SP). Entre um e outro, ao fundo, a bandeira americana. A imagem, divulgada pelo político brasileiro em suas redes sociais, foi imediatamente comemorada por aliados do principal pré-candidato da oposição ao Planalto.

Esse grupo viu na cena sinal de “força e prestígio” – nas palavras do ex-aliado-transformado-em-inimigo-e-renascido-como-bolsonarista-ferrenho Sérgio Moro. A imagem pode, porém, voltar para perseguir o herdeiro de Jair Bolsonaro. Governistas já mostraram que reforçarão o discurso de que os rivais trabalham contra o Brasil. E que jogarão no colo de Flávio e seus aliados qualquer eventual fracasso nas negociações com os EUA ou tentativa de intervenção norte-americana no país.

Os bolsonaristas enxergaram na reunião um tão desejado respiro depois de duas semanas de pancadas incessantes devido à revelação, pelo site “The Intercept Brasil”, da negociação milionária do filho 01 do ex-presidente com o banqueiro Daniel Vorcaro, alegadamente em torno da hagiografia cinematográfica de Jair, o filme “Dark Horse”.

Flávio Bolsonaro deu uma entrevista logo após o encontro, na qual criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que deve concorrer à reeleição pelo PT, e afirmou ter pedido “enfaticamente” a Trump que ordene a classificação das facções criminosas PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas. “Enquanto Lula veio fazer lobby para traficante”, atacou o senador.

O pré-candidato do PL também revelou ter oferecido ao líder norte-americano fazer, caso eleito presidente do Brasil, uma “parceria estratégica de longo prazo” em relação a terras raras e minerais críticos.

Lógicas opostas

As reações imediatas – e de lógicas opostas – à fotografia exemplificam a força da polarização consolidada. Enquanto os alinhados à direita bolsonarista correram a apregoar o “prestígio e a força do alinhamento conservador internacional”, representantes da esquerda mostraram como devem tratar a conversa de Flávio e Trump: um ato de fuga política e subserviência.

O Planalto e seus defensores esperam usar o encontro para reforçar o discurso de defesa da soberania nacional, pintando os rivais como entreguistas e meros funcionários do líder estrangeiro. Para isso, devem inclusive salientar os elementos estéticos da imagem, como o anfitrião sentado e os convidados em pé e atrás, no que poderia ser descrito como pose de auxiliares do manda-chuva. E usar a informação dada por Flávio sobre o oferecimento aos EUA de uma “parceria estratégica de longo prazo” sobre terras raras e minerais críticos.

Em outra imagem do encontro, a Flávio e Tump se somaram Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, neto do ex-presidente-general João Baptista Figueiredo. Foi sobre essa foto “ampliada” que escolheu se manifestar o deputado federal petista Lindbergh Farias: “Três patetas com Trump”.

Eduardo, o filho 03 de Jair, fugiu para os Estados Unidos em 2025 e passou a fazer pressão constante sobre o governo Trump para sancionar o Brasil. Comemorou o tarifaço que atingiu duramente a economia brasileira, o que permitiu a Lula e aliados adotarem a linha da defesa da soberania. Deu resultado, e o presidente viu seus índices nas pesquisas melhorarem, na época. Parte da direita brasileira passou a criticar abertamente Eduardo Bolsonaro por isso.

O ex-deputado federal, que perdeu o mandato por faltas, também se viu envolvido no escândalo “Dark Horse”. Os R$ 61 milhões pagos por Vorcaro foram enviados a um fundo liderado pelo advogado de Eduardo, Paulo Calixto. A PF analisa se parte do dinheiro serviu para bancar as despesas de Eduardo nos EUA – e nas atividades que resultaram também no enquadramento do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes na Lei Magnistsky, que impõs sanções financeiras e legais ao magistrado e familiares.

O encontro, com seus desdobramentos e suas interpretações conflitantes, será tema do programa Matinal desta quarta-feira, no canal Amado Mundo no YouTube. A partir das 8h30, Guilherme Amado e Beatriz Bulla recebem o cientista político Jairo Nicolau para uma conversa sobre a reunião do filho 01 de Jair Bolsonaro com o presidente dos EUA. Nicolau trata justamente dessa divisão polarizada do país em seu mais recente livro, “O país dividido – Duas décadas de eleições presidenciais no Brasil (2002-2022)”, que sairá no início de junho pela editora Zahar.

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