Flávio pode ganhar no 1º turno? A questão do voto útil e do voto envergonhado
Possibilidade de resolução da eleição presidencial já no 1º turno, e com vitória do senador do PL, ganha tração; 'antipetismo de chegada' é uma das hipóteses

A menos de três semanas do 1º turno, uma hipótese que até recentemente parecia improvável começa a entrar nas análises sobre a eleição presidencial brasileira: a possibilidade de a disputa terminar já em 4 de outubro. O cenário mais provável continua sendo um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, mas a crescente concentração do voto nos dois principais candidatos e a pequena distância que os separa tornam arriscado tratar essa segunda votação como uma certeza. Em uma eleição tão polarizada, os últimos movimentos de uma parcela relativamente pequena do eleitorado podem produzir consequências maiores do que sugerem os percentuais atuais.
As pesquisas divulgadas nos últimos dias mostram por que essa discussão surgiu. Meio/Ideia colocou Lula com 38,4% e Flávio Bolsonaro com 37,3%; Datafolha registrou 39% a 35%; e Quaest, 36% a 31%. As metodologias e os resultados variam, mas apontam para uma mesma realidade: Lula e Flávio concentram uma parcela muito grande do eleitorado, enquanto as demais candidaturas permanecem distantes. No segundo turno, a competição é ainda mais apertada. Meio/Ideia registrou 46% a 46%; Datafolha, 46% a 44% para Lula; e a nova Quaest trouxe Flávio numericamente à frente, 42% a 40%, todos resultados dentro das respectivas margens de erro.
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‘Antipetismo de chegada’ embala análise sobre resolução no 1º turno
É nesse contexto que Maurício Moura, fundador do Instituto Ideia, chamou atenção para uma possibilidade particularmente importante. Segundo ele, uma vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno não deveria ser considerada uma surpresa. Sua hipótese se apoia no que denomina de “antipetismo de chegada”: na reta final, eleitores que hoje preferem outros candidatos de oposição podem abandonar suas primeiras escolhas e antecipar para o primeiro turno um voto útil contra o PT. Em vez de esperar pelo segundo turno para se reunir em torno do adversário de Lula, esse eleitorado poderia começar a fazê-lo antes.
Esse movimento altera a maneira de interpretar a reta final. A pergunta decisiva talvez não seja apenas para onde irão os poucos eleitores ainda capazes de mudar de posição, mas que tipo de movimento eles farão. Alguns podem trocar diretamente de candidato; outros podem abandonar candidaturas menores; outros ainda podem decidir não comparecer. Em uma eleição definida pelos votos válidos, abstenções, votos brancos e nulos também alteram o denominador e, consequentemente, a quantidade de votos necessária para alcançar a maioria absoluta.
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O fenômeno pode operar nas duas direções. Lula também poderia se beneficiar de uma concentração antecipada do voto, sobretudo se crescer entre seus eleitores a percepção de que existe uma possibilidade real de vitória no primeiro turno. Há, entretanto, uma assimetria importante entre os dois campos. Lula já concentra praticamente todo o espaço eleitoral da centro-esquerda e da esquerda, enquanto ainda existem candidaturas disputando parcelas relevantes do eleitorado de centro e de direita que rejeitam o PT. Isso significa que uma eventual onda de voto útil da oposição em direção a Flávio Bolsonaro dispõe, em princípio, de um reservatório eleitoral maior para reorganizar.
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Existe ainda uma segunda incógnita, mais difícil de medir: o chamado “voto envergonhado”, isto é, a possibilidade de determinados eleitores esconderem ou não declararem sua verdadeira preferência quando entrevistados. Em eleições anteriores discutiu-se a existência desse comportamento entre segmentos do eleitorado de Lula submetidos a ambientes sociais fortemente antipetistas. Mulheres de periferia, por exemplo, podiam estar inseridas simultaneamente em famílias, igrejas ou comunidades onde declarar o voto no PT implicava constrangimento, embora guardassem uma memória positiva dos efeitos dos governos Lula e Dilma sobre suas condições de vida.
Nesta eleição, é legítimo perguntar se o mecanismo poderia operar também na direção contrária. Não há como afirmar que exista hoje um “voto envergonhado” pró-Flávio, muito menos determinar sua dimensão. Se fosse facilmente identificável, deixaria justamente de constituir um problema de mensuração. Mas a hipótese merece atenção.
Pode haver eleitores que relutem em declarar publicamente apoio a um candidato cercado por denúncias e investigações, filho de um ex-presidente preso e representante de uma família submetida a forte rejeição em determinados segmentos sociais, mas que, diante da urna, estejam dispostos a votar nele por antipetismo, insatisfação com o terceiro governo Lula, percepção negativa sobre o custo de vida ou simplesmente desejo de mudança.
Voto útil e voto envergonhado são fenômenos diferentes. O primeiro ainda pode ser produzido durante a campanha; o segundo, se existir, já estaria escondido dentro dos números que estamos vendo. E é justamente a combinação possível entre os dois que torna a reta final especialmente difícil de interpretar. Em uma eleição separada por poucos pontos, não é necessário que nenhum desses fenômenos tenha grandes dimensões para produzir consequências importantes.
A eleição brasileira entra, portanto, em uma fase diferente. Durante meses, a principal pergunta foi quem venceria um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. Agora surge uma questão anterior: haverá segundo turno? A resposta pode depender menos de grandes deslocamentos eleitorais do que da combinação de pequenos movimentos simultâneos — participação, abstenção, voto útil, eventual voto envergonhado e concentração das candidaturas — capazes de alterar a matemática dos votos válidos.
Isso aumenta enormemente a importância das próximas pesquisas e das últimas semanas de campanha. Flávio Bolsonaro apresenta sinais de crescimento em levantamentos recentes, enquanto Lula encontra dificuldades para ampliar sua vantagem. Em uma disputa tão cristalizada, a própria percepção de viabilidade pode produzir comportamento eleitoral: quanto mais Flávio for percebido como capaz de vencer, maior pode se tornar o incentivo para que eleitores de outras candidaturas oposicionistas antecipem o voto útil. Ao mesmo tempo, a crise no Supremo Tribunal Federal, a abertura dos a arquivos do caso do Banco Master e do caso do filme Dark Horse continuam ocupando parte relevante da atenção pública e disputando espaço com a própria campanha, acrescentando mais elementos de imprevisibilidade à reta final.
Uma vitória no primeiro turno, de qualquer dos lados, não representaria apenas a antecipação do resultado por três semanas. Produziria uma narrativa de força política muito diferente para o presidente eleito e modificaria imediatamente a dinâmica das negociações com o Congresso, das alianças estaduais e da própria interpretação do mandato recebido das urnas.
Por isso, talvez seja necessário abandonar uma das certezas que acompanharam a campanha até aqui. O Brasil continua diante de uma eleição extraordinariamente equilibrada entre Lula e Flávio Bolsonaro. Mas equilíbrio não significa necessariamente segundo turno. Quando dois candidatos concentram quase todo o voto competitivo, os últimos poucos pontos disputados deixam de ser apenas a margem da eleição. A “eleição dos 5%” pode decidir quando e não somente por quem ela será decidida.