Por que pesquisas mostram resultados similares, mas patamares de intenção de voto diferentes
Institutos registram variação de até 5 pontos percentuais nos índices; métodos de entrevista e formas de medir brancos e nulos podem explicar a diferença

As últimas rodadas das pesquisas BTG/Nexus e Quaest, divulgadas nesta segunda-feira, 14/9, confirmam um cenário de forte polarização e de empate técnico em um eventual segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL). No entanto, a divergência entre os patamares de intenções de voto chama a atenção: enquanto a BTG/Nexus mostra Flávio com 47% e Lula com 46%, a Quaest aponta um total ao menos cinco pontos percentuais menor para ambos, com o senador ainda à frente, mas com 42%, contra 40% do presidente.
Buscando entender as implicações metodológicas que poderiam explicar essa diferença percentual entre as pesquisas, o Amado Mundo analisou as metodologias aplicadas pelos institutos e questionou especialistas e representantes da área para ajudar a esclarecer esse entendimento.
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Para o cientista político da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep) Rodrigo de Carvalho, a principal mensagem dos números é a de que a disputa seguirá dividida. “Quem achava que poderia abrir quatro, cinco, seis pontos de diferença percebe que será uma campanha polarizada até o final”, afirma. A explicação para o desnível nos percentuais dos candidatos de uma pesquisa para a outra, no entanto, passa diretamente pelas diferentes escolhas metodológicas adotadas pelos institutos.
Consulta estimulada para brancos e nulos
Um levantamento feito pela reportagem nos dados registrados pelos institutos no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revela uma diferença fundamental na forma de questionar o eleitor. Nas pesquisas da Quaest, que são feitas presencialmente, o entrevistador entrega um tablet ao eleitor com um “disco” visual. Nesse disco, além dos nomes dos candidatos, constam opções como “não sei em quem vou votar”, “branco e nulo” e “não vou votar”. Na prática, dizem analistas, a metodologia estimula a possibilidade do não voto.
Já na pesquisa BTG/Nexus, feita por telefone, o entrevistador lê apenas os nomes dos candidatos. Se o eleitor quiser anular o voto ou disser que não sabe, ele precisa manifestar a decisão de forma espontânea. Como resultado, a Quaest chega a registrar cerca de 18% de não votos (somando brancos, nulos e indecisos), contra cerca de 7% na Nexus e 11% no Datafolha. Como a soma total da pesquisa precisa fechar em 100%, esse alto índice de abstenção “puxa” a porcentagem de intenções de voto de todos os candidatos para baixo.
Leia mais: Como Datafolha e Quaest lidam com a abstenção nas pesquisas das eleições 2026
Carvalho avalia que essa diferença no uso das metodologias estimuladas faz sentido para explicar a disparidade e pode estar captando melhor o “humor” de parte do eleitorado. Segundo o cientista político, o fator de não comparecimento em urna pode ser determinante para o resultado, e a pesquisa pode estar captando a insatisfação de eleitores de outras candidaturas que hoje preferem não escolher um lado no segundo turno.
O embate das metodologias de pesquisa: telefone x rua
Outro ponto central para explicar os números é o método de abordagem. Marcelo Tokarski, CEO da Nexus — responsável pela pesquisa BTG/Nexus —, explicou que existe um viés de seleção natural na pesquisa telefônica. O modelo tende a captar um eleitor que já está prestando mais atenção na eleição, pois o cidadão indeciso costuma desligar a chamada. Já na abordagem presencial na rua, o eleitor mais desinteressado acaba respondendo qualquer coisa apenas por pena ou educação com o entrevistador. Além disso, Tokarski reforça que o telefone consegue atingir eleitores em locais de difícil acesso para equipes de rua, como favelas e condomínios de luxo.
Rodrigo de Carvalho concorda que o modelo telefônico tem esse filtro natural de engajamento, mas ressalta que a pesquisa territorial (presencial) tem vantagens estruturais. Ele considera o método presencial mais assertivo, porque o pesquisador vai até o domicílio e precisa seguir rigorosamente as cotas de perfil do Instituto Brasilieiro de Geografia e Estatística (IBGE), como religião, gênero e idade. O especialista da Abradep alerta que pesquisas por telefone podem sofrer pequenas distorções, porque os entrevistados nem sempre relatam com precisão dados demográficos, como a própria faixa de renda.
Tokarski avalia que, conforme a eleição se aproxima, as curvas das pesquisas presenciais e telefônicas tendem a convergir para os mesmos patamares, à medida que a população em geral passa a dar mais foco à política. Carvalho, porém, pondera que, no caso da eleição para presidente, o eleitorado já está suficientemente engajado neste momento devido à manutenção do clima de “Fla-Flu” no país.
Analisando o cenário para o segundo turno, Carvalho nota que candidatos que despontaram como alternativas recentes recuaram, o que faz parte do eleitorado retornar para Flávio Bolsonaro. Em contrapartida, discursos agressivos e de oposição feitos por figuras da direita [como Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo)] contra Bolsonaro podem acabar tirando votos do senador. Para o cientista político, a expectativa geral é de que não haja um distanciamento grande entre Lula e Flávio no segundo turno, e que o resultado final repita o cenário de 2022, sendo decidido por uma margem inferior a 2%.