Reportagem

Em escalada da tensão, Estados Unidos revogam visto de embaixadora do Brasil

Medida é resposta à demora do Brasil em aprovar embaixador indicado pelos Estados Unidos e ocorre em meio a tensões sobre tarifas e eleições

por João Pedro Bitencourt
04/08/2026 às 19:03 · Atualizado há 1 mês
A embaixadora brasileira Maria Luísa Viotti (José Cruz/Agência Brasil)

Os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Ribeiro Viotti. A decisão foi uma resposta à demora do governo brasileiro para conceder aval ao embaixador americano nomeado para Brasília, Daniel Perez, informou, nesta terça-feira (4/8), uma autoridade do Departamento de Estado. A informação é da agência de notícias AFP. A embaixadora brasileira pode, entretanto, permanecer no país, à espera do desbloqueio do impasse diplomático, e a decisão pode ser revertida caso o Brasil conceda o aval.

A decisão também ocorre dez dias após o Itamaraty negar vistos a dois integrantes graduados do Departamento de Estado americano que planejavam viajar a Brasília nas próximas semanas. De acordo com o jornal americano “The Washington Post”, fontes brasileiras afirmaram que suspeitavam de que o verdadeiro objetivo da missão seria se encontrar com críticos do sistema eleitoral e produzir um relatório capaz de alimentar dúvidas sobre a confiabilidade da urna eletrônica brasileira.

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Como mostrou Letícia Duarte, a indicação do nome do então parlamentar estadual republicano da Flórida Daniel Perez à embaixada americana no Brasil, sem consulta prévia a Brasília, incomodou o Itamaraty, que deixou vazar seu descontentamento. A diplomacia brasileira viu no fato de o Departamento de Estado americano não ter seguido a tradição de consultar em sigilo a nação anfitriã sobre o nome desejado antes da formalização da indicação um novo gesto de desrespeito do governo Trump.

Episódio aumenta nível da crise entre Estados Unidos e Brasil

No fim de semana retrasado, o governo brasileiro protagonizou uma sequência de gestos que expuseram o agravamento da crise diplomática com Washington. No dia 25 do mês passado, horas antes de Brasília barrar a entrada de dois diplomatas americanos suspeitos de tentar deslegitimar o sistema eleitoral brasileiro, o presidente Lula (PT) publicou um artigo no “The Washington Post” criticando diretamente o tarifaço imposto pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Um dia depois, o presidente brasileiro conversou por telefone por mais de uma hora com o presidente chinês, Xi Jinping, hoje o principal adversário dos norte-americanos na guerra comercial travada por Trump.

A tensão agravou-se após o governo dos Estados Unidos anunciar a imposição de dois tarifaços, ambos resultados de investigações do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). A primeira medida foi direcionada especificamente ao Brasil e teve como justificativa supostas práticas desleais adotadas pelo comércio brasileiro. A segunda abrangeu mais países e teve como pano de fundo a suposta falta de esforços para combater o trabalho forçado. No entanto, especialistas dizem que essas são apenas um pretexto para os Estados Unidos conseguirem justificar, perante a Suprema Corte americana, sua política alfandegária mais protecionista.

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