Letícia Duarte

De NY, análises sobre o mundo e os EUA

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Análise

O que realmente está em jogo na nova ofensiva tarifária dos EUA contra o Brasil

Em menos de uma semana, Washington classificou PCC e CV como organizações terroristas, destacou proximidade com Flávio Bolsonaro e retomou ofensiva tarifária

Publicado em 05/06/2026 às 06:00
Trump recebe Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e o blogueiro Paulo Figueiredo no Salão Oval, na semana passada (foto: reprodução/Truth Social)

Se havia dúvidas sobre a natureza ideológica das possíveis novas tarifas de 25% anunciadas pelo governo Trump contra o Brasil, a resposta veio em imagens. Poucas horas depois do anúncio da sanção, Donald Trump publicou em sua rede social fotos da visita de Flávio Bolsonaro ao Salão Oval na semana anterior, acompanhadas de elogios ao senador brasileiro.

A mensagem foi reforçada por declarações do secretário de Estado, Marco Rubio, no mesmo dia. Durante audiência no Comitê de Relações Exteriores do Senado, Rubio destacou o Brasil como exceção ao listar governos considerados aliados dos Estados Unidos na América Latina e fez referências diretas ao processo eleitoral brasileiro.

Com seus comentários, Rubio ajudou a politizar ainda mais uma disputa que, formalmente, está sendo apresentada como um desacordo comercial. Não por acaso, ele se tornou um dos principais interlocutores da família Bolsonaro dentro da administração Trump.

Pressão com nova ofensiva tarifária

A imposição de novas tarifas ao Brasil já era esperada, mas o momento escolhido para o anúncio, somado à cronologia dos acontecimentos recentes, reforça a percepção de pressão política sobre Brasília. Em menos de uma semana, Washington classificou PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, voltou a destacar publicamente sua proximidade com Flávio Bolsonaro e avançou com a proposta tarifária – que inclui ainda uma proposição adicional de 12,5% por acusações de falhas do Brasil no combate ao trabalho escravo.

Por outro lado, reduzir a retomada tarifária a uma simples retaliação política seria ignorar uma parte importante da história. Desde o início de seu segundo mandato, Trump vem utilizando tarifas não apenas como instrumentos de política comercial, mas também como ferramentas de negociação e pressão. A lógica tem sido criar custos potenciais para parceiros e, em seguida, negociar concessões consideradas vantajosas para os interesses americanos.

Leia mais: Nas redes sociais, 74,1% colam novo tarifaço nos Bolsonaro

A administração Trump já havia deixado claro que buscaria alternativas jurídicas para restaurar as tarifas derrubadas pela Suprema Corte dos Estados Unidos em fevereiro deste ano. Com isso, a investigação aberta pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, tornou-se o principal instrumento dessa estratégia.

Depois que a Suprema Corte limitou o uso dos poderes emergenciais empregados por Trump no tarifaço de 2025, a Casa Branca passou a depender de mecanismos mais tradicionais e juridicamente mais resistentes.

Para justificar a imposição de novas tarifas, o governo americano argumenta que o Brasil mantém práticas que prejudicam empresas americanas em áreas que vão do Pix e da regulação de plataformas digitais ao etanol, propriedade intelectual, corrupção e desmatamento. A amplitude da investigação parece ser uma colcha de retalhos para tentar provar um argumento frágil.

Segundo dados do próprio USTR, as exportações americanas para o Brasil cresceram 10,7% em 2025, alcançando US$ 54,4 bilhões, enquanto as importações provenientes do Brasil recuaram 5,7% (para US$ 39,9 bilhões). O resultado foi um superávit comercial americano de 14,4 bilhões de dólares.

Diferentemente da China, do México ou do Vietnã, o Brasil não é um país com o qual os Estados Unidos mantenham um déficit comercial relevante. Isso enfraquece a justificativa tradicional do trumpismo econômico baseada na correção de desequilíbrios comerciais e sugere que outras preocupações estão em jogo.

Vale lembrar que ainda existe margem para negociação antes da implementação das tarifas. O processo prevê consultas públicas e uma decisão final apenas em julho. Historicamente, a Seção 301 funciona não apenas como instrumento punitivo, mas como mecanismo de pressão para ampliar o poder de barganha dos Estados Unidos em negociações comerciais e regulatórias.

A própria lista de exceções reforça essa interpretação. Apesar da repercussão política, a proposta inclui 73 páginas de produtos poupados das tarifas, entre eles café, carne bovina, aeronaves, petróleo, fertilizantes, terras raras e outros minerais críticos considerados estratégicos para a economia americana.

Se o objetivo fosse simplesmente punir o Brasil, seria difícil justificar tantas exclusões. O desenho da medida sugere uma tentativa de aumentar a pressão sem provocar uma ruptura econômica ou impor custos relevantes aos próprios consumidores americanos, especialmente em um ano de eleições legislativas de meio de mandato.

Ao mesmo tempo, a preservação de setores ligados a minerais críticos mantém aberta uma frente importante de negociação. O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China, e vem sendo disputado por Estados Unidos, União Europeia e China na corrida por insumos essenciais para semicondutores, baterias, inteligência artificial e tecnologias de energia limpa.

A lógica ajuda a entender por que a investigação vai muito além do comércio tradicional. Ainda que por caminhos diferentes, a classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas e a pressão tarifária produzem efeitos semelhantes: ampliam a capacidade de influência de Washington sobre temas tradicionalmente tratados como assuntos domésticos dos países latino-americanos.

O que está sendo negociado não é apenas o acesso de produtos brasileiros ao mercado americano, mas os termos da relação entre Brasil e Estados Unidos em uma nova fase de competição geopolítica nas Américas.

Outro episódio que ameaça aumentar o abalo da relação bilateral é a indicação pelo governo norte-americano, sem consulta prévia a Brasília, de um novo embaixador no Brasil. O Itamaraty deixou vazar seu incômodo com o envio para análise do Senado dos EUA do nome do parlamentar estadual republicano da Flórida Daniel Perez sem aviso prévio ao país.

A diplomacia brasileira viu no fato de o Departamento de Estado americano não ter seguido a tradição de consultar em sigilo a nação anfitriã sobre o nome desejado antes da formalização um novo gesto de desrespeito do governo Trump.

Ao mesmo tempo em que amplia a pressão econômica sobre Brasília, a ala mais ideológica do governo Trump se empenha para conciliar a agenda doméstica com gestos políticos favoráveis a Flávio Bolsonaro. O governo Lula reagiu acusando o senador de atuar contra os interesses do país, enquanto Flávio tenta desvincular sua aproximação com Trump dos possíveis impactos econômicos da medida.

Somados, os episódios das últimas semanas tornam difícil sustentar que a Casa Branca continua apenas observando a eleição brasileira à distância. Ainda é cedo para saber quem colherá os dividendos eleitorais dessa escalada. Mas tudo indica que o governo Trump entrou de vez na corrida eleitoral. 

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