El Niño: 9 em cada 10 brasileiros temem impactos em infraestrutura, saúde e custo de vida
Levantamento revela preocupação generalizada com efeitos do El Niño sobre preço de alimentos, saúde e infraestrutura; ONU reforça risco de insegurança alimentar

O avanço do El Niño preocupa os brasileiros, principalmente pelo previsto impacto no custo de vida. Nove em cada dez pessoas acreditam que o fenômeno climático provocará alta no preço dos alimentos, segundo uma pesquisa inédita da Nexus divulgada nessa quarta-feira (5/8).
Ao todo, 91% dos entrevistados esperam algum impacto sobre os preços: 77% acreditam que o efeito será grande; e 14% avaliam que será menor. Apenas 5% dizem que o El Niño não deve influenciar o valor dos alimentos.
A preocupação, no entanto, vai além da inflação. O levantamento mostra que 92% dos brasileiros acreditam que o fenômeno agravará problemas de saúde, como doenças respiratórias e enfermidades relacionadas a enchentes; 89% esperam aumento nas contas de água e energia elétrica e dificuldades no abastecimento de água; e 87% acreditam que a infraestrutura das cidades será afetada.

Segundo o CEO da Nexus, Marcelo Tokarski, a percepção é influenciada pelos eventos climáticos extremos registrados recentemente no país.
“A memória da população das enchentes no Sul do país e dos desabamentos no Sudeste ainda é recente. O temor de que isso afete suas rotinas está muito presente, o que leva 9 em cada 10 brasileiros a acreditarem que o El Niño terá impactos na infraestrutura do país, no abastecimento de água, na saúde das pessoas e no custo de vida”, afirmou.
Desinformação reduz percepção de risco
Apesar da preocupação, 36% dos brasileiros afirmam não estar familiarizados com o El Niño. O desconhecimento é maior entre quem recebe até um salário mínimo (52%) e entre jovens de 16 a 24 anos (51%).
A pesquisa identificou ainda que o nível de preocupação cresce conforme aumenta o conhecimento sobre o fenômeno. Antes de receberem uma explicação sobre o que é o El Niño e seus possíveis efeitos, 24% dos entrevistados disseram sentir medo extremo de suas consequências. Depois da explicação, esse percentual saltou para 47%.
Brasileiros veem cidades despreparadas para o El Niño
Além da preocupação com os efeitos do El Niño, a pesquisa revela baixa confiança na capacidade dos municípios de enfrentar eventos climáticos extremos. Para a maior parte da população, as cidades brasileiras ainda não estão preparadas para responder a enchentes, secas e outros desastres associados ao fenômeno.
Oito em cada dez brasileiros avaliam que o município onde vivem está pouco (16%) ou nada (64%) preparado para lidar com os impactos do El Niño. Apenas 8% consideram suas cidades parcialmente preparadas e só 3% acreditam que elas estão muito preparadas.
A percepção de despreparo é ainda mais intensa entre pessoas de 50 a 64 anos. Nesse grupo, 72% afirmam que o local onde vivem não está preparado para enfrentar fenômenos climáticos extremos.
Alerta da ONU reforça temor sobre alimentos
A preocupação dos brasileiros coincide com um novo alerta internacional. Um relatório do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU divulgado nessa quarta-feira (5/8) aponta que o El Niño tem 81% de probabilidade de ser muito forte, podendo se tornar o mais intenso desde 1950. Segundo o organismo, o fenômeno poderá levar 49 milhões de pessoas à fome aguda até o fim de 2027, elevando de 225 milhões para 274 milhões o número de pessoas em insegurança alimentar aguda em 45 países vulneráveis, um aumento de 22%.
A América Latina e o Caribe estão entre as regiões potencialmente mais afetadas, com previsão de mais de 16 milhões de pessoas adicionais em situação de insegurança alimentar. Na América Central, o aumento proporcional pode chegar a 83,1%, o maior entre todas as regiões analisadas.
O relatório também estima que mais de 18 milhões de pessoas possam entrar em situação de insegurança alimentar no leste e sul da África, além de 8,2 milhões na Ásia e no Pacífico e de quase 6 milhões na África Ocidental e Central.
A intensificação do El Niño deve provocar secas, enchentes, ondas de calor e perdas de safras em diferentes regiões do mundo, comprometendo a produção agrícola e aumentando o risco de alta nos preços dos alimentos. O pico do fenômeno é esperado entre setembro e dezembro de 2026, mas o PMA alerta que seus efeitos podem se estender por todo 2027.