Com 63% de risco de alcançar força histórica em novembro, novo El Niño já começou
Um dos fenômenos responsáveis pela tragédia das enchentes no RS em 2024, El Niño volta a aquecer o Oceano Pacífico; desta vez, previsão é de que seja “super”

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou formalmente, nessa quinta-feira (11/6), que o fenômeno meteorológico El Niño começou. O anúncio liga um sinal de alerta para cientistas e autoridades, pois a agência calcula uma probabilidade de 63% de que seja uma anomalia climática de intensidade histórica entre novembro deste ano e janeiro de 2027. Isso colocaria o evento entre os mais fortes registrados desde 1950.
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O que é o El Niño?
O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Líder em Mudanças Climáticas do WWF-Brasil ( Fundo Mundial para a Natureza, em português), Alexandre Prado explica que o fenômeno ocorre periodicamente, mas sem uma frequência fixa.
“Os centros que monitoram o aquecimento do oceano vão avaliando ano a ano e, quando esse aquecimento se confirma e atinge um certo grau, eles declaram o El Niño”, afirma.
Esse aquecimento altera os padrões globais de ventos e chuvas, elevando as temperaturas em diversas partes do mundo. No Brasil, os efeitos típicos incluem aumento de chuvas na Região Sul e risco acentuado de secas severas no Norte e em partes do Nordeste.
O fenômeno do “Super El Niño”
Embora o termo “Super El Niño” não seja uma categoria científica oficial, ele é amplamente utilizado por especialistas para descrever eventos de intensidade extraordinária. Segundo Prado, a preocupação atual reside no fato de que a curva de aquecimento está muito acima do padrão, com um aumento de dois a três graus acima do considerado normal.
“A gente vive num planeta que é redondo, e essas anomalias de temperatura e de clima interferem em todo o planeta. Elas interferem no regime de chuvas, de secas na Amazônia, na circulação das correntes marítimas e atmosféricas”, enfatiza o líder do WWF-Brasil, ressaltando que esse superaquecimento não é um problema isolado no oceano.
Impactos e a necessidade de preparação
O mundo ainda guarda memórias recentes dos estragos causados pelo El Niño de 2023-2024, que gerou custos diretos e indiretos de cerca de R$ 100 bilhões ao Brasil devido a enchentes e secas devastadoras. Prado adverte que a população das áreas alagadas no passado deve ficar atenta aos sinais e aos indicadores da Defesa Civil, especialmente em áreas de risco.
Para a região amazônica, a recomendação é de prevenção logística, como começar a estocar alimentos não perecíveis e montar um sistema de abastecimento de água para o período da seca.
Mudanças climáticas colocam “mais lenha na fogueira”
A chegada deste El Niño ocorre em um planeta já aquecido pela queima de combustíveis fósseis. O secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), António Guterres, afirmou que as condições do fenômeno “colocarão mais lenha na fogueira de um mundo que se aquece”.
Diante dessa ideia, o líder do WWF-Brasil reforça que mitigar as mudanças climáticas é mais barato do que remediar seus desastres. Além da redução de emissões, ele sugere investimentos em “infraestrutura baseada na natureza” e no conceito de “cidades-esponja”, que prevê o armazenamento da água em regiões metropolitanas, para adaptar os centros urbanos aos extremos climáticos que se tornam cada vez mais frequentes.
“É muito mais efetivo e barato para a economia como um todo a gente reduzir as emissões agora. O desmatamento é o nosso maior fator de contribuição, e parar de desmatar nos traz um país mais sustentável e equilibrado”, declara.
Posição do governo brasileiro
Em entrevista ao programa “Bom Dia, Ministro” de ontem, o titular do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, detalhou a estratégia do governo federal para combater os efeitos do novo El Niño. Uma das ações em andamento é a implementação de um modelo de monitoramento contínuo e consultas periódicas com especialistas climáticos do Brasil e do exterior.
O ministro declarou que o governo trabalha com a projeção de 80% de probabilidade de um El Niño muito intenso. Capobianco contou que já foi instalada uma sala de situação permanente, coordenada pela Casa Civil, envolvendo 13 ministérios e órgãos públicos, para tratar da situação. Essa estrutura, diz o chefe da pasta do Meio Ambiente, aciona o planejamento de recursos extraordinários para preparar Forças Armadas, Polícia Federal, Ibama e ICMBio, além de articular ações diretas com estados e municípios.
“O El Niño é um fenômeno natural, ele sempre ocorreu. O problema é que agora ele se associa à mudança do clima. Então ele tem potencial de ser mais intenso. O que temos hoje é uma indicação de que há aproximadamente 80% de chance de probabilidade de ser um El Niño muito intenso. Então, o que deveríamos fazer? Aguardar 100% de certeza? Claro que não. O Brasil nunca trabalhou assim. E agora estamos muito melhor preparados do que nos anos anteriores”, afirmou João Paulo Capobianco.
Ele detalhou os esforços de antecipação e planejamento contra as queimadas na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal, impulsionado pela aprovação da Lei do Manejo Integrado do Fogo.
“A nova legislação estabelece o princípio da corresponsabilidade, dividindo atribuições claras entre União, estados, municípios e proprietários rurais. Na prática, isso quer dizer que, pela lei, os estados e municípios precisam elaborar os seus planos de manejo integrado do fogo para cada área do seu estado e municípios. E os proprietários rurais também passam a ter responsabilidade na prevenção”, disse o ministro.
Com informações da AFP