Reportagem

‘O futebol não pertence a um indivíduo’: Uefa, AFC e Concacaf exigem saída de Infantino

Três confederações continentais divulgaram comunicado em conjunto com duras críticas ao presidente da Fifa após plano de "privatizar" Copa

por Weslley Neto
10/08/2026 às 14:34 · Atualizado há 1 mês
Gianni Infantino e Donald Trump na final da Copa do Mundo de 2026
Gianni Infantino e Donald Trump na final da Copa do Mundo de 2026 (Reprodução/Instagram @gianni_infantino)

Uefa, AFC e Concacaf, as confederações de futebol da Europa, da Ásia e da América do Norte, Central e do Caribe, divulgaram uma carta conjunta na manhã desta segunda-feira (10/8) exigindo a renúncia do presidente da Fifa, Gianni Infantino.

O posicionamento volta a fazer duras críticas ao suíço-italiano e ocorre após a polêmica proposta (posteriormente retirada) de criar uma empresa com investidores privados para administrar competições organizadas pela Fifa — incluindo a Copa do Mundo e Mundial de Clubes. O trio de confederações pede que a conduta do presidente da entidade seja investigada.

“A liderança no futebol não é uma posse. Não se trata de deter, nem de exigir, o poder para o deter. É um dever de serviço para com a família do futebol que a confia”, diz um trecho do comunicado assinado pelas três confederações.

“Há silêncio onde deveria haver prestação de contas, distância onde deveria haver transparência. Essas não são as qualidades que o futebol merece em sua liderança. É por isso que tomamos essa posição: não de forma leviana e não sozinhos, mas juntos e por dever para com o esporte que servimos. A força do futebol sempre foi a sua união. Apelamos para que essa união seja honrada agora, para uma liderança que sirva o futebol, e não que busque controlá-lo”, seguiu o texto, deixando claro o descontentamento com a continuação de Gianni Infantino no comando da Fifa.

As três confederações apontaram uma “quebra de confiança” após a realização da proposta, afirmando que o presidente da Fifa se enganou ao tentar se colocar acima do coletivo que lhe atribuiu a autoridade, deixando de cumprir o dever da liderança que lhe foi cedida.

“O futebol é a maior paixão compartilhada do mundo. Ele não pertence a um único indivíduo ou instituição. Pertence aos jogadores, aos torcedores, aos clubes, às federações e a todas as instituições encarregadas de salvaguardar o seu futuro”, completou o comunicado.

Leia mais: Infantino admite erros, se desculpa e segue no comando da Fifa (mas não convence a Uefa)

Confederações questionam reunião

Uefa, AFC e Concacaf também questionaram o posicionamento anterior da Fifa. A entidade máxima do futebol se referiu à proposta de Infantino como um “erro de comunicação”, enquanto as confederações apontam ter sido um “erro de julgamento”. A proposta de venda das ações foi apresentada em um prazo extremamente curto, sem consultas adequadas e com um cronograma que teria dificultado a análise de seus termos, conforme o trio de confederações.

As entidades continentais defendem que a análise do caso seja realizada por uma entidade terceira, totalmente independente e sem interesses relacionados. Para Uefa, AFC e Concacaf, a própria administração da Fifa, funcionários da entidade ou qualquer instituição ligada ao futebol não deveriam participar de uma investigação.

As confederações reforçam que apenas um dirigente eleito esteve presente na reunião da Fifa realizada no Marrocos durante a última quinta-feira (6). Nenhum membro do Conselho da Fifa ou das 211 associações de futebol dos países foi convidado a participar, o que foi confirmado pela própria entidade máxima do futebol. Apenas o comitê de gestão, composto por funcionários seniores da Fifa, esteve presente.

Fifa diz não ceder às pressões

A Fifa se posicionou ferozmente sobre a pressão contra o presidente da entidade no último sábado (8/8). Segundo a entidade máxima do futebol mundial, estão ocorrendo ataques injustos ao presidente suíço e, “se querem trocar o presidente, façam isso pela eleição e pelas regras” estabelecidas pela Fifa. As próximas eleições ocorrem em março de 2027.

“A Fifa não apoiará, facilitará ou tolerará qualquer processo relacionado à eleição do presidente da Fifa que seja inconsistente com os estatutos da Fifa, procedimentos democráticos e o quadro de governança estabelecido. O presidente da Fifa foi eleito democraticamente pelas Associações Membro e continua a servir com o seu mandato […] É cada vez mais evidente que há um esforço concertado e contínuo de alguns para minar a Fifa e o seu presidente”, reforçou a entidade em comunicado oficial.

O posicionamento da Fifa não citou a Uefa nem as demais confederações que se posicionaram contra a continuação de Infantino, mas deixou um recado direto. “Se vocês não conseguem maioria entre as federações para derrotar o Infantino numa eleição, não tentem derrubá-lo através de denúncias, rumores e matérias jornalísticas”, diz o texto. Anteriormente, a Uefa anunciou que pretende manter um boicote às competições promovidas pela Fifa.

Leia mais: Brasileira mais cara da história, Kerolin encara desafio de ‘substituir’ lenda do Barcelona

Posicionamentos de outras confederações

A Conmebol, confederação da América do Sul, manifestou-se sobre o caso apenas na última quinta-feira (6/8). “O Conselho manifesta, de forma unânime, sua preocupação com as reiteradas ações unilaterais adotadas sem recorrer ao diálogo nem aos mecanismos institucionais previstos para o tratamento desse tipo de situação […] Consequentemente, a Conmebol não apoiará qualquer atuação ou procedimento que desconsidere ou se afaste desses mecanismos institucionais”, diz a nota oficial, mantendo uma neutralidade sobre a pressão sobre Gianni Infantino.

Na África, a CAF (Confederação Africana de Futebol) também adotou uma postura mais cautelosa. A entidade preferiu não assumir uma posição definitiva, e disse esperar os desdobramentos do caso. A CAF convocou reuniões de seu comitê executivo para avaliar detalhadamente os possíveis efeitos da criação da empresa Fifa Forward Enterprise (FFE) sobre o futebol africano. A Confederação de Futebol da Oceania (OFC) optou por uma linha de neutralidade.

Segundo a reportagem do “The Times”, a Fifa escolheu a empresa Thrive Eternal para liderar o grupo de investidores proposto para a FFE caso o plano de ação seja aprovado pela maioria das confederações. A Thrive, empresa americana de capital de risco, foi fundada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A relação do presidente dos Estados Unidos com a entidade máxima do futebol é criticada desde antes da Copa do Mundo de 2026.

PLAYLISTS
PUBLICIDADE
Publicidade