Taxa de homicídios é a menor em 14 anos, mas letalidade policial e feminicídios crescem
Queda expressiva de 8,2% em homicídios fez com que o país antecipasse em dois anos a meta nacional de redução estipulada para 2027

O Brasil registrou em 2025, segundo dados do 20º Anuário de Segurança Pública divulgado nesta quinta-feira (23/7) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), um total de 40.775 Mortes Violentas Intencionais (MVI) — índice que abrange homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte, feminicídios e mortes por intervenção policial. Esse número representa uma expressiva queda de 8,2% em relação a 2024 e consolida a menor taxa (19,1 mortes por 100 mil habitantes) desde o início da série histórica do Anuário, em 2012. Essa expressiva redução, puxada pela queda nos homicídios dolosos gerais, fez com que o país antecipasse em dois anos a meta nacional de redução estipulada para 2027.
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública alerta, contudo, que essa melhora geral não pode esconder a piora em recortes específicos. Há duas áreas com pioras expressivas ressaltadas pelo FBSP: a violência contra a mulher e a letalidade policial.
Houve 1.571 mortes de mulheres registradas como feminicídio em 2025. O número representa um aumento de 4% em relação ao ano anterior. Além do aumento da violência contra a mulher, os dados apontam que a letalidade provocada pelas próprias forças de Estado também seguiu na contramão: mortes decorrentes de intervenção policial cresceram 5,4%, chegando ao recorde de 6.602 casos em 2025.
Queda desigual de homicídios
O estudo conclui, portanto, que há um recuo seletivo da violência no Brasil. Enquanto as mortes ligadas à criminalidade urbana tradicional diminuem, a letalidade que ocorre nos espaços privados contra as mulheres, bem como aquela praticada por agentes do Estado, permanece resistente. Ou seja, a queda geral das mortes não está beneficiando todos os grupos de forma igualitária.
As mortes decorrentes de intervenção policial (MDIP) atingiram a maior marca da série histórica no Brasil no ano passado. O estudo do FBSP registra que 6.602 pessoas foram mortas por policiais em serviço ou de folga no último ano. O número representa um crescimento de 5,4% em relação a 2024. Uma em cada seis mortes violentas intencionais ocorridas no país (16,2%) em 2025 foi de autoria de agentes do Estado.
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A escalada da violência estatal não foi homogênea, mas atingiu diversas regiões do país. O estado de Rondônia, por exemplo, teve um salto alarmante de 485,6% nesse índice, passando de 8 mortes em 2024 para 47 em 2025. No Rio de Janeiro, a polícia foi responsável por 20,5% de toda a letalidade violenta do estado.
O estado foi palco da “Operação Contenção”, na capital. A intervenção no Rio, ocorrida no complexo da Penha em outubro de 2025, terminou com 122 mortos (5 policiais e 117 civis), marcando a história como a operação policial mais letal já registrada no Brasil.
Para o coordenador de Estado e Crime Organizado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Leonardo de Carvalho Silva, a marca recorde escancara graves lacunas nas corregedorias e nos mecanismos de fiscalização.
“Um primeiro ponto que precisamos ter em mente quando falamos desse tema é que o controle do uso da força deve ser uma prioridade institucional das polícias, seja na formação ou nos meios correcionais. Em outro nível, cabe aos Ministérios Públicos a atividade de controle externo da atividade policial”, explica.
“O aumento das mortes decorrentes de intervenção policial em 17 Unidades da Federação é um indicativo de que em boa parte dos estados brasileiros esses dois níveis precisam ter sua atuação repensada”, avalia.
Perfil das vítimas mostra racismo estrutural policial
A esmagadora maioria das vítimas é do sexo masculino (97%), e 46% delas concentram-se na faixa etária de 20 a 29 anos. Contudo, é o recorte racial que demonstra a face mais desigual dessa violência: a taxa de mortalidade policial entre a população negra foi de 3,5 por 100 mil habitantes em 2025, um índice 3,5 vezes maior do que a taxa registrada entre a população branca (1,0 por 100 mil habitantes).
“Esse dado se soma a vários outros indicadores que reforçam a seletividade racial, não apenas na segurança pública, mas em diversas outras áreas e são uma das consequências de um problema estrutural da sociedade brasileira: o racismo estrutural. Temos dados no campo das políticas econômicas e educacionais que seguem a mesma direção ao apontar a desigualdade observada a partir da ótica racial”, afirma Silva.