Reportagem

Mauro Vieira chama tarifaço de injustificável e afirma que Rubio ofendeu o Brasil

Ministro rejeitou alegações de que Brasil não quis negociar tarifaço, disse que EUA queriam "capitulação" e que Rubio foi "arrogante e grosseiro" com Lula

por João Pedro Bitencourt
16/07/2026 às 16:03 · Atualizado há 3 meses
Mauro Vieira reagiu duramente ao tarifaço e às declarações de Marco Rubio
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Foto: Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, reagiu nesta quinta-feira (16/7) à decisão do governo dos Estados Unidos de aplicar um novo tarifaço – uma taxa adicional de 25% – sobre produtos brasileiros, medida anunciada na noite anterior como desdobramento da investigação da Seção 301 conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR).

Em declaração à imprensa, o chanceler afirmou que as investigações da Seção 301 são procedimentos unilaterais dos Estados Unidos e que “não há justificativa” para a adoção de tarifas contra os produtos brasileiros. Segundo o chanceler, a decisão americana ignora quase um ano e meio de negociações entre os dois países.

Vieira, na declaração, também rebateu falas do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, publicadas nas redes sociais na madrugada desta quinta-feira. Vieira classificou as declarações de Rubio como inaceitáveis e ofensivas ao povo brasileiro e ao governo brasileiro e acusou o secretário de atacar de forma “grosseira e arrogante” o presidente Lula

Rubio escreveu em seu perfil no X que Lula não havia negociado com os Estados Unidos de boa-fé. Também disse que as políticas econômicas do petista eram ruins para os brasileiros. “No último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de fechar um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço disso”, escreveu.

Para o chanceler brasileiro, o real incômodo de Washington é o fato de o Brasil não ter cedido a “pretensões desmedidas e demandas irrazoáveis” nas negociações. Ele citou, como exemplo, exigências de abertura total, irrestrita e exclusiva de setores inteiros da economia brasileira aos EUA, sem contrapartida para os produtos brasileiros. “Em outras palavras, exigiam uma capitulação”, disse.

De acordo com o ministro, o governo brasileiro manteve mais de 30 reuniões com autoridades norte-americanas desde março de 2025. Somente com o representante comercial Jamieson Greer e o secretário de Estado Marco Rubio, foram 11 contatos diretos, incluindo encontros entre os presidentes Lula e Trump.

Vieira lembrou que, no dia 2 de abril de 2025, a data do “tarifaço original” anunciado por Trump, ele próprio já mantinha diálogo com Greer por telefone. Naquele momento, disse, o Brasil foi tarifado em 10%, o menor patamar aplicado pelos EUA a qualquer país.

O quadro mudou, segundo o chanceler, após a carta enviada pelo presidente Donald Trump ao presidente Lula em 9 de julho de 2025, quando as tarifas subiram para 50%. Vieira afirmou que o aumento tinha motivação política, pois tentava interferir no processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado. Foi nessa mesma carta, disse Vieira, que Trump instruiu o USTR a abrir a investigação da Seção 301 contra o Brasil.

Argumentos contra o tarifaço

Vieira reforçou dados que, segundo ele, desmontam o discurso de prejuízo comercial americano: os Estados Unidos acumularam US$ 424 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos, e em 2025, 76% das importações americanas entraram no país sem pagar imposto de importação, incluindo oito dos dez principais produtos importados pelos EUA.

O ministro detalhou ainda a atuação brasileira ao longo da investigação, aberta em 15 de julho de 2025: duas defesas escritas apresentadas ao USTR, em 18 de agosto e 10 de setembro de 2025, e uma rodada de consultas governamentais em Washington, com delegação de alto nível, em 15 e 16 de abril de 2026.

Sobre dois pontos específicos levantados pelos americanos, Vieira foi direto: chamou de descabidas as alegações sobre o Pix, descrevendo o sistema como infraestrutura pública de pagamentos criada pelo Banco Central e aberta a todas as instituições financeiras que operam no país; e classificou como absurdas as acusações relacionadas ao desmatamento, afirmando que o Brasil reduziu significativamente o desmatamento na Amazônia e no Cerrado desde 2022.

“Todas as alegações dos norte-americanos para justificar a aplicação de tarifas não têm lastro na realidade”, concluiu o chanceler.

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