Reportagem

O que polêmica de Tamara Klink revela sobre quem escreve, edita e acessa livros no Brasil

De um lado, quem viu na fala de Tamara Klink generosidade e um alerta legítimo; do outro, quem apontou desconhecimento sobre o que sustenta o mercado editorial

por Eduarda Farias
11/08/2026 às 16:02 · Atualizado há 4 semanas
Tamara Klink com o livro "Bom dia, inverno" / Foto: Reprodução/Redes Sociais
Tamara Klink com o livro “Bom dia, inverno” (Reprodução/Redes Sociais)

Em 5 de agosto, a velejadora e escritora Tamara Klink publicou um vídeo em suas redes sociais pedindo que seus seguidores parassem de comprar novos exemplares de “Bom Dia, Inverno”, livro em que relata os oito meses que passou presa no gelo, sozinha, na Groenlândia. A obra, publicada pela Companhia das Letras, ocupa há semanas o topo das listas de mais vendidos do país. O argumento básico de Tamara era ambiental. Com tantos exemplares já em circulação, ela defendia que bibliotecas, empréstimos entre familiares e amigos e doações bastariam para sustentar o interesse pelo livro, evitando o gasto de papel e energia da impressão de novas tiragens.

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A repercussão foi imediata, dividida e feroz. Quatro dias depois, em 9 de agosto, a autora publicou uma retratação.

“Errei em não ver outros pontos de vista. Precisamos da leitura. Precisamos de autores. Pequenos, grandes e independentes. Sou leitora antes de ser autora, e não levei em conta toda a cadeia que alimenta as editoras”, escreveu, agradecendo a quem, nos dias de debate, defendeu publicamente editoras, autores, livrarias, sebos e bibliotecas.

Entre a fala original e o recuo, a polêmica expôs uma pergunta que ultrapassa o gesto pontual de uma autora best-seller: o que essa fala revela sobre quem escreve, quem publica, quem vende e quem, de fato, consegue acessar literatura no Brasil.

Qual o real impacto do livro no meio-ambiente?

Por trás de cada capa fechada existe uma floresta abatida, uma gráfica em funcionamento e uma cadeia de transporte que raramente entra na conversa sobre literatura. Um estudo da ESCS Magazine, de 2023, tentou colocar esse custo em números: a indústria dos livros impressos consome 16 milhões de toneladas de papel por ano, o equivalente a cerca de 32 milhões de árvores cortadas para produzir dois milhões de exemplares.

Cada livro, segundo o levantamento, carrega consigo 8,85 libras de dióxido de carbono, quase 4 kg, o que coloca a etapa de impressão entre as mais poluentes de toda a cadeia editorial. As fábricas de papel, por trás dessa conta, também liberam óxido de nitrogênio e monóxido de carbono na atmosfera, gases que ajudam a aquecer o planeta muito além da folha impressa.

Nem todo mundo, porém, chega a esse mesmo número. Dados da Penguin Random House UK (sócia majoritária da Companhia das Letras) apontam que mais de 70% do impacto climático de um livro sairia das gráficas e das usinas de celulose, e cada exemplar giraria em torno de 330 gramas de CO2, o equivalente a uma xícara de café. A distância entre uma estimativa e outra diz menos sobre qual conta está certa e mais sobre como esse tipo de cálculo é sensível a variáveis como tipo de papel, matriz energética da gráfica e distância percorrida até a livraria — não existe, hoje, um número fechado e universal para “quanto polui um livro”.

Em escala global, ainda assim, a soma pesa. A WordsRated estima que 2,2 bilhões de livros físicos são vendidos por ano no mundo e, tomando a média da Penguin como referência, são cerca de 762 mil toneladas de CO2 — próximo do que emitem 161,5 mil carros rodando por um ano inteiro.

O que falta a essa conta toda, no entanto, é um capítulo brasileiro. Enquanto o Reino Unido tem a Penguin calculando a pegada por exemplar e Portugal tem um estudo setorial dedicado, feito pela associação do setor (APEL) em 2024, o Brasil não possui um levantamento equivalente. O que existe são pistas sobre a origem da matéria-prima: segundo a Associação Brasileira da Indústria Gráfica (ABiGraf) e o Relatório Anual 2025 da Ibá (Indústria Brasileira de Árvores), todo o papel produzido no país hoje vem de reflorestamento, sobretudo de eucalipto, que ocupa 76% dos 10,5 milhões de hectares plantados pelo setor — e 59,1% do papel consumido no Brasil já é reciclado.

Mas sobre as emissões da própria etapa de impressão, o retrato nacional ainda é nebuloso: estudos técnicos do setor gráfico brasileiro, como os produzidos pela ABTG e pela Fiesp, reconhecem que esse impacto climático específico segue “relativamente pouco conhecido” mesmo dentro da própria indústria.

Mas não se pode cair na tentação de transformar o livro em vilão ambiental. Não é. Ao menos, não pode jamais ser colocado nessa posição ao se pensar no impacto que qualquer tecnologia tem sobre o meio ambiente. Basta pensar na questão mais sensível do momento, o avanço implacável dos data centers, em nome da voracidade das ferramentas de inteligência artificial.

O consumo colossal de água para permitir o avanço da tecnologia é algo que está rapidamente tomando conta do debate público. A questão passa a ser como minimizar os impactos de cada novo avanço, de cada nova plataforma de conhecimento, de cada ferramenta acrescentada à vida cotidiana da humanidade. E a isso a indústria do livro já se dedica há décadas.

O entusiasmo do outro lado

Para parte do público, a proposta de Tamara soou como um gesto quase utópico, uma extensão natural do discurso de minimalismo e consumo consciente que a autora já cultivava antes mesmo do sucesso editorial. Nas redes, comentários elogiavam a “coragem” de abrir mão de vendas em nome de um bem maior, comparando o movimento a uma recusa deliberada da lógica de posse que estrutura o consumo contemporâneo — a mesma lógica, segundo essa leitura, que já reconfigurou hábitos em outras indústrias culturais, como a da música em streaming.

Essa recepção, no entanto, não foi unânime. Para a jornalista Bárbara Krauss, criadora do canal B de Barbárie e autora de um vídeo crítico que viralizou nos mesmos dias, o problema não está no valor do argumento ambiental em si, mas na forma como ele foi apresentado como novidade.

“O que ela falou não é só uma coisa que está certa, é uma coisa que é óbvia e já acontece”, avalia Krauss, citando o slogan de um sebo virtual que resume, para ela, algo que o mercado editorial brasileiro já pratica há décadas: “Livro novo é aquele que você não leu”.

Segundo a jornalista, o livro, por sua durabilidade, “necessariamente passa por muitas mãos, mesmo que eu seja egoísta e guarde ele na minha estante para sempre, porque eu vou morrer e essa biblioteca vai passar, o livro vai me superar”.

A visão de quem vive do mercado

Do lado de quem constrói, edita e distribui livros, a reação foi mais dura. Hulda Rode, fundadora da editora Escreva e especialista em livros, descreve a fala de Tamara como bem intencionada, mas descolada da complexidade do setor.

“Minha primeira reação foi de surpresa, porque percebi uma fala muito bem intencionada do ponto de vista ambiental, mas que não considerava a complexidade e a transformação pela qual a indústria do livro vem passando”, diz.

Segundo ela, a própria obra de Tamara já está disponível em formatos como e-book, audiolivro e impressão sob demanda, o que evidencia que o mercado editorial já testa alternativas de produção mais responsivas à demanda real, sem que isso implique abrir mão da venda do livro físico.

Rode chama atenção para o que descreve como a invisibilidade de toda a cadeia de profissionais por trás de cada exemplar vendido. Segunda a especialista, o impacto financeiro de um pedido como esse ultrapassa em muito a relação entre autora e leitor.

“Uma obra que vende também gera fluxo econômico pras livrarias e distribuidoras, e ajuda a financiar a publicação de outros títulos, inclusive aqueles de menor apelo comercial. Quando um livro vende muito, ele não movimenta apenas a conta bancária de um autor, ele ajuda a sustentar uma estrutura que permite que outras vozes também sejam publicadas.”

Sobre as críticas de elitismo que a fala recebeu, Rode reconhece uma distância real entre a proposta e a realidade brasileira.

“Existe uma distância importante entre a intenção da fala e a realidade socioeconômica do livro no Brasil. Nós estamos falando de um país que ainda precisa ampliar radicalmente o acesso à leitura, fortalecer bibliotecas, formar leitores. O livro não pode ser tratado como um objeto supérfluo, cuja compra deve ser desencorajada. Ele é uma ferramenta de educação, formação intelectual, cidadania e mobilização social.”

Bárbara Krauss reforça esse ponto com um argumento estrutural sobre como o mercado editorial funciona de forma diferente de outros setores de consumo.

“No mercado editorial, a gente não está vendendo duas coisas iguais, são dois títulos diferentes. O que está disputando é um projeto de ideia. A gente não consegue antecipar a venda disso, porque é a partir de um desejo muito mais subjetivo do que em outros produtos.”

Segundo ela, são justamente os raros best-sellers que permitem às editoras sustentar apostas em autores novos e garantir bibliodiversidade — e esse equilíbrio fica ainda mais frágil em selos independentes, que “operam praticamente no limite do lucro”.

Os dados do setor ajudam a contextualizar essa fragilidade. Depois de cinco anos consecutivos de queda, o mercado editorial brasileiro voltou a crescer em 2025, alcançando R$ 4,5 bilhões em faturamento, segundo pesquisa Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro. Mas essa recuperação recente segue uma retração acumulada de 44% em termos reais entre 2006 e 2024. Em um setor que só agora começa a se reequilibrar, e em que o autor costuma receber, em média, de 8% a 10% do preço de capa por exemplar vendido, a fala de uma autora no topo das vendas carrega um peso simbólico maior do que sugere a intenção original.

A perspectiva de quem promove circulação e acesso

Nem todos que atuam na ponta do acesso à leitura, porém, leram a fala como uma ameaça ao mercado. Raissa Martins, gestora da ONG baiana Livres Livros, que recebe e redistribui milhares de exemplares por mês em todo o país, recebeu o vídeo de Tamara “centenas de vezes” por indicação de seguidores que associaram a proposta ao trabalho da organização. Martins compara a reação de pânico ao movimento a episódios anteriores de outras indústrias culturais.

“Venho da indústria da música, trabalhei 15 anos com artistas. Quando veio o CD, foi um desespero, disseram que ia acabar a música. Depois veio o MP3 e foi o mesmo movimento de desespero. E nunca se consumiu mais música do que a gente consome através do Spotify, e de uma forma mais democrática. Eu entendo completamente que ela, jovem, e que viveu um momento de desprendimento total, tenha trazido essa provocação para que a gente olhe para quem não tem acesso.”

Para a gestora, a repercussão negativa se concentrou nos recortes descontextualizados da fala, e não no espírito da mensagem.

“Eu senti claramente que o objetivo dela era fazer as pessoas enxergarem que tem gente que não tem acesso ao livro”, avalia, citando uma estatística que costuma repetir em seu próprio trabalho: “Tem uma pesquisa que fala que para cada livro disponibilizado, pelo menos sete pessoas têm acesso ao mesmo livro”.

Martins relativiza o temor de que a proposta prejudique vendas, recorrendo a um exemplo concreto. Uma seguidora que, após o vídeo, quis doar um exemplar à ONG, mas, em vez de entregar seu próprio livro, comprou um novo pela Amazon para enviar.

“Eu acho que gera essa dinâmica, que a fala dela impulsiona, que nem todo mundo consegue alcançar. Não vai atrapalhar o consumo, muito pelo contrário. Quando a gente cria um facilitador para formar público, para formar um público leitor, ele vai desejar comprar, ele vai desejar ter mais livros, ele vai se sentir empoderado para entrar numa livraria. Então o fato de você dar acesso, você fomenta o mercado”, avalia Raissa, que defende que circulação e compra não são práticas excludentes.

A gestora também aponta a desigualdade estrutural de acesso a bibliotecas como um limite real à proposta de Tamara.

“As bibliotecas públicas funcionam no horário comercial. Então quem é o ser humano que vai sair do trabalho para ir na biblioteca pública pegar um livro? Só aquela criatura que passa ali na frente.” Um limite reforçado por dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024), segundo a qual 75% dos brasileiros não frequentam bibliotecas. Para Martins, é preciso cautela ao generalizar o hábito de leitura no país.

“A gente marginaliza o brasileiro quando a gente fala que no Brasil as pessoas não gostam de ler.”

O que o vídeo revela sobre lugar de fala

Foi a própria retratação de Tamara que expôs o núcleo mais delicado da polêmica: até que ponto uma proposta bem-intencionada, formulada a partir de um lugar de privilégio, consegue enxergar a estrutura que sustenta o acesso ao livro no Brasil.

Para o crítico literário e colunista do Amado Mundo Luiz Maurício, a fala em si tem pouco significado prático diante da repercussão que ganhou.

“Se você não quer comprar os livros dela, você não compra. O que os autores dizem sobre os seus livros importa muito pouco. É parecido com a opinião de um cozinheiro quando ele faz um prato: ele faz toda aquela teorização, mas a gente só quer saber se a comida está boa, se vale a pena a gente ter pago aquela fortuna que a gente pagou. O resto pouco interessa pra nós”, avalia.

Maurício nota ainda uma contradição estrutural no próprio debate.

“Os autores são a parte menos importante da cadeia editorial, os mais descartáveis. O mercado não gira em torno dos autores, ele gira em torno dos leitores, eles são o centro do mercado editorial. Por outro lado, é claro que se ela não fosse quem ela é, não teria essa importância toda. Então é uma coisa contraditória: ao mesmo tempo em que autor e autora não são determinantes para o mercado, alguns deles têm um poder de repercussão muito grande.”

O crítico também questiona o que, de fato, motiva parte da indignação pública.

“A gente está bravo com o fato, ou a gente está bravo com a pessoa que é detentora do fato? Se você o mês inteiro é contra o capitalismo, você é um anticapitalista, tudo bem. Mas se você só no final do mês, quando você não tem grana, você não gosta do capitalismo, aí não é que você não gosta do capitalismo, você não gosta de ser pobre. São coisas muito diferentes.”

E reconhece, ainda assim, um fundo de verdade incômodo na provocação ambiental.

“Vender livros significa transportar e imprimir livros, e isso tem um impacto enorme na natureza. A compra de um livro tem muito mais a ver com o poder de satisfação, do pertencimento, da posse, do que provavelmente com a leitura, porque se fosse só leitura, as bibliotecas estariam lotadas.”

Bárbara Krauss oferece uma leitura mais dura sobre o mesmo ponto, apontando a distância entre o gesto público de Tamara e a ausência de qualquer ação estrutural equivalente, considerando os recursos e as relações de que a autora dispõe. Krauss também questiona a viabilidade prática da recomendação de recorrer a bibliotecas, descrevendo entraves pouco visíveis do funcionamento dessas instituições.

“Quando você leva um livro na biblioteca, ele não necessariamente vai ficar disponível logo depois. Primeiro porque as pessoas tratam bibliotecas como depósito, e depois porque, se o exemplar não estiver registrado no sistema central, ele não pode ser disponibilizado. Muitas bibliotecas simplesmente não têm gente suficiente para organizar, cadastrar e colocar de volta.”

Para ela, o problema central é a hipocrisia de tratar uma renúncia pontual e individual como solução.

“É a hipocrisia de vou fazer xixi no banho e o mundo está resolvido. Ela tem relações políticas importantes com pessoas que poderiam, de fato, agir nesse lugar.”

Entre o entusiasmo de quem viu na proposta um gesto generoso e a crítica de quem via nela um sintoma de desconexão com a realidade do setor, o episódio da Tamara Klink deixa uma pergunta em aberto sobre o próprio debate público brasileiro em torno do livro: se a discussão sobre sustentabilidade, acesso e consumo consciente da leitura só ganha visibilidade quando emerge do lugar de quem já não depende financeiramente dela e o que isso, por si só, revela sobre quem tem voz para propor mudanças em um mercado que ainda luta para se recuperar de quase duas décadas de retração.

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