Luiz Mauricio Azevedo

Crítica literária, dicas, insights e tretas. Nessa ordem

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Análise

Pais de papel (uma história para você que é pai e que anda por aí como se não fosse)

Há alguém esperando que você não seja uma fantasia, um desejo de fumaça. Seja um pai. Procure esse alguém. Peça perdão, peça ajuda. Faça o que for preciso

08/08/2026 às 05:58 · Atualizado há 3 semanas
Pai (a solidão do menino)
Um menino e uma ausência (imagem Adapta)

Eu tinha 7 anos quando conheci meu pai. Mas eu não sabia que ele era o meu pai. A dona Ilma, minha mãe, dizia assim: “Teu pai sou eu e Deus”. Meu irmão tinha ela, Deus e o pai dele. Mas eu tinha menos. Quando a gente tem menos a gente logo acha consolo achando que menos é mais.

Um dia eu cheguei da escola bem feliz e fui logo dizendo para ela assim: “Mãe, a gente tem que se mudar para São Paulo, porque eu vou jogar no Palmeiras”.

Eu dava as notícias para minha mãe de modo direto e inconsequente, então ela desenvolveu um método para lidar comigo: se eu tava chorando era mentira, se eu falava rindo era verdade. Eu falei rindo, então ela se preocupou.

Expliquei a ela que toda quarta-feira, quando a professora do jardim da infância nos levava à pracinha perto da escola, um olheiro do Palmeiras aparecia para me ver. Como ele ficava olhando só para mim, eu, que era esperto demais, tinha deduzido o óbvio: ele era agente do Palmeiras encarregado de descobrir craques Brasil afora. Eu não sei por que eu atribuí a ele um cargo no Palmeiras.

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Eu sei que quando terminei de falar minha mãe fechou o rosto e colocou a mão na boca. Depois, disse: “Amanhã, eu vou lá.” O “lá” era a escola, a praça, o meu futuro. No dia seguinte, ela desceu como uma nave no meio da praça, frente a frente com o homem que me levaria ao estrelato nos gramados. Ela lançou um olhar para ele e ele subitamente sumiu. Daí ela puxou meus braços para baixo e disse: “Aquele é o teu pai. O Álvaro é o teu pai”. Até aquele momento “Álvaro” era um nome genérico.

Um pai. Meu pai

Agora Álvaro era pai. E meu.

Nunca mais vi o Álvaro. Não joguei no Palmeiras e a minha mãe morreu três anos depois daquele encontro, em 1991. Para melhorar as coisas e aliviar o luto, a minha tia me levou ao Rio de Janeiro, porque “O Rio cura a alma da gente com aquela beleza toda”. Pois bem, a gente tava lá no Rio, hospedado na casa de uma amiga dela no Leme, quando o telefone tocou. Depois de falar brevemente com alguém, minha tia se aproximou, ficou na altura dos meus olhos e disse: “O teu pai faleceu. Se tu quiser voltar agora a gente empacota tudo e volta”.

Eu não quis. Na hora eu acho que não doeu. Agora eu tenho certeza que sim. 

Durante anos eu sonhei com um pai morto num caixão, vestido com um terno preto e uma gravata do Palmeiras.

Estou contando essa história para você que é pai e que anda por aí como se não fosse. Há alguém aí esperando que você não seja um espectro, uma fantasia, um desejo de fumaça. Procure esse alguém. Peça perdão, peça ajuda. Faça o que for preciso para que o pai que você tem sido não engula o pai que você pode ser. Vai! Para você ainda dá tempo.

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