Reportagem

Juros altos e bets agravam crise no varejo, diz Sindivarejista-DF

Corte de 298 lojas e de milhares de vagas na Casas Bahia é reflexo de fatores que pressionam todo o setor, avalia presidente do sindicato, Sebastião Abritta

por João Pedro Bitencourt
14/08/2026 às 21:21 · Atualizado há 3 semanas
O presidente do Sindicato do Comércio Varejista do Distrito Federal (Sindivarejista-DF) , Sebastião Abritta (Reprodução/Instagram)

O plano de reestruturação anunciado pela Casas Bahia, que levou a rede a fechar lojas e cortar postos de trabalho nesta semana, é reflexo de um conjunto de fatores que pressionam todo o setor de varejo, da alta dos juros ao endividamento da população, atribuído, entre outros fatores, ao avanço das apostas online, as chamadas bets. A avaliação é do presidente do Sindicato do Comércio Varejista do Distrito Federal (Sindivarejista-DF) e vice-presidente da Fecomercio-DF e da Codesedf, Sebastião Abritta.

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A crise no varejo brasileiro não é um fenômeno recente: o setor vem perdendo fôlego desde o esgotamento do efeito de retomada pós-pandemia. A partir de 2022, o crescimento desacelerou, e, desde 2023, os números do setor vêm registrando quedas seguidas. Além disso, o varejo está há 14 meses consecutivos sem apresentar variação positiva, sequência iniciada em junho de 2025, após o último avanço registrado em maio daquele ano.

“O varejo está numa forte crise financeira, agravada pelos juros altos, que vêm se arrastando há muitos anos, e pelo endividamento do consumidor. E a inadimplência está muito alta nesses crediários, que, no caso da Casas Bahia, foram o carro-chefe do seu crescimento”, disse. “Na realidade, o que está abalando o micro, o pequeno, o médio e o grande varejista são a alta de juros, o endividamento das famílias e as bets”, afirmou.

Segundo o dirigente, a redução dos juros, a retomada dessa taxação e um maior controle sobre as bets são as três principais bandeiras dos sindicatos e federações do varejo junto ao governo neste momento.

“Infelizmente, o governo é muito devagar, ou não valoriza quem gera emprego e renda no nosso país. A gente está passando por um momento complicado, que entendemos que é passageiro, mas, quando o momento é ruim, parece que ele demora mais a passar.”

Para Abritta, o problema das bets vai além do impacto financeiro imediato sobre o consumo, porque, segundo ele, os jogos de azar não geram movimentação para a economia real e ainda contribuem para o endividamento das famílias, com desdobramentos que incluem problemas psicológicos entre os apostadores

“Essa questão das bets está quebrando o varejo. A pessoa vai lá, sem instrução, acha que vai recuperar o dinheiro, vai ganhar um dia, e perde tudo. Isso contribui absurdamente para o enfraquecimento do varejo”, disse.

Concorrência internacional atrapalha varejo nacional

Abritta também citou o fim da taxação das chamadas blusinhas como outro fator de pressão sobre o setor. Ele faz referência à concorrência de plataformas de e-commerce internacionais, em especial sites asiáticos que, após decisão do governo, puderam voltar a atuar no país sem recolher impostos em compras de até US$ 50.

“É um conjunto de fatores. A empresa que não se adequar ao mercado rapidamente vai ser expulsa do mercado. A gente costuma dizer: se você não se readequar pelo amor, vai se readequar pela dor”, concluiu Abritta.

Prejuízo e fechamentos

A Casas Bahia fechou 298 lojas e demitiu milhares de funcionários entre quinta-feira (13/8) e sexta-feira (14/8). A medida é parte de um plano de redução de despesas em andamento, que a varejista deve detalhar ao mercado nos próximos dias. As lojas fechadas representam 28,7% do total de unidades da rede no país, que somava pouco mais de mil pontos em dados de março. A informação é do jornal Valor Econômico.

Em relação ao quadro de pessoal, o jornal diz que 600 funcionários foram desligados na quinta-feira, com outros 1,3 mil a 1,4 mil desligamentos previstos para esta sexta-feira, o equivalente a 6,7% do total de empregados da varejista. A estimativa é que o número total de demissões possa chegar a 3 mil.

Nos três primeiros meses de 2026, a Casas Bahia teve prejuízo de R$ 1,064 bilhão. No primeiro trimestre do ano passado, a perda havia sido de R$ 408 milhões. Em 2025, o prejuízo consolidado acumulado pela companhia ficou perto dos R$ 3 bilhões.

Segundo Abritta, a decisão da Casas Bahia de priorizar o comércio eletrônico em detrimento das lojas físicas está diretamente ligada ao prejuízo acumulado pela companhia nos últimos trimestres. “Segundo eles, estão fazendo uma reestruturação. No último trimestre, tomaram um prejuízo muito grande, e aí estão reestruturando a loja física e o e-commerce. Como os custos de loja física estão altíssimos, eles optaram por fechar lojas e colocar o foco no comércio eletrônico, para cortar custo”, afirmou.

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