Reportagem

O pesadelo de Infantino: fracasso de ‘privatização’ da Copa ameaça presidente da Fifa

Antes de plano para criar empresa e vender ações da Copa, reeleição de Infantino como presidente da Fifa parecia inevitável; agora, cresce pressão por renúncia

por Weslley Neto
03/08/2026 às 14:14 · Atualizado há 1 mês
Gianni Infantino, presidente da Fifa, durante a Copa do Mundo de 2026
Gianni Infantino, presidente da Fifa, durante a Copa do Mundo de 2026 (Reprodução/Instagram)

Tratado como nome inevitável para ao menos mais um mandato no comando do futebol mundial, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, viu não só o favoritismo à reeleição na entidade ruir como explodir a pressão para que renuncie. A crise envolvendo o dirigente começou após o jornal “The Times” informar que Infantino pretendia criar a empresa Fifa Forward Enterprise (FFE) para concentrar negociações comerciais de suas competições – já com venda alinhada de ao menos 20% das ações a investidores privados liderados por Joshua Kuchner, irmão de genro de Donald Trump. A proposta incendiou o futebol mundial, e a reação forçou Infantino a desistir da ideia cinco dias depois de revelá-la.

Pressão e desistência da Fifa

A Uefa, que reúne as federações europeias, defendeu mudança na Fifa no último sábado (1/8). Em nota, a entidade afirmou que tinha perdido a confiança no comando da Fifa e ficou a um milímetro de expor explicitamente a cobrança por renúncia. De acordo com o jornal britânico “The Telegraph”, as 55 associações nacionais filiadas à Uefa votariam pelo afastamento de Infantino, caso ele decida permanecer na presidência da Fifa. Para convocar uma votação, a entidade europeia precisaria do apoio de 43 federações.

Ao comemorar o recuo da Fifa, a Uefa afirmou que a atual liderança da organização mundial perdeu “não apenas a confiança da Uefa, mas também a de muitos outros membros da família do futebol”. Os europeus também pediram uma revisão profunda e estrutural na maneira como a Fifa é gerida. As federações de Inglaterra e Gales concordaram com o posicionamento.

A Concacaf e a AFC, Confederação Asiática de Futebol, também divulgaram comunicados oficiais criticando o plano de Infantino, afirmando serem contrárias à ideia de vender ações de uma empresa que seria responsável pela organização da Copa do Mundo, além de outros torneios geridos pela Fifa.

Diante de tantos posicionamentos contrários ao plano de vender parte das ações de suas competições, a Fifa anunciou publicamente que estava desistindo do plano por entender que a ideia criava “divisões” entre as confederações. Sem o apoio das confederações de Europa, Ásia e América Central, Infantino não conseguiria respaldo suficiente entre as 211 associações nacionais filiadas à Fifa para aprovar o plano.

Numa tentativa de buscar apoio rapidamente antes de as primeiras notícias sobre o plano serem divulgadas pela imprensa, Infantino teria enviado uma carta às 211 associações-membro prometendo o pagamento de US$ 40 milhões (R$ 203 milhões) a cada uma que aceitasse a proposta, segundo o “The Times”.

Agora, caso queira permanecer no cargo, Gianni Infantino precisa enfrentar pressões internas e externas no universo do futebol. Carlos Cordeiro, que era assessor sênior do presidente da Fifa, deixou o cargo em protesto contra a proposta da criação da FFE.

O diretor de operações da Fifa, Kevin Lamour, afirmou que funcionários da organização haviam sido enganados durante o processo. A resistência ao projeto de venda de ações deu origem a um movimento interno na Fifa, apelidado de “Kill the Monster” (Mate o Monstro), criado para impedir que a proposta avançasse.

Victor Montagliani, presidente da Concacaf, e Nasser Al-Khelaïfi, presidente do Paris Saint-Germain, da França, são os principais nomes articulados para substituir Gianni Infantino na presidência da Fifa, segundo o The Telegraph. Montagliani é visto como um candidato neutro, enquanto Al-Khelaïfi é considerado pela elite europeia como um rival com influência geopolítica e financeira capaz de competir com a gestão atual, embora tenha indicado não ter interesse no cargo.

Leia mais: Enfrentando um levante, Infantino cede à pressão e abandona plano de vender parte da Copa

Contato com o governo dos EUA

As críticas internas e externas crescentes teriam levado Gianni Infantino a pedir ajuda ao governo de Donald Trump para seguir como presidente da Fifa, segundo informações divulgadas pelo jornal “New York Post”. O suíço-italiano teria marcado uma reunião nesta segunda-feira (3/8) com Marco Rubio, secretário de Estado de Trump.

“Ele queria entrar em contato para discutir como o futebol pode ser uma forma de poder brando para os Estados Unidos. […] Mas todos sabemos que, neste momento, trata-se de proteção do emprego. Não se trata de nada além disso”, disse uma fonte ligada ao governo local, segundo a publicação do “New York Post”. O Departamento de Estado negou publicamente a existência da conversa em publicação no X.

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A ligação entre o plano de Gianni Infantino e Donald Trump é próxima. Segundo a reportagem do “The Times”, a Fifa escolheu a empresa Thrive Eternal para liderar o grupo de investidores proposto para a FFE caso o plano de ação fosse aprovado pela maioria das confederações. A Thrive, empresa americana de capital de risco, foi fundada por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos.

No sorteio dos grupos para a edição de 2026, cujos países-sedes foram Canadá, EUA e México, Infantino já tinha virado chacota por criar e entregar o primeiro “Prêmio da Paz da Fifa – O Futebol Une o Mundo” ao presidente dos Estados Unidos. O político vinha há meses publicamente exigindo receber o Nobel da Paz, e sendo repetidamente esnobado.

Durante a Copa de 2026, a proximidade entre os dois ficou ainda mais explícita. Trump admitiu ter ligado para o chapa Infantino e pedido o cancelamento da suspensão do atacante norte-americano Folarin Balogun, expulso contra a Bósnia-Herzegovina.

Contrariando suas próprias regras, a Fifa adiou a suspensão e permitiu que o atleta entrasse em campo na partida seguinte, contra a Bélgica, válida pelas oitavas de final da competição (no meio do imbróglio, os EUA, que vinham com ótimo desempenho até a confusão, levaram 4 x 1 dos belgas e deram adeus à competição).

Quem ainda apoia Infantino?

Entre os poucos apoiadores que restaram, Infantino conta com países africanos, como já anunciou a confederação do Marrocos — uma das sedes da Copa do Mundo de 2030. O atual presidente da Fifa também não sofreu críticas públicas por parte da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol), considerada uma das confederações continentais mais importantes. A organização continental teria se mostrado dividida durante uma reunião extraordinária, divulgou o site Globo Esporte.

A principal rede de apoio de Infantino é a Caf (Confederação Africana de Futebol). A entidade africana permanece leal ao presidente da Fifa por motivos políticos, como a expansão de vagas para seleções africanas em Copas do Mundo, o suporte financeiro no desenvolvimento do futebol no continente e a relação próxima com Patrice Motsepe, presidente da Caf.

Motsepe defendeu Infantino publicamente, afirmando que o suíço é um líder dedicado ao futebol mundial. Além de Marrocos, a Federação de Futebol do Congo chegou a publicar uma carta de apoio ao presidente da Fifa.

Infantino venceu, sem oposição, as eleições de 2019 e 2023 para a presidência da Fifa, após assumir o cargo em 2015. Ele tem a possibilidade de concorrer ao posto pela quarta e última vez em eleições marcadas para 2027, caso complete o seu atual mandato.

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