Ex-chanceler vê em aceno dos EUA ‘uma certa esperança’ de ‘diálogo racional’ com Brasil
Embaixador avalia nota do USTR ao Brasil como desdobramento do telefonema entre Lula e Trump e reforça defesa da reforma do Conselho de Segurança da ONU

O embaixador Antonio Patriota, representante do Brasil no Reino Unido e ex-ministro das Relações Exteriores, avalia que o aceno recente dos Estados Unidos para uma possível negociação comercial com o Brasil é um sinal de esperança de que possa haver um diálogo com racionalidade. A avaliação foi dada na sexta-feira (21/8), na Livraria Platô, em Brasília, quando Patriota lançou seu último livro, “A humanist foreign policy in a multipolar world” (“Uma política externa humanista em um mundo multipolar”).
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Poucas horas antes, o Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, havia enviado uma nota ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio sinalizando disposição para negociar. O movimento dos EUA é um desdobramento do telefonema entre os presidentes Lula e Donald Trump.
“O presidente Lula não foge à responsabilidade do estadista, que é a de manter o diálogo até mesmo quando há divergência. É muito louvável que tenha buscado uma ponte com os Estados Unidos, apesar de todo o unilateralismo e as injustificadas tarifas que estão sendo aplicadas contra o Brasil. Avalio como um bom resultado, um sintoma de que ainda há uma certa esperança para o diálogo e para a racionalidade. Assim torço eu”, afirmou.
Reforma da ONU
Lula lamentou, durante o telefonema de sexta, a “inoperância” do Conselho de Segurança da ONU diante dos conflitos internacionais em curso. O presidente cobra há anos a reforma do conselho e defende a entrada de novos países em desenvolvimento, como o Brasil, como membros permanentes, além do fim do poder de veto das grandes potências.
Patriota reconhece a paralisia do Conselho de Segurança da ONU diante de comportamentos que, segundo ele, são muito questionáveis à luz do direito internacional. De acordo com o embaixador, os membros permanentes do órgão frequentemente impedem decisões sobre grandes crises internacionais por “razões paroquiais”, e não por uma preocupação genuína com a paz mundial, o que justificaria a cobrança do presidente brasileiro.
“Como diziam vários secretários-gerais da ONU, nenhuma reforma da ONU estará completa sem uma reforma do Conselho de Segurança. Há um consenso desde os anos 1990 de que ele precisa ser ampliado, ele não é mais representativo sob a ótica da configuração geopolítica contemporânea. O desafio que enfrentamos é de obter uma maioria de dois terços em favor de uma reforma que torne o conselho mais democrático e menos oligárquico, no qual membros permanentes das regiões não representadas hoje, como a América Latina e a África, sobretudo, possam estar presentes”, disse Patriota.
União pelo multilateralismo
Apesar das recentes ofensivas dos Estados Unidos pela adoção de mecanismos unilaterais, como as tarifas impostas ao Brasil, Patriota avalia que são poucos os países que recorrem ao unilateralismo e discorda que a estratégia esteja em expansão generalizada. “Não é o caso de se dizer que cada vez mais países recorrem ao unilateralismo. Na verdade, é um punhado de países, são poucos”, disse.
No entanto, para ele, falta reunir aqueles que acreditam na vigência do direito internacional e na cooperação por mecanismos multilaterais em defesa de leis e molduras de cooperação que representam “progresso civilizacional”.
Patriota citou os recentes Diálogos de Paraty, fórum internacional criado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) para debater os rumos da ordem global, geopolítica, clima e governança a partir de uma perspectiva voltada ao Sul Global, como parte de um esforço nesse sentido.
“Não estamos sozinhos nessa batalha. A maioria da comunidade internacional governamental e numerosos representantes da sociedade civil, do meio acadêmico, da imprensa e de parlamentos estão juntos nessa tentativa de constituição de um mutirão dos responsáveis, como eu costumo dizer”, afirmou.
Brasil com capacidade para promover diálogos
O embaixador defendeu a necessidade de “mais Brasil” atuando internacionalmente nesse momento, que avaliou como “perigoso e complexo das relações internacionais”, dizendo reconhecer essa demanda em conversas com interlocutores tanto no Reino Unido, onde atua como embaixador, quanto em outros países, como ficou evidente nos Diálogos de Paraty.
“O Brasil demonstrou na presidência do G20 no Rio de Janeiro, depois na COP30, que é capaz de reunir representantes do mundo inteiro e promover entendimentos. Os entendimentos não estarão à altura das ambições que o Brasil teria individualmente, mas representa uma demonstração de capacidade de articulação diplomática”, afirmou.