Esperando o sol (não se trata aqui de morte da razão, mas de um bom livro)
A literatura não é segunda chance para uma vida em ruínas. Aqui, o texto vale pelo texto. E "Homens ao sol", de Ghassan Kanafani, é muito valioso

É decepcionante que a literatura seja, para muitos, o lugar em que as palavras bem ditas vão consertar os danos de um mundo social maldito. Tem muito romance que tinha tudo para ser bom e que foi obliterado pela intenção que o autor tinha de salvar os personagens que criou, como se a literatura fosse a segunda chance de uma vida em ruínas. Mas aqui não, violão! Aqui o texto vale pelo texto. Não trabalho com evasão de divisas culturais. Por isso, “Homens ao sol”, de Ghassan Kanafani, publicado por aqui pela valente editora Tabla, com tradução de Safa Jubran, é tão especialmente valioso para mim.
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Lançada originalmente na década de 1960, essa obra de ficção parte de um episódio verídico: a história de dezenas de expatriados que perderam a vida dentro de um caminhão-tanque, enquanto sonhavam com a superação das precárias condições dos refúgios forçados.
Aqui, na ficção, a operação aritmética reduziu o escopo do autor a três palestinos refugiados — Marwan, Assad e Abu, três arquétipos de uma identidade étnica em três modos temporais (adolescência, maioridade e maturidade) — que resolveram fugir para o Kuwait, em busca de uma vida digna. A saber: vida digna para nós, pobres, é poder tomar café quando se precisa, sentar quando se sente cansado e não levar bombas na cabeça.
A redução do número de personagens permite ao autor um grande controle da narrativa, transformando o acontecimento jornalístico em uma espécie de uma alegoria sobre a relação dos seres humanos com as vontades daquilo que chamam de Deus.

‘Homens ao sol’: tentando falar com um deus envenenado
Não é sobre fuzis; não é sobre acordos de cessar-fogo que nunca entram em vigor; não é sobre territórios invadidos; não é sobre sequestros; e não é sobre a morte da razão. É sobre por que os fuzis matam esses e não aqueles; é sobre os motivos de a dor dos outros valer menos do que a nossa; e é principalmente sobre as tentativas de comunicação com um deus que envenenamos diariamente com nossas neuroses narcísicas.
Após os ataques do Hamas a Israel, em 7 de outubro de 2023, autores palestinos pareciam ter novamente algo a dizer, seja como voz não ouvida, seja como sentimento de alívio a nossa culpa de fazer o que sempre fazemos: esperar que as guerras terminem como começaram, sem feridos nossos. Não se deve ler “Homens ao sol” por esse motivo, embora se possa.
Não trabalho para a polícia da recepção literária, e você é livre para ir aonde seu dinheiro lhe permitir. Contudo, se você quiser entender o contexto histórico no qual a obra de Kanafani nasceu, recomendo enfaticamente a obra de Edward Said. Mas se você quiser apenas um motivo para lê-lo, eis aqui um argumento desses que você, que é contra a literatura panfletária, que tem como ideal de vida carregar o Kindle nas tomadas da antessala do Grand Hotel Abismo, respeita: é um bom livro.