Mar García Puig une política e saúde mental em livro potente sobre maternidade
Com lançamento no Brasil pela Editora Bazar do Tempo, a escritora e ex-deputada catalã usa a literatura como resposta ao tabu do puerpério em 'A história dos vertebrados'

“Em 20 de dezembro de 2015, tornei-me mãe e enlouqueci.” É com esse impacto que a escritora e ex-deputada catalã Mar García Puig abre “A história dos vertebrados“, livro que chega ao Brasil neste mês pela Editora Bazar do Tempo. Unindo política e saúde mental na maternidade, a obra narra a experiência mais radical e vertiginosa da vida de Puig: o dia em que deu à luz seus filhos gêmeos foi exatamente o mesmo em que foi eleita membra do Parlamento espanhol, desencadeando um colapso de ansiedade extrema e psicose pós-parto.
O que deveria ser socialmente rotulado como o dia mais feliz de sua vida transformou-se em uma série de desafios emocionais. No entanto, em vez de isolar sua dor no ambiente privado, a autora utilizou sua bagagem na literatura e na vida pública para transformar o colapso em um potente manifesto político. Transitando entre o ensaio histórico, a mitologia e a autoficção, Puig constrói uma verdadeira arqueologia sobre o domínio do corpo feminino, revelando como a ciência, a moral e o Estado moldaram os discursos de dominação sobre o que significa ser mulher e mãe ao longo dos séculos.
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Premiado na Espanha como livro do ano pelo suplemento Babelia (do El País) e vencedor do prêmio Cidade de Barcelona, o romance ganha edição brasileira com texto de orelha assinado por Mônica de Aquino, que define o delirium materno como o estado de quem caminha “fora do sulco”.
Política e saúde mental, silenciamento e machismo
A autora está no Brasil para participar do evento A Feira do Livro, em São Paulo. Em conversa exclusiva com o Amado Mundo sobre esse manifesto unindo política e saúde mental, Mar García Puig reflete sobre o silenciamento das mães, o viés machista da psiquiatria e o poder da literatura em iluminar o que a sociedade insiste em esconder sob o tapete.

Confira a entrevista exclusiva com a escritora catalã:
No mesmo dia em que você se tornou mãe e enfrentou o colapso da sua saúde mental, você também foi eleita deputada. Como foi conciliar a exigência pública de infalibilidade no Parlamento com a vulnerabilidade extrema imposta pelo puerpério?
Na verdade, acho que ambos os papéis têm muito em comum. Eu sentia que, nos dois lugares, me era imposto ser infalível. Por um lado, na política, onde qualquer demonstração de vulnerabilidade ou imperfeição é muito punida. E, por outro lado, socialmente se esperava que, como mãe, eu soubesse o que tinha que fazer, que o fizesse me sentindo sempre forte e sempre feliz.
Nos dois lugares eu duvidei, me senti imperfeita, mas também em ambos consegui encontrar forças para seguir em frente. E acho que o fato de as duas coisas terem acontecido ao mesmo tempo me deu, em parte, essa força, porque percebi que era importante para as mães, e para a infância que eu estava cuidando, existir uma política humana.
No livro, você investiga prontuários médicos e histórias de mulheres que terminaram em manicômios. Olhar para o passado dessas mulheres te ajudou a compreender o seu próprio diagnóstico ou aumentou o medo do estigma?
Pessoalmente, isso me ajudou, porque me senti menos sozinha. Além disso, na maioria dos casos, a loucura delas me parecia muito lógica, muito compreensível, e isso fez com que eu fosse capaz de me perdoar um pouco, de entender também de onde vinha a minha própria loucura. É verdade que os destinos da maioria delas foram muito duros, mas isso também me motivou a escrever o livro. Era uma forma de tentar mudar o meu destino e o das que virão depois.
Você resgata conceitos históricos como a “histeria” e o fato de que a primeira lobotomia foi realizada em uma mãe exausta. Por que a ciência e a medicina ainda têm tanta dificuldade em acolher o sofrimento psíquico materno sem puni-lo ou patologizá-lo?
A medicina e a psiquiatria, no fundo, refletem a sociedade. Vivemos em uma sociedade com um viés machista incrível e, portanto, a psiquiatria e a medicina também o têm. E vivemos em uma sociedade que maltratou muito as mães e, consequentemente, a medicina e a psiquiatria também as maltratam.
Além disso, a medicina e a psiquiatria mais biologicistas muitas vezes querem reforçar a ideia de que as mulheres estão biologicamente destinadas à maternidade, e a um determinado tipo de maternidade, e isso entra diretamente em choque com a loucura materna. Se, como defendem, todas nós temos instinto materno, se o sentimento que devemos nutrir diante da maternidade deve ser sempre positivo, então não há forma de compreender a loucura materna.
A literatura nos faz nos colocar na pele de outras pessoas, nos leva a lugares escuros e acabamos compreendendo coisas que, de outro modo, não conseguiríamos entender. Por isso, acredito que ela seja o lugar ideal para explicar e tornar compreensível o grande tabu que é a loucura materna.
Você menciona que existe um julgamento constante em relação à mãe com problemas de saúde mental, o que a faz “se encastelar”. Como a literatura pode romper esse isolamento ao qual nem a política nem os manuais científicos conseguem acessar?
Acho que a literatura tem a capacidade de iluminar aspectos da condição humana que somos incapazes de enxergar de outra maneira. Ela nos faz nos colocar na pele de outras pessoas, nos leva a lugares escuros e acabamos compreendendo coisas que, de outro modo, não conseguiríamos entender. Por isso, acredito que ela seja o lugar ideal para explicar e tornar compreensível a loucura e, especialmente, o grande tabu que é a loucura materna.
Na literatura somos muito mais capazes de ter empatia por personagens imperfeitos. Além disso, podemos viver situações que jamais viveríamos na nossa própria vida. Por isso, acho especialmente interessante que homens me leiam, porque acredito que isso lhes permite conhecer uma realidade que não viveram e nunca viverão.
A frase “a maternidade é uma questão política” sintetiza grande parte da obra. Se o cuidado e o colapso materno são coletivos, por que a sociedade insiste em tratar a saúde mental da mãe como um fracasso puramente individual e privado?
Porque, para o patriarcado, individualizar a maternidade é muito rentável. É uma forma de manter as mulheres no lugar onde ele quer que elas estejam, de discipliná-las. Considerar o fracasso materno, a loucura materna, como algo individual reforça essa ideia. Nós, mães, temos que ser boas, nos submeter ao sistema, porque, caso contrário, fracassaremos como mães e toda a responsabilidade será nossa.
Mônica de Aquino menciona na orelha brasileira que o delirante é aquele que está “fora do sulco”, incapaz de caminhar em linha reta. Encontrar uma estrutura literária para esse livro foi uma forma de organizar o caos ou de dar dignidade ao próprio delírio?
Houve um pouco das duas coisas. Por um lado, quis encontrar uma maneira de trançar diferentes loucuras em uma narrativa. E isso, de algum modo, criar um livro com fragmentos de muitas loucuras, deu uma estrutura para esse caos. E, por outro lado, acho que a literatura dignifica — ao menos no sentido socialmente entendido como dignificar. Porque não acredito que a loucura seja indigna. Mas ela pode transformar uma experiência muito dolorosa, como é a loucura, em algo belo. E, nesse sentido, também era importante para mim pensar que, do mais escuro, poderia surgir alguma luz.