Reportagem

Entre tapas e tuítes: racha explode no bolsonarismo

Rompimento entre Michelle e Flávio Bolsonaro é apenas a mais visível de uma longa série de encrencas internas que engole o bolsonarismo nas últimas semanas

por Lourenço Flores
14/07/2026 às 05:55 · Atualizado há 3 meses
Bolsonarismo em transe: (na fileira de cima) Michelle, Flávio, Paulo Figueiredo e Oswaldo Eustáquio; (embaixo) Damares, Zé Trovão, Rogério Marinho, Ana Campagnolo
Bolsonarismo em transe: Michelle, Flávio, Paulo Figueiredo e Oswaldo Eustáquio, na fileira de cima ; Damares, Zé Trovão, Rogério Marinho e Ana Campagnolo, abaixo (Fotos Reprodução/Instagram)

Desde a derrota de Jair Bolsonaro em sua tentativa à reeleição em 2022, a imagem cuidadosamente construída de um bolsonarismo monolítico, inquebrantável em sua união, vem se esfarelando. Depois de o ex-presidente ter sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em setembro de 2025, a 27 anos e três meses de prisão por cinco crimes (de golpe de Estado a organização criminosa armada), as tensões internas na extrema direita começaram a fermentar. Nos últimos meses, estouraram – especialmente nas redes sociais, e, ainda mais especificamente, em tuítes e stories (posts no antigo Twitter, o X, e no Instagram, que viraram campos de batalha públicos).

A explosiva acusação da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro de que o enteado Flávio, pré-candidato do PL à Presidência da República, a traíra, desrespeitara e humilhara foi só a mais visível das encrencas que fomentam a guerra civil do bolsonarismo às vésperas do começo oficial da campanha de 2026.

Tem pancadaria explícita para todos os gostos, numa versão bolsonarista da célebre “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade. Em vez de “João amava Teresa que amava Raimundo… / que não amava ninguém”, surge “Flávio odiava Michelle que odiava Paulo Figueiredo… que odiava todo mundo”.

A conflagração na extrema direita tem três eixos principais:

  1. Disputa pelo espólio político de Bolsonaro preso — daí o pugilato nas redes entre Flávio x Michelle, ambos de olho no comando da narrativa sucessória e no futuro do bolsonarismo raiz;
  2. Rachas regionais — como os casos de Santa Catarina, onde a “exportação” de Carlos Bolsonaro para concorrer ao Senado gerou ´profundo mal-estar com figuras locais da extrema direita, especialmente a deputada federal Carol de Toni e a estadual Ana Campagnolo; e do Distrito Federal, com o rompimento entre o agora ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) e sua sucessora, Celina Leão (PL);
  3. Crise de lealdade — figuras que surgiram e cresceram na onda do bolsonarismo, como o deputado federal Zé Trovão (PL-SC), chegaram ao ponto de questionar publicamente ações de Bolsonaro, algo que o ex-presidente e seus familiares consideram a mais abjeta traição.

Bolsonarismo em polvorosa

A situação chegou a um ponto tal que, no último sábado (13/7), Flávio Bolsonaro abriu uma live logo após sair de uma visita ao pai, em prisão domiciliar, para ler uma carta do ex-presidente pedindo união em torno da candidatura do filho. No texto lido pelo filho 01, Jair Bolsonaro também afirmou que Flávio é seu “porta-voz”.

Leia também: Movimento lançado por Michelle lança mais dúvidas sobre Bolsonaro no PL

O senador leu na íntegra a “Carta aos brasileiros” versão Bolsonaro. Segundo o ex-presidente, é “hora de arregaçar as mangas”, deixar de lado possíveis diferenças e se empenhar por Flávio.

Flávio argumentou, na transmissão, que há muita especulação em torno dos rumos de sua candidatura e se dirigiu a pessoas que, segundo ele, parecem estar boicotando a sua pretensão ao Planalto. Para o senador, a mensagem do pai é muito simples.

“Primeiro, quero agradecê-lo por estar me colocando como seu porta-voz. Isso é muito importante, para evitar que existam falas conflitantes ou direções diferentes que porventura alguém possa estar seguindo em paralelo à nossa pré-campanha. Em um segundo momento ele disse que o deadline chegou: a hora agora é de todo mundo cair dentro e vestir a camisa”, disse.

Leia também: Companheira Michelle? Elogio de ex-primeira-dama a política de Lula vira piada no bolsonarismo

Quem não gostou nada do episódio foi o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Moraes suspendeu, nesta segunda-feira (13/7), por 90 dias, visitas de Flávio ao pai e ex-presidente. O ministro afirmou que o senador desrespeitou medida cautelar imposta a Jair Bolsonaro que o proíbe de utilizar as redes sociais, mesmo que por intermédio de terceiros.

Moraes abriu prazo de 48 horas para que a defesa do ex-presidente explique a desobediência da cautelar e a divulgação da carta. Em sua decisão, o ministro afirmou que a divulgação da carta também configura um ato de promoção política fora do período permitido pela legislação eleitoral. Segundo Moraes, a carta traz expressões com “carga semântica equivalente a pedido explícito de voto”. 

Com isso, o ministro também acionou o Ministério Público Eleitoral (MPE) para investigar se o senador teria cometido propaganda eleitoral antecipada ao divulgar a carta.

Veja algumas das brigas recentes do bolsonarismo raiz:

Eduardo Bolsonaro x Zé Trovão x Jair Renan

Quando: 7 a 9 de julho de 2026
Os ringues: X (Twitter), YouTube, Instagram
O estopim: o deputado federal Zé Trovão (PL-SC) participou do Quintow Podcast em 2 de julho e chamou Jair Bolsonaro de “covarde” por não ter admitido a derrota em 2022 e não ter mandado para casa os apoiadores que se aglomeravam em frente a quartéis pelo país — o que, segundo ele, evitaria as prisões do 8 de Janeiro.
Os ataques:

Zé Trovão: “Tinha que ter falado: ‘Perdi as eleições. Seja de maneira democrática ou não, perdi as eleições. Vai para casa.'”

Eduardo rebateu no X com uma série de posts, resgatando que Zé Trovão se refugiou no México para escapar de mandado de prisão em 2021: “Além de ter se livrado, ainda saiu candidato pelo partido de Bolsonaro, para agora chamá-lo de covarde”.

Jair Renan (filho mais novo, vereador em Balneário Camboriú) também entrou no ataque, classificando a fala de Zé Trovão como “canalhice” e o acusando de ser “aproveitador”.

Eduardo ainda compartilhou vídeo de Paulo Figueiredo associando a soltura de Zé Trovão a uma suposta promessa de Alexandre de Moraes a Bolsonaro, cobrando gratidão ao bolsonarismo que o elegeu.

Zé Trovão recuou: “Nunca chamei meu presidente de covarde. Nunca faria isso.” Disse que a fala foi tirada de contexto.

Motivo de fundo: rachas eleitorais em Santa Catarina, disputa por espaço no PL e a insatisfação de setores bolsonaristas com o silêncio de Bolsonaro pós-2022. Zé Trovão também apoiou Pablo Marçal a prefeito de São Paulo em 2024, contrariando Bolsonaro — fato que Eduardo usou contra ele.

Paulo Figueiredo x Michelle Bolsonaro (e as mulheres)

Quando: 25 a 29 de junho de 2026
Os ringues: podcast “Paulo Figueiredo Show”, X, YouTube
O estopim: Paulo Figueiredo, braço direito de Eduardo Bolsonaro nos EUA, criticou abertamente a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o eleitorado feminino
Os ataques:

Figueiredo disse que o sucesso de Michelle vem do fato de ela “nunca ter aberto a boca para falar sobre nada” e a chamou de “feminista”. Prosseguiu: “Mulher vota muito mal. Estatisticamente mal. Principalmente as solteiras; as casadas costumam acompanhar o marido”.

A fala gerou onda de indignação até entre aliados. A bancada feminina no Senado, liderada por Dorinha Seabra (União-TO), apresentou requerimento de repúdio.

A repercussão foi tão negativa que Figueiredo desistiu de participar de audiências nos EUA sobre tarifas, onde acompanharia Eduardo e Flávio Bolsonaro.

Motivo de fundo: guerra interna entre o grupo de Flávio Bolsonaro e o de Michelle Bolsonaro, que vem crescendo politicamente e ensaia ameaçar a hegemonia dos filhos do ex-presidente.

Damares Alves x Paulo Figueiredo + Oswaldo Eustáquio

Quando: 27 a 28 de junho de 2026
O ringue: X (Twitter)
O estopim: a senadora Damares Alves (PL-DF) hesitou em confirmar presença num evento de Flávio Bolsonaro com mulheres conservadoras marcado para 1º de julho. Respondeu apenas “Oremos” quando questionada. Ela acabou não indo. E, nesta segunda (13/7), anunciou que não participaria mais da elaboração do plano de governo de Flávio Bolsonaro.
Os ataques:

Eduardo Bolsonaro escalou Paulo Figueiredo para atacar Damares no X: “Se fosse da Janja ou da Maria do Rosário, estariam todas unidas, certo?”

Damares rebateu com ironia: “Sou aquela mulher que enfrenta os pedófilos, os corruptos, o crime organizado de frente sem medo. Que não fica atrás de um computador, mas encara as lutas olhando nos olhos.” E desafiou Figueiredo: “Venha, se tiver coragem” — em referência ao fato de ele estar foragido nos EUA e não poder voltar ao Brasil.

Oswaldo Eustáquio (blogueiro foragido na Espanha, pré-candidato a deputado pelo PL-PR) foi além e acusou Damares de ser “amante de pastor” (descrevendo detalhes do que seria o relacionamento) e “feminista”, além de levantar suspeitas sobre um assessor jurídico da senadora.

A bancada feminina do Senado reagiu com moção de repúdio contra Eustáquio.

Motivo de fundo: a guerra intestina entre Flávio x Michelle Bolsonaro pelo controle do PL rachou o núcleo bolsonarista. Damares é aliada de Michelle; Eduardo e Figueiredo são escudeiros de Flávio.

Paulo Figueiredo + Kim Paim x comunicação de Flávio Bolsonaro + Rogério Marinho

Quando: julho de 2026
Os ringues: redes sociais, imprensa
O estopim: os influenciadores bolsonaristas Paulo Figueiredo e Kim Paim criticaram abertamente a estratégia de comunicação da pré-campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência, após a escolha de Eduardo Fischer, publicitário, e Alexandre Oltramari, jornalista e estrategista de marketing político, para coordenarem a campanha do filho 01 de Jair Bolsonaro.
Os ataques:

Kim Paim usou o apelido “Frodo” para se referir a Rogério Marinho, senador pelo Rio Grande do Norte e coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro. Em deboche à altura do senador e à suposta inabilidade política do ex-ministro bolsonarista, Paim fez referência ao personagem baixinho de “O senhor dos anéis” ao criticar as escolhas feitas por Marinho para a campanha do filho de Bolsonaro.

“Meu amigo Frodo conseguiu algo inédito, trouxe 2 marketeiros (sic) pra campanha do Flávio que conseguem ser piores que Duda Lima”, escreveu Kim.

Paulo Figueiredo não ficou atrás. Chamou a campanha de Flávio de “desgraçada” e disse: “Nego (sic) não se ajuda”.

Reclamou da coordenação política e da falta de articulação do entorno do senador.

Motivo de fundo: tensão pré-eleitoral e disputa pelo controle da campanha; a pré-campanha de Flávio patina nas pesquisas, enquanto Lula mantém vantagem; os aliados se acusam mutuamente pela falta de organização e tentam se aproximar do candidato.

Leia mais: Briga no bolsonarismo: o apelido do homem-forte da campanha de Flávio: ‘Frodo’

Ana Campagnolo x Carlos Bolsonaro

Quando: maio de 2026 (com reconciliação em 9 de maio)
Os ringues: X (Twitter), declarações à imprensa
O estopim: a montagem da chapa do PL para o Senado em Santa Catarina. Carlos Bolsonaro foi lançado como pré-candidato a uma das vagas, ameaçando empurrar para escanteio a deputada federal Carol de Toni — aliada da deputada estadual Ana Campagnolo.
Os ataques:

Ana Campagnolo (PL-SC) escreveu publicamente: “A vaga do nosso PL era da deputada Carol, agora será dada ao Carlos” — demonstrando descontentamento com a decisão.

A declaração gerou mal-estar com Carlos, que inicialmente reagiu mal.

A briga escalou com a deputada federal Júlia Zanatta e o senador Jorge Seif entrando na discussão em lives.

A reconciliação: em 9 de maio, Carlos Bolsonaro pediu desculpas a Ana Campagnolo em reunião reservada. Ela aceitou: “Ele teve um gesto muito bacana de reconhecer que houve uma troca de farpas que foi muito pessoal e que não precisava ter acontecido”.

Motivo de fundo: disputa por vagas no Senado em SC e a insatisfação de lideranças locais com a imposição de Carlos como candidato.

Ibaneis Rocha x Celina Leão

Quando: 20 de maio de 2026
Os ringues: Vídeos públicos, imprensa
O estopim: Ibaneis Rocha (MDB), ex-governador do DF, divulgou um vídeo criticando abertamente a gestão de sua sucessora, Celina Leão (PP), e anunciou um “realinhamento” político — rompendo de fato com ela.
Os ataques:

Ibaneis estava extremamente incomodado com Celina jogando em seu colo a responsabilidade pelo déficit orçamentário que teria herdado.

A crise do banco de Brasília (BRB) causada pelo caso Master foi usada como munição. Celina atribuiu os problemas a erros de Ibaneis e à “megalomania” do período anterior.

Ibaneis queria disputar o Senado numa chapa com Michelle Bolsonaro, com Celina na cabeça. Mas o racha inviabilizou a aliança – e a deputada federal Bia Kicis (PL) se lançou ao Senado ainda antes do rompimento de Ibaneis e Celina.

Michelle Bolsonaro, amiga pessoal de Celina, ficou do lado da governadora — Ibaneis ficou de fora da chapa, e acabaria desistindo da candidatura no início de julho.

Motivo de fundo: disputa pelo controle do eleitorado conservador no DF. Ibaneis, que se define como “direita pragmática”, colidiu com a ala mais “ideológica” da extrema direita bolsonarista, representada por Michelle e Celina.

PLAYLISTS