Reportagem

A uma semana da abertura, Copa gigantesca acumula polêmicas, faturamento recorde e tensão

Daqui a uma semana, a bola rola para Copa gigantesca de 2026, com indicadores superlativos em faturamento, polêmicas e tensões geopolíticas

04/06/2026 às 15:00 · Atualizado há 4 meses
Copa gigantesca de 2026 - crianças em Karachi, no Paquistão
Crianças jogam bola em frente a mural com bandeiras de participantes da Copa 2026, em Karachi, no Paquistão (foto: Rizwan Tabassum/AFP)

Daqui a exatamente uma semana, em 11 de junho de 2026, a bola rola para uma inédita Copa do Mundo da Fifa com 48 seleções. Essa copa gigantesca será também a primeira com sede dividida entre três países: Estados Unidos, México e Canadá. O clima que antecede o apito inicial, contudo, mistura euforia financeira sem precedentes e tensão geopolítica perturbadora fora das quatro linhas.

Enquanto a Fifa celebra um nível de receitas estratosférico, a sombra do arrocho migratório de Donald Trump, a tensão geopolítica pela guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, o temor pela insegurança no México e um sistema de ingressos sob investigação judicial ameaçam manchar o sucesso do torneio.

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Copa gigantesca, a mina de ouro de Infantino

Para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, o gigantismo desta edição — que saltou de 64 para 104 partidas — é o triunfo de sua visão expansionista. A entidade projeta uma receita recorde de US$ 13 bilhões para o ciclo 2023-2026. Somente o ano da Copa deve injetar US$ 8,9 bilhões nos cofres da federação, um aumento de 56% em relação ao Catar-2022.

Esse faturamento é impulsionado por uma estratégia agressiva de monetização. Para as próximas copas, a Fifa rompeu com parceiros históricos, como a Panini, substituindo-a pela americana Fanatics para focar em colecionáveis digitais e apostas. Nesta, os direitos de transmissão, que agora incluem gigantes como a Netflix, devem render quase US$ 4 bilhões. A meta é clara: atrair a Geração Z, que prefere versões resumidas ou mais informais de TikTok e YouTube a transmissões completas na TV, garantindo a sobrevivência financeira do futebol a longo prazo.

Geopolítica e o “fator Trump”

Se as finanças brilham, a diplomacia enfrenta um campo minado. Infantino cultivou uma proximidade notável com Donald Trump, chegando a criar um “Prêmio Fifa da Paz” desenhado especialmente para o líder americano e sua obsessão com um Nobel da Paz. A estratégia visava garantir apoio ao torneio, mas os resultados são questionáveis.

A uma semana da abertura, o Irã — que precisou transferir sua base para o México após a deflagração da guerra por EUA e Israel — ainda luta para garantir vistos de múltiplas entradas para seus jogadores. Há temor pela segurança da delegação persa devido à guerra, que está em uma espécie de limbo, mas ainda sem acordo de paz à vista.

A flexibilização das exigências de vistos por parte dos EUA chegou tarde demais para milhares de torcedores de 50 países, que enfrentaram a barreira de cauções de até US$ 15 mil. Críticos classificam a governança de Infantino como “excêntrica”, dependente de ligações diretas para Trump – que não resolveram gargalos burocráticos cruciais a tempo.

Violência e incerteza nas sedes

O México, um dos anfitriões, vive sob o estigma da violência, o que tem impactado as reservas de hotéis e a logística das delegações. Nos EUA, enquanto cidades como Miami esperam um impacto econômico positivo, outras cidades-sede sofrem com contratos leoninos. A Fifa reserva para si a maior parte dos lucros — incluindo taxas de estacionamento —, deixando para os poderes públicos locais os custos bilionários com infraestrutura e segurança.

O sistema de “preços dinâmicos” para ingressos nessa copa gigantesca também gerou uma onda de processos. A organização Football Supporters Europe (FSE) apresentou queixas por abuso de posição dominante, enquanto procuradores de Nova York e Nova Jersey investigam práticas de venda “opacas e desleais”. O sonho de assistir à final pode custar três vezes mais do que no Catar, em 2022, afastando o torcedor comum em favor de uma elite corporativa.

O custo do espetáculo

A Fifa distribuirá US$ 1,7 bilhão em programas de desenvolvimento — uma ferramenta eleitoral poderosa para a reeleição de Infantino em 2027. Para as seleções, o prêmio total subiu para US$ 871 milhões. Contudo, especialistas alertam: devido à abrangência geográfica e aos impostos americanos, muitas federações só terão lucro real se chegarem às quartas de final.

A Copa gigantesca de 2026 nasce sob o signo do recorde, mas também do questionamento. Entre a cascata de dólares e as barreiras políticas, o futebol tenta provar que ainda é o “esporte do povo”, mesmo quando o ingresso custa uma pequena fortuna e a política externa dita condições de quem entra em campo.

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