Às vésperas da abertura, Copa 2026 ameaça esvaziar discurso de que ‘o futebol une o mundo’
Tensão geopolítica, barreiras diplomáticas e políticas migratórias endurecidas transformam Copa 2026 em espelho da fragmentação global, não de união possível

A dois dias do apito que marcará o início da Copa 2026, a narrativa orgulhosa de que o futebol possui o poder universal de suspender conflitos, abraçar a diversidade e garantir um respiro de alegria e amizade entre os povos enfrenta o que seja talvez seu teste mais duro desde a edição inaugural do evento, no Uruguai, em 1930. A Copa do Mundo Fifa de 2026 começará com a máxima de que “o futebol une o mundo” sob grave ameaça.
Propagada pela Fifa como “a maior e mais inclusiva de todos os tempos” devido ao formato inédito com 48 seleções, a Copa 2026, sediada por Estados Unidos, México e Canadá, será aberta, entretanto, sob o signo oposto. Em vez de uma ponte entre culturas, o torneio se transformou em um espelho nítido das fraturas geopolíticas, das consequências do endurecimento migratório e da desigualdade socioeconômica que moldam esse quadrante do século 21.
O planeta que entra em campo nesta semana está profundamente fragmentado, e o futebol não consegue escapar dessa realidade.
O sintoma mais agudo dessa situação está na logística draconiana imposta a uma das seleções participantes, a do Irã. Os iranianos foram atacados no fim de fevereiro justamente por um dos anfitriões da Copa 2026, os EUA, que, em parceria com Israel, deflagraram bombardeios aéreos no país persa e mataram o então líder supremo, aiatolá Ali Khamenei.
Pouco mais de três meses depois, sem alívio para as tensões internacionais, a federação do Irã solicitou formalmente a transferência de suas partidas para o território mexicano, alegando falta de garantias de segurança em solo americano. A Fifa negou o pedido, forçando uma engenharia operacional sem precedentes.
A seleção iraniana foi obrigada a montar seu quartel-general em Tijuana, no México, e cruzará a fronteira dos EUA sob forte escolta militarizada exclusivamente nos dias de jogos. Os norte-americanos concederam vistos para os integrantes da delegação do Irã apenas no fim da última semana, mas impuseram uma condição exclusiva para os persas: precisam deixar os EUA imediatamente após cada partida.
Essa dinâmica tem sido apontada por especialistas do mundo todo como injusta, desigual, com potencial de comprometer a isonomia esportiva exigida por um torneio como esse, a mais importante competição de futebol do planeta.
A fórmula casuística forçada pelo governo de Donald Trump e a Fifa de Gianni Infantino sobre os atletas iranianos escancara que as rivalidades geopolíticas não foram esquecidas em nome do esporte: pelo contrário, criaram uma situação até hoje inédita para o torneio. E mesmo essa alternativa só foi definida para que a engrenagem comercial não pare, expondo a fragilidade diplomática que cerca a competição.
Leia mais: Copa do Mundo: a tristeza de Wesley, as ‘fichas’ em Endrick e a cobertura do amado mundo
Medo do ICE e funil dos vistos para a Copa 2026
Além da dramaticidade geopolítica, o governo Trump impôs duas barreiras altamente eficazes contra torcedores comuns indesejados: o endurecimento das políticas migratórias pelos EUA, que receberão a maior parte das partidas da Copa 2026, e o funil burocrático e financeiro para obtenção de vistos de entrada no território norte-americano.
Além do temor gerado pelas atividades cada vez mais duras dos agentes da polícia migratória dos EUA, o ICE, com cenas de violência pelo país e deportações que passam das centenas de milhares, a ida ao principal país-sede da competição depende da ultrapassagem de vários outros obstáculos concretos. Um deles foi o aumento exponencial do rigor na concessão de permissões de entrada nos EUA.
Os norte-americanos, na prática, tornaram uma gincana praticamente impossível de vencer o desejo de milhares de torcedores de nações periféricas de África, Ásia e América Latina de comparecerem às partidas no território norte-americano.
Nem quem foi escalado pela própria Fifa para o evento escapa do rigor das políticas do governo dos EUA. O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan foi mandado de volta ao tentar chegar para o trabalho na Copa 2026, mesmo com visto válido e toda a documentação em ordem.
Segregação também é econômica
O mosaico cultural vibrante, tradicionalmente visto – e, mais do que isso, desejado – nas arquibancadas de edições anteriores, pode ser substituído por um público também filtrado pelo poder de seus passaportes e suas carteiras. A paixão pelo esporte parece preterida pelas exigências ideológicas e econômicas do governo da vez de um dos países-anfitriões. Também a ambição financeira da entidade global que administra o esporte faz, no mínimo, murchar o caráter de união global do evento.
A Fifa adota nesta copa, pela primeira vez, a chamada precificação dinâmica, o que jogou os preços dos ingressos, que normalmente já não eram baixos, para a estratosfera. A estratégia inflacionou os bilhetes a patamares proibitivos para o cidadão comum, com valores de US$ 800 dólares (pouco mais de R$ 4 mil) sendo cobrados com naturalidade para setores normais dos estádios. O método visa garantir a meta histórica de R$ 73 bilhões em faturamento para a entidade máxima do futebol.
Ao priorizar a alta capacidade de consumo do mercado norte-americano, o torneio promoveu uma elitização agressiva, expulsando as classes populares do espetáculo e transformando o maior torneio popular da Terra em um produto de luxo voltado para poucos.
O governo Trump, por sua vez, impõs taxas de vistos acima de US$ 185 (quase R$ 1 mil) e exigências bancárias rigorosas, com cauções em alguns casos batendo em US$ 100 mil (R$ 500 mil), o que agrava o cenário da exclusão econômica.
À medida que a abertura se aproxima, mesmo que Canadá e México não sigam as práticas do vizinho mais poderoso, o diagnóstico é inescapável. A Copa 2026 não está unindo o mundo: está escancarando como o as fronteiras se tornaram mais rígidas devido ao medo, o dinheiro mais excludente e a diplomacia mais frágil.