Claudia Costin sobre EAD na formação de professores: ‘Ninguém formaria médico assim’
Para especialista, a crise de bem-estar nas escolas tem duas faces: alunos cada vez mais tristes, segundo IBGE, e professores mal preparados para lidar com isso, em parte por uma formação que nunca os colocou em sala de aula.

Dados recentes do IBGE revelaram um cenário alarmante para a juventude brasileira. O levantamento PeNSE (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar), feito com dados coletados em 2024 e divulgado no fim do mês passado, mostrou que 3 a cada 10 jovens afirmaram sentir-se tristes sempre ou na maioria das vezes. O quadro de fragilidade emocional é profundo: 42,9% dos alunos relataram sentir-se “irritados, nervosos ou mal-humorados por qualquer coisa” e 18,5% admitem pensar, de forma recorrente, que “a vida não vale a pena ser vivida”.
Nesta edição, o IBGE entrevistou 118.099 adolescentes de 13 a 17 anos em 4.167 escolas de todo o Brasil, reunindo informações sobre a saúde e o bem-estar dos estudantes.
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Para entender como escolas e professores podem responder a esses índices, conversamos com a especialista em políticas educacionais Claudia Costin, Presidente do Instituto Salto, ex-diretora sênior para educação no Banco Mundial e ex-secretária de Educação da Prefeitura do Rio de Janeiro (2009-2014).

Costin ressalta que reverter o quadro de tristeza dos alunos não passa por eliminar desafios e a exigência, mas por ressignificá-la. Para ela, o problema não é a pressão em si, mas a mensagem que ela carrega: “Se você manda a mensagem de que ele [o aluno] não é capaz, isso entristece muito mais do que a pressão no sentido de ‘vamos lá, você é capaz e eu vou te dar os suportes necessários para que você tenha sucesso’.”
O enfrentamento dessa crise passa também, para Costin, por uma reforma na formação docente. Ela é direta ao apontar um problema estrutural: “Ninguém formaria médico do jeito que formamos professores.”
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Com oito em cada dez professores formados integralmente à distância (EAD), segundo ela, Costin defende que a prática em sala de aula precisa estar presente desde o início da graduação — assim como ocorre na medicina, onde o EAD é proibido e o contato com a realidade clínica começa cedo. Para ela, só assim um professor será preparado para lidar com crises de ansiedade, autolesão e desengajamento de alunos em sala de aula. “MEC agiu corretamente ao estabelecer que a formação deve ser, no mínimo, semipresencial.”
Para Costin, o caminho também passa necessariamente pelo reconhecimento profissional: professores que se sentem valorizados pelo que fazem têm mais condições de engajar — e de proteger — os alunos que mais precisam.
Leia abaixo a entrevista completa.
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Amado Mundo: Os dados do PeNSe mostram que a tristeza e a irritabilidade viraram rotina no cotidiano escolar. Como transformar a cultura das escolas para que deixem de ser um ambiente de pressão por desempenho e passem a ser uma rede de proteção, sem perder a qualidade pedagógica?
Claudia Costin: De fato, a pressão faz parte da questão escolar. Mesmo que a escola adotasse outros procedimentos, um pouco de pressão — assim como no mundo do trabalho — acaba acontecendo. Então, ela não é ruim em si. Ela é ruim quando, no processo de ensino, você não engaja esses jovens. É muito importante um livro recente da Rebecca Winthrop, que será traduzido neste ano, chamado “The disengaged teen” (“O adolescente desengajado”, em tradução livre), que trata de quando o adolescente sente que aquilo não tem nada a ver com ele ou que aquele mundo não é para ele.
Por vezes, até na melhor das boas intenções, alguns professores dizem: “Coitado desse jovem, ele vem de um meio mais vulnerável, então não vou exigir ou pressionar muito”. Por isso insisto que o engajamento depende da mensagem que você manda com essa pressão. Se você manda a mensagem de que ele não é capaz — como se faz na formação de um atleta — isso entristece muito mais do que a pressão no sentido de “vamos lá, você é capaz e eu vou te dar os suportes necessários para que você tenha sucesso”.
Os professores também se sentem sobrecarregados e alguns encontram barreiras para lidar com crises de ansiedade ou casos de autolesão em sala de aula. Qual deve ser o limite da atuação do docente e como o ensino pode ofertar uma formação contínua que dê segurança a esses profissionais?
Primeiro, precisamos, na formação inicial na universidade, trazer a prática mais presente — seja a de ensino em si ou a que qualquer professor precisará ter ao lidar com adolescentes. Infelizmente, oito em cada dez professores são formados 100% por EAD [educação a distância]. O MEC agiu corretamente ao estabelecer que a formação deve ser, no mínimo, semipresencial. Temos que preparar o professor para a sua prática. Ninguém formaria médico do jeito que formamos professores; é proibido EaD para médicos e a prática está presente desde o começo.
Ser professor é uma profissão complexa e sua prática não é só transmitir conhecimentos. Da mesma maneira que o médico dá aconselhamento sobre o que o paciente deve fazer — ele não só trata, mas previne —, os professores também podem e devem atuar em situações de tristeza e autolesão. Para isso, ele tem que ser muito bem preparado na formação inicial e na continuada. É fundamental que as redes de ensino tenham equipes multifuncionais, com psicólogos e psicopedagogos, para apoiar esses profissionais.
Além disso, é necessária uma valorização do professor que não seja a da vitimização, e sim a profissional, de forma que ele tenha orgulho de suas práticas e trabalhe colaborativamente com seus pares na preparação de aulas e na avaliação dos casos limite. Poder discutir a prática com colegas é essencial.
As competências socioemocionais já estão previstas na Base Nacional Comum Curricular, a BNCC. Como driblar a falta de recursos e o tempo para integrar o bem-estar mental no currículo de forma prática?
Uma parte é acionar as competências socioemocionais. Se eu desenvolvo nos alunos persistência e resiliência — que é a capacidade de levantar e tentar de novo após uma falha ou superar dificuldades vindas de um meio vulnerável —, isso ajuda no bem-estar. Se o professor for preparado para desenvolver isso, ele não desiste do aluno. Persistência no campo do professor é isso; resiliência é entender que ele cometerá erros profissionais, mas que isso não o faz um mau professor.
Sobre o tempo, não dá para o Brasil continuar com essa “jaboticaba” de apenas quatro horas de aula. Deveríamos ter escola em tempo integral — das oito às três, por exemplo — para que o professor pudesse estar alocado em uma única escola, com tempo para apoiar os alunos, preparar aulas e trabalhar com os colegas, sem precisar se locomover entre diferentes municípios.
Qual o papel da escola na mediação do uso de telas e o que tem sido feito pelos professores nesse sentido?
O fim do celular na sala de aula como um elemento de distração foi muito bem recebido pelos professores. O fato de ele não estar presente ajudou muito o bem-estar dos alunos; no recreio, os jovens voltaram a interagir e a brincar, resgatando esse sentido de convivência.
Ao mesmo tempo, as telas entrarão de alguma maneira para atividades específicas, inclusive com inteligência artificial. Mas temos que equilibrar a tela com o livro físico e ensinar o aluno a fazer pesquisa em ambos os meios. O excesso de tela tem levado ao que Jonathan Haidt chama de “geração ansiosa”. Para evitar isso, os pais têm que ajudar. Muitos professores me reportam que crianças ficam com o celular à noite em casa e não dormem, navegando nas redes sociais. Isso prejudica o sono, o bem-estar e a atenção dentro da escola.