O caso do Banco Master projeta incertezas na eleição no Brasil
Investigação sobre suspeitas de fraude no Master passou a revelar a extensa rede de relações de Daniel Vorcaro com poderosos

O caso Banco Master dominou a semana política brasileira e adquiriu uma dimensão institucional ainda maior. O que começou como uma investigação sobre suspeitas de fraude em uma instituição financeira passou a revelar a extensa rede de relações mantida pelo banqueiro Daniel Vorcaro com alguns dos personagens mais importantes da vida pública brasileira.
O novo capítulo começou com a decisão do ministro André Mendonça, do STF, de tornar público um relatório da Polícia Federal com informações extraídas do celular de Vorcaro. Entre elas estão mensagens enviadas a um contato identificado como o ministro Alexandre de Moraes. Dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou se deveria deixar o país e buscou informações sobre a investigação que atingia o Banco Master. O relatório também identificou, nos metadados de uma minuta do contrato entre o banco e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, uma edição atribuída a um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
As revelações são graves, mas ainda não permitem conclusões definitivas sobre eventual ilegalidade. Parte das respostas às mensagens de Vorcaro não foi recuperada pela Polícia Federal, e os novos elementos ainda terão de ser investigados e avaliados pelas instituições competentes.
O caso desencadeou, entretanto, uma crise dentro das próprias instituições responsáveis por essa avaliação. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, questionou a legalidade da iniciativa de Mendonça e pediu a anulação dessa parte da investigação. Mendonça respondeu que caberá ao plenário do Supremo analisar os fatos. O presidente da Corte, Edson Fachin, também sinalizou que o tribunal terá de enfrentar institucionalmente a questão. No Senado, parlamentares bolsonaristas aumentaram a pressão pelo impeachment de Moraes, enquanto o presidente da Casa, Davi Alcolumbre, reagiu lembrando as relações de Vorcaro com integrantes do próprio campo bolsonarista.
Esse é outro aspecto que torna o caso particularmente complexo em plena campanha eleitoral. Novas informações reveladas nesta semana mostram que os vínculos de Vorcaro atravessam diferentes setores do sistema político. A revista Piauí revelou um novo repasse de US$ 1,6 milhão para o fundo responsável pelo financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro que já provocou desgaste na candidatura de Flávio Bolsonaro. Novas reportagens também revelaram relações de Vorcaro com outras figuras políticas, entre elas o deputado Nikolas Ferreira, um importante líder da oposição.
Há uma crise de atribuição de responsabilidades. Trata-se de revelações que atingem simultaneamente o Supremo Tribunal Federal, a Procuradoria-Geral da República, autoridades públicas e personagens importantes da esquerda e da direita brasileira. Vorcaro aparece cada vez mais como o centro de uma extensa rede de acesso aos diferentes espaços de poder.
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A dois meses da eleição, ainda é impossível saber quem perderá ou ganhará eleitoralmente com essa crise. Ela pode aumentar o desgaste de Flávio Bolsonaro, alimentar os ataques contra Alexandre de Moraes (apresentado pela direita como um aliado de Lula) e contra o próprio Supremo, ou simplesmente aprofundar uma percepção mais difusa de promiscuidade entre poder econômico, política e instituições públicas. Tudo dependerá das próximas revelações, da resposta das instituições e da capacidade de cada campo político de construir sua própria narrativa sobre os acontecimentos.
A história está se movendo rápido demais. No caso Vorcaro, ainda não sabemos contra quem a indignação pública será dirigida nem se ela se intensificará durante as eleições. O que já existe é uma grave crise de confiança nas instituições, que projeta uma sombra sobre o Judiciário brasileiro em plena campanha eleitoral.
Nesse ambiente, o comportamento dos candidatos diante da crise pode tornar-se tão importante quanto as próprias revelações. Para a pequena faixa de eleitores pendulares, todas essas complexidades podem acabar condensadas numa pergunta muito mais simples: quem está disposto a investigar tudo? É exatamente nesse ponto que a crise institucional do Judiciário encontra a eleição.
Nas próximas semanas haverá uma disputa diária pela inclinação dessa pequena faixa móvel do eleitorado. Novas mensagens, depoimentos, decisões judiciais, vazamentos ou investigações poderão produzir efeitos que pesquisas realizadas poucos dias antes talvez não consigam antecipar. Tanto Lula quanto Flávio têm o desafio de mostrar que a crise não lhes pertence, que sabem responder politicamente a ela e, ao mesmo tempo, preservar suas bases eleitorais consolidadas.
Mas uma nova pergunta também começa a acompanhar a campanha: a crise pode se transformar em voto antipolarização? Existem eleitores cansados dos dois polos. Para eles, cada nova denúncia envolvendo personagens associados a ambos os campos pode funcionar não como estímulo para atravessar a polarização de um lado para o outro, mas para sair dela.
A recente ascensão de Augusto Cury nas pesquisas eleitorais cria uma oportunidade para que ele tente associar a fadiga do eleitor e a crise de confiança institucional aos dois polos principais da disputa, Lula e Flávio, e, assim, criar as condições para uma alternativa eleitoral consistente, ainda que essa seja uma estratégia muito difícil de implementar. Um eventual crescimento de Cury, mesmo que insuficiente para levá-lo ao segundo turno, poderá transformá-lo em personagem relevante para a definição dessa segunda rodada e para a própria reorganização da política brasileira depois das eleições.