Capitu raparigou! Machado de Assis e o papel do crítico literário
Machado propõe uma verdade que até um imbecil como Bentinho é capaz de aceitar: você pode usar sua ladainha de guampudo atormentado, só não pode ferir ninguém

Embora não pareça, um crítico literário é um ser humano como outro qualquer. É verdade que as outras pessoas cometem erros (e nós não); mas, noves fora, precisamos de oxigênio, gostamos de pizza e estamos no cheque especial igual a todo mundo. Mas, afinal, o que faz de um crítico literário um crítico literário? Alguns dirão que é um conjunto de saberes. Humm… pode ser. Mas uma resposta mais direta e menos vaga seria: um crítico é alguém que tem algo a dizer sobre um livro, algo que pode alterar a maneira como as pessoas veem aquele livro.
Em literatura, o busílis é justamente o que os autores e as autoras fazem, mesmo que seja com um tema que o mercado elege como sendo o da moda. Por exemplo: tem mil livros sobre o luto, mas Joan Didion, Chimamanda Adichie e Roland Barthes fizeram os melhores. Literatura é como, e não o quê.
No século 19, já bem no finalzinho dele, um cara epilético, negro, que nasceu no morro da Providência, escreveu um livro que era justamente sobre adultério e essas coisas horríveis que só aconteciam nos séculos passados. Bem, o livro fez muito sucesso, mas com o tempo o macharedo ferido resolveu dizer por aí que o livro não era sobre adultério.
Imagine que Bentinho era branco, rico e muito mimado. E Capitu era moça de classe média baixa. Ela humilha Bentinho traindo-o com o melhor amigo, porque o amor é o único território onde a balança da luta de classes pende para o lado mais pobre. Não dava para ser assim, né? Daí começou a cantilena de que o tema dessa obra era desimportante. Mas é importante falar de adultério em Dom Casmurro por conta do que o autor faz com o tema escolhido.
A Lua perseguia o colunista, não duvidem
Essa é a única interpretação possível? Não, há muitas outras. Mas leituras particulares não são hipóteses críticas. Quando eu era criança eu achava que a Lua se movia comigo. Perdi 50 cruzados por causa disso. A ideia de que a Lua me seguia repousava numa percepção equivocada da posição dos satélites em relação a um corpo de 20 kg. Era legítima e ninguém devia rir disso. Mas não rir de uma interpretação é diferente de alçá-la à condição de hipótese especulativa válida para um campo inteiro.
Minhas ideias sobre Kepler, Newton ou Einstein não renderiam uma Apollo 11. Sou incapaz de calcular corretamente a trajetória dos hot wheels do meu filho no chão da sala, mas isso não me impede de continuar acreditando na obsessão que a Lua tem em relação a mim. Sempre lembro disso quando o meu povo da academia vem bradar que Capitu não traiu. Mas é claro que traiu, só não podemos provar, como em todo crime perfeito.
Diante dessa angústia, muita gente boa prefere tergiversar e dizer a você que o barato desse livro é justamente não saber o que é verdade e o que é somente fruto da mente perturbada do menino mimado e casmurro. Tá, vamos pegar uma carona nessa hipótese dos outros, só por um momento, só por diversão: se isso é verdade, por que aceitamos a existência de Capitu? Por que atribuímos a ela os olhos de cigana oblíqua e até a vida cerceada, se não sabemos nada dela, exceto o que nos foi transmitido por Bentinho?
Não seria mais lógico considerar tudo o que o narrador diz um delírio de sua mente perturbada? Por que as boas coisas nos são reais e somente as coisas suspeitas não são? Por que as pessoas dizem que Machado faz referência ao Othelo, de Shakespeare, se quem mostra Othelo é o narrador, não Machado?
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O cheiro de Capitu
Tudo que é falso se desmancha na água.
Às vezes, quando releio Dom Casmurro, penso com muita alegria: que maravilhoso é um amor que faz um homem lembrar do cheiro dos cabelos de uma mulher mesmo quando ambos já não existem mais. Em um país com tantos feminicídios, Machado propõe uma verdade que até um imbecil como Bentinho é capaz de aceitar: você pode resmungar contra o que uma mulher fez com seu coraçãozinho de manteiga; você pode encher o saco de todo mundo com sua ladainha de guampudo atormentado… você só não pode ferir ninguém.
Capitu não é Fátima Nascimento. Aceitemos as pessoas como elas são, como sugeriu o sábio Bryan Adams.
Viu? É isso que a crítica literária faz. Dizer em voz alta – e para todos – coisas que o livro sussurra para poucos.