Reportagem

Apple busca ajuda no Google: Siri agora tem inteligência artificial baseada no Gemini

Gigante da tecnologia tenta recuperar atraso competitivo com nova Siri IA dois anos após fracasso do anúncio da primeira versão da Apple Intelligence

por Henrique Fregonasse
08/06/2026 às 20:16 · Atualizado há 4 meses
Exemplos de utilização da Siri IA com o Gemini, do Google (foto: Divulgação/Apple)

A Apple anunciou, nesta segunda-feira (8/6), a introdução de uma nova versão de sua assistente pessoal baseada em inteligência artificial para as atualizações de seus sistemas operacionais, a Siri IA. A tecnologia é uma reconstrução da atual Siri — considerada uma assistente obsoleta — e funcionará em todos os dispositivos Apple com suporte ao Apple Intelligence, a suíte de funções de IA da marca.

O anúncio marca uma nova tentativa da gigante de tecnologia de integrar IA aos seus sistemas operacionais após o fracasso do primeiro anúncio da Apple Intelligence, em 2024, quando as funcionalidades prometidas não foram entregues. A companhia abandonou a parceria anterior com a Open AI — dona do ChatGPT — em favor de um novo acordo com o Google, apostando na expertise da gigante rival.

O anúncio foi feito durante a apresentação da Worldwide Developers Conference 2026 (WWDC26) — a última sob o comando do atual CEO, Tim Cook, que deixa o cargo em setembro para a posse de John Ternus. O evento é a principal apresentação anual da companhia com foco no anúncio de novas funcionalidades para os sistemas operacionais da empresa, as quais devem ser incluídas nos próximos sistemas operacionais, de numeração 27, lançados junto aos novos iPhones, previstos para lançamento em setembro.

Com foco na importância de usabilidade e segurança e na experiência do usuário, a apresentação citou uma série de melhorias para a Apple Intelligence, incluindo incrementos no processamento e na geração de imagens, otimização do funcionamento local das IAs nos dispositivos, melhor entendimento e identificação de fala natural e linguagens distintas, entendimento de contexto pessoal do usuário — com base no acesso a mensagens, fotos, emails, etc. — e reconhecimento dos conteúdos exibidos na tela, o chamado on screen awareness.

A Apple garantiu que o foco da companhia em privacidade e segurança durante o desenvolvimento de funções de IA é um valor não negociável, e que os dados de uso do usuário não serão armazenados nem acessíveis à companhia ou a qualquer outra empresa. O funcionamento da Apple Intelligence se dará de forma local, processada internamente pelo dispositivo, ou em servidores privados na nuvem em caso de solicitações que necessitem de acesso à internet.

Ainda acionável ao dizer “e aí, Siri”, a Siri IA receberá um aplicativo dedicado e terá capacidades expandidas frente à assistente atual. Ela poderá acessar dados atuais pela internet para interpretar contextos, assim como acessar os dados pessoais do usuário e informações visuais na tela e pela câmera — utilizando a Visual Intelligence. A promessa da companhia é a de que a assistente tenha habilidades conversacionais ampliadas, com mais opções de vozes, intensidade de fala e melhor entendimento de contexto falado e tons de voz.

A companhia afirmou que as novas funções da Siri IA estarão disponíveis em todos os dispositivos com suporte à Apple Intelligence — IPhones a partir do 15 Pro, computadores Mac com Apple Silicon e iPads com chips da linha M —, mas não especificou quais funções serão exclusivas dos modelos mais atuais e capazes. Além disso, anunciou que a próxima versão do sistema operacional dos iPhones, o iOS 27, terá suporte a todos os aparelhos a partir do iPhone 11, os mesmos já abarcados pelo iOS 26.

Siri IA e a corrida contra o relógio

Tim Cook e John Ternus no Apple Park – Foto: Divulgação/Apple

Uma das líderes do mercado de smartphones, tablets e computadores, a Apple tenta recuperar o atraso na integração de IA aos seus sistemas frente aos principais concorrentes, como Google e Samsung, que já possuem integração de modelos de linguagem generativa em seus dispositivos há mais de dois anos.

A primeira tentativa de integrar o mundo das inteligências artificiais foi feita ainda em 2024, durante a WWDC24, quando a maçã anunciou, pela primeira vez, a Apple Intelligence. Na ocasião, a companhia já havia anunciado o funcionamento de uma Siri que levaria em conta o contexto do usuário para a confecção de lembretes, auxílio com tarefas de rotina, entre outras funções. 

Contudo, a entrega do pacote acabou sendo adiada por tempo indeterminado, com a companhia retirando comerciais que mencionavam as funções de suas redes. Muitos consumidores acusaram a maçã de propaganda enganosa, uma vez que a Apple Intelligence foi anunciada como a principal inovação da linha de iPhones 16, os primeiros “construídos para Apple Intelligence”.

Desde então, a companhia tem buscado novas formas de entregar as funções de IA, evitando menções às ferramentas em suas apresentações. A parceria com o Google para a utilização dos motores do Gemini no desenvolvimento da Apple Intelligence já havia sido anunciada pela maçã em janeiro. À época, o acordo marcou o abandono da parceria anterior entre Apple e OpenAI — dona do ChatGPT — anunciada para o Apple Intelligence ainda em 2024.

Após a apresentação desta segunda da nova Siri IA, a agência de notícias Agence France-Presse (AFP) chamou atenção para o fato de que muitas das funções anunciadas pela Apple possuem limites diários de uso e não estarão disponíveis na União Europeia e na China no dia do lançamento, dois dos principais mercados consumidores da marca. 

Além disso, a agência ressaltou que a maior parte das funções anunciadas pela maçã na Siri IA já estão disponíveis para usuários do Google, com aplicações do Gemini em aplicativos como o Gmail, Google Maps e no sistema operacional Android, criado pela marca.

“A Apple está fazendo uma aposta enorme em IA, mas a aposta deles é a de que não precisam gastar centenas de milhões por ano em infraestrutura de IA para colher os benefícios”, disse o blogueiro de tecnologia John Gruber à AFP.

Ele e outros especialistas louvaram a decisão da maçã de terceirizar a responsabilidade sobre a infraestrutura de IA para companhias que possuem maior experiência e focar nos produtos próprios que têm garantido sua vantagem competitiva.

A AFP ressaltou que, apesar da dificuldade de oferecer uma experiência de IA competitiva até então, as ações da Apple desafiaram fortemente a gravidade nos últimos dois anos, tendo aumentado 15% em 2026. Além disso, no primeiro trimestre do ano — quando houve o lançamento do MacBook Neo —, a maçã teve aumento de dois dígitos percentuais nos países em que tem presença. 

Otimização e controle parental

Além das novas funções relacionadas a IA, a Apple anunciou mudanças de otimização para os próximos sistemas operacionais da marca. O novo MacOS 27, que ganhou o nome de Golden Gate, assim como o novo iOS 27, iPadOS 27 e demais sistemas receberão modificações para necessitar de menor utilização de processamento computacional (CPU) e memória unificada (RAM).

As promessas são de até 30% a mais de velocidade na abertura de aplicativos, até 70% a mais no carregamento de novas capturas de imagem, até 80% a mais de velocidade no compartilhamento de arquivos pelo AirDrop e de até cinco vezes mais velocidade de navegação e transferência de arquivos no iPadOS. As funções de busca interna nos dispositivos foram reformuladas para ter maior precisão e velocidade.

Em março, a Apple lançou os computadores mais acessíveis de sua história. Com o mesmo chip presente nos iPhones 16 Pro, o MacBook Neo foi lançado pelo preço mínimo de US$599 e foi um sucesso de vendas, com cerca de 1,1 milhão de unidades vendidas apenas nas primeiras três semanas. Uma das preocupações dos usuários com relação ao produto é a limitação da memória unificada (RAM) a oito gigabytes — o que tende a ser menos impactante após a nova otimização dos sistemas anunciada.

Além disso, a apresentação teve uma seção exclusivamente focada nas novas ferramentas de controle parental para o consumo de conteúdos. Pais poderão criar contas para crianças e controlar quais conteúdos poderão ser acessados, quem elas poderão entrar em contato, quando elas terão acesso a determinados aplicativos e em quais horários.

As ferramentas incluem, ainda, um foco em segurança de comunicação, com uma função de identificação automática de conteúdos considerados inapropriados, como nudez, violência, entre outros, que borra o conteúdo e notifica o usuário sobre a presença de tal. Essa identificação também funcionará em tempo real, durante chamadas de vídeo pelo Facetime.

*Com informações da AFP

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