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Análise

A imprensa e a lição que a Lava Jato não ensinou

Grande mídia embarcou acriticamente na narrativa da operação; resultado pavimentou ascensão da extrema direita

06/09/2026 às 06:00 · Atualizado há 1 mês
Ato é em apoio à Operação Lava Jato, em 2016; imprensa embarcou na narrativa
Ato em apoio à Operação Lava Jato, em 2016; imprensa não aprendeu com os erros da época (Marcello Casal jr/Agência Brasil)

A guerra aberta entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça expôs mais do que a fratura no STF: escancarou, de novo, os velhos vícios de uma imprensa que insiste em não aprender com os próprios erros.

Há dez anos, parte da grande mídia embarcou acriticamente na narrativa de procuradores e juízes da Lava Jato, tratou vazamentos seletivos como verdade revelada e ajudou a construir o cenário que desaguou no impeachment de Dilma Rousseff. O resultado, hoje inegável, foi pavimentar o caminho para o fortalecimento da extrema direita e a eleição de Jair Bolsonaro. Passada uma década, o escândalo do Banco Master mostra que o aprendizado foi, na melhor das hipóteses, parcial.

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O colapso do Banco Master e a relação de Daniel Vorcaro com autoridades de Brasília envolvem, majoritariamente, nomes da direita e do Centrão — que é direita, ainda que parte da cobertura insista em tratá-lo como um bloco à parte. Ainda assim, setores da imprensa preferiram narrar o caso como “crise institucional” ou “racha no Judiciário”, evitando nomear o que está no centro da história: indícios de um esquema de corrupção bilionário que enredou parlamentares, banqueiros e, possivelmente, ministros do STF. Trocar o substantivo “corrupção” por “crise” não é neutralidade – é opção editorial, e ela beneficia quem está sendo investigado.

Falsa equivalência na imprensa

Nesse mesmo movimento, ganhou força uma equivalência que não resiste a fatos: colocar no mesmo patamar o candidato do PL à presidência, Flávio Bolsonaro — flagrado em áudio cobrando pessoalmente de Vorcaro o repasse de R$ 134 milhões para financiar um filme sobre o pai — e o presidente Lula, que disputa a reeleição e não responde a nenhuma ação por corrupção. Não há aqui uma busca pelos “dois lados”, há um lado com prova material e outro que a imprensa tenta fabricar por analogia. Repetir essa falsa simetria é, mais uma vez, emprestar à direita o discurso de que “todo mundo é farinha do mesmo saco” — exatamente a lógica que blindou o bolsonarismo em 2018.

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Some-se a isso a pressa em divulgar vazamentos de inquéritos supostamente incômodos para a candidatura petista, quase sempre sem o rigor crítico necessário sobre a origem, o contexto eleitoral e o objetivo político de quem vaza. O mesmo cuidado não é aplicado, na mesma proporção, às investigações que pesam sobre o candidato do PL. É o manual de 2016 e 2018 sendo reaberto: espetacularizar o que interessa a um lado e tratar como rotina o que interessa ao outro.

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A Lava Jato ensinou (ou deveria ter ensinado) que jornalismo não é vitrine de vazamento, que investigação não é sinônimo de culpa, e que tratar como equivalentes casos com pesos de prova completamente diferentes é fazer política disfarçada de cobertura jornalística. A crise Moraes–Mendonça é uma oportunidade de mostrar que a imprensa aprendeu algo desde então. Até agora, o que se vê é o mesmo roteiro, com os mesmos personagens sendo interpretados por outros atores. Assim, fica difícil sonhar com um final feliz…

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