Reportagem

Careca, otimista e cético: Amado Mundo publica entrevista inédita de Zuenir Ventura

Em entrevista gravada em 2019, o imortal da ABL confessou sua relação conflituosa com a escrita e o ceticismo bem-humorado diante das crises do país

por Henrique Fregonasse
27/09/2026 às 14:42 · Atualizado há 2 semanas
Zuenir Ventura, jornalista e imortal da ABL, durante entrevista gravada em 2019
Zuenir Ventura, jornalista e imortal da ABL, durante entrevista gravada em 2019

O Amado Mundo publicou neste domingo, 27/9, trechos inéditos de uma entrevista de Zuenir Ventura. O jornalista, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) morreu na terça-feira (22), aos 95 anos.

Assista à entrevista com Zuenir Ventura:

A entrevista foi gravada em 2019 por Luiz Gustavo Ferraz, diretor de desenvolvimento audiovisual do Amado Mundo. O material foi feito para o curta-metragem “Parte da Conversa”, uma homenagem à jornalista Miriam Leitão exibida no congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) daquele ano, mas não utilizado.

“Eu não gosto de escrever, eu gosto de ter escrito. Se eu soubesse fazer outra coisa, eu faria. Mas eu não sei. A única coisa que eu sei fazer é escrever, mas eu não gosto”, disse Zuenir na gravação.

A relação conflituosa de Zuenir Ventura com a escrita

Apesar de ser um dos nomes mais consagrados da literatura e da imprensa brasileira, Zuenir sempre teve uma relação conflituosa com a escrita.

Na conversa, ele lembrou que passou grande parte da carreira como editor, cobrando e orientando repórteres. Por isso, muitos colegas não conheciam sua faceta de autor. Quando estreou em livro, com “1968: o ano que não terminou”, em 1988, o estranhamento foi geral, contou: as pessoas diziam que nem sabiam que ele escrevia.

Zuenir escrevia para ler mais

Para Zuenir, a escrita vinha quase como uma imposição do ofício, e ele chegou a confessar que escrevia por obrigação.

Um traço de sua personalidade ajuda a explicar essa relação. Ele não aparece na entrevista, mas era muito conhecido nos bastidores: a grande paixão de Zuenir sempre foi a leitura. Escrever era um meio para um fim. Ele cumpria a tarefa justamente para se livrar dela e garantir tempo livre para ler mais.

‘Careca e otimista’: o olhar de Zuenir sobre as crises do Brasil

O olhar analítico do imortal da ABL também aparecia em sua visão de mundo. Em 2019, ele já diagnosticava um “acúmulo de crises” no país: política, econômica, ambiental, ética e até uma “crise da palavra”.

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Zuenir gostava de dizer que era otimista por natureza e brincava que seu DNA já tinha determinado que ele seria “careca e otimista”. Diante da realidade brasileira, porém, esse otimismo dava lugar à desesperança.

Ele resumiu seu ceticismo ao lembrar o conselho que deu a um amigo em busca de alento: “Se você enxergar alguma luz no fim do túnel, toma cuidado que é carro na contramão”.

Miriam Leitão homenageia Zuenir Ventura

Após a morte de Zuenir Ventura, seu legado foi exaltado por nomes do jornalismo e da literatura. Amiga e companheira de trabalho, Miriam Leitão, a homenageada do curta do qual a entrevista faz parte, destacou ao Amado Mundo a importância dos ensinamentos de Zuenir para o jornalismo brasileiro.

“Zuenir é o professor de jornalismo que o Brasil não pode esquecer. As lições dele nunca terminam. […] Principalmente, a lição de ir ao local do evento e ver o que realmente acontece. A nova geração de jornalistas é muito digital, nascida nesse contexto. Muitas pessoas acreditam demais em WhatsApp e em inteligência artificial, quando o jornalismo precisa voltar aos seus fundamentos para entender o que existe em um determinado lugar”, afirmou Miriam.

Confira a entrevista da jornalista ao Amado Mundo sobre Zuenir.

Os livros de Zuenir Ventura

•⁠ ⁠“1968: o ano que não terminou” (1988)
•⁠ ⁠“Cidade partida” (1994)
•⁠ ⁠“Inveja: mal secreto” (1998)
•⁠ ⁠“O Rio de J. Carlos” (1998)
•⁠ ⁠“Crônicas de um fim de século* (1999)
•⁠ ⁠“70/80 – Cultura em trânsito: da repressão à abertura”, com Heloisa Buarque de Hollanda e Elio Gaspari
•⁠ ⁠“Chico Mendes: crime e castigo” (2003)
•⁠ ⁠“Vozes do golpe” (2004), obra coletiva com Moacyr Scliar e outros autores
•⁠ ⁠“Minhas histórias dos outros” (2005; versão ampliada vencedora do Prêmio Faz Diferença em 2022)
•⁠ ⁠“1968: o que fizemos de nós” (2008)
•⁠ ⁠“Conversa sobre o tempo” (2010), com Luis Fernando Verissimo e mediação de Arthur Dapieve, relançado como “Sobre o tempo”, em 2020
•⁠ ⁠“Melhores crônicas” (2010)
•⁠ ⁠“Sagrada família” (2012), romance
•⁠ ⁠“Crônicas para ler na escola” (2012)

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