Matheus Puppe

Conversas sobre direito digital, IA, proteção de dados e web3

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Análise

A ‘Otan’ da inteligência artificial já começou: conheça a Waico

Criada por 29 países, liderada pela China e sediada em Xangai, a nova instituição nasce com discurso de cooperação, desenvolvimento e governança global; mas EUA e UE, entretanto, ficaram de fora

20/07/2026 às 12:28 · Atualizado há 3 meses
Waico
O Brasil acaba de se tornar membro fundador da Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial, a Waico. (Foto de XY / CFOTO via AFP)

O Brasil acaba de se tornar membro fundador da Organização Mundial para Cooperação em Inteligência Artificial, a Waico. Criada por 29 países, liderada pela China e sediada em Xangai, a nova instituição nasce com discurso de cooperação, desenvolvimento e governança global. Estados Unidos e União Europeia, entretanto, ficaram de fora.

Leia também: A guerra da IA começou – e o que está em jogo é o controle do futuro

Chamaram a Waico de a “ONU da inteligência artificial”. A comparação é sedutora, mas na minha visão utopicamente pacifista. A ONU foi concebida como espaço universal, no qual adversários permanecem sentados à mesma mesa. A Waico nasce sem os principais rivais tecnológicos da China e em paralelo à Pax Silica, coalizão americana voltada à segurança das cadeias de semicondutores, minerais críticos, energia e infraestrutura de IA.

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O que está sendo construído se parece menos com uma ONU e mais com uma Otan tecnológica. Não porque exista, até agora, compromisso de defesa coletiva ou equivalente ao artigo 5º da aliança militar. A semelhança está na lógica de formação de blocos: países organizados ao redor de centros de poder, compartilhando infraestrutura, padrões, fornecedores, conhecimento e interesses estratégicos diante de competidores externos.

A inteligência artificial deixou de ser apenas software. Ela depende de uma cadeia material de poder: energia abundante, data centers, chips avançados, minerais críticos, redes de telecomunicações, modelos fundacionais, dados, capital e profissionais especializados. Quem controla essa cadeia não controla apenas uma indústria. Controla a capacidade dos demais países de produzir conhecimento, organizar mercados, proteger infraestruturas, automatizar governos e projetar poder militar.

Por isso, a guerra da IA não será travada apenas por empresas disputando o melhor modelo. Será travada por Estados definindo quem pode comprar chips, acessar nuvem, treinar algoritmos, utilizar modelos estrangeiros e participar das cadeias globais de tecnologia. Sanções, controles de exportação, padrões técnicos, licenças, regras de segurança e acordos internacionais tornaram-se armas de uma guerra econômica que já começou.

A disputa também é militar e informacional. Sistemas de IA já influenciam vigilância, inteligência estratégica, defesa cibernética, logística militar, análise de imagens, identificação de ameaças, desinformação, drones e armamentos autônomos. No futuro próximo, a superioridade de um país dependerá cada vez menos apenas da quantidade de soldados ou equipamentos e cada vez mais da capacidade de coletar dados, processá-los rapidamente e transformá-los em decisões operacionais.

O que significa a entrada do Brasil na Waico?

Nesse cenário, coalizões são inevitáveis. Nenhum país intermediário possui sozinho todos os elementos necessários para competir com Estados Unidos ou China. A escolha real não é entre participar ou permanecer neutro. É entre participar com estratégia ou tornar-se dependente de decisões tomadas em Washington, Bruxelas, Pequim ou Xangai.

A entrada do Brasil na Waico não deve ser analisada como alinhamento ideológico automático com a China, mas, sim, uma decisão pragmática para ampliar acesso a modelos, capacitação, investimento e infraestrutura, especialmente diante de um Ocidente que frequentemente fala em cooperação, mas concentra tecnologia e restringe seu acesso quando ela se torna estratégica.

O risco é trocar uma dependência por outra. O Brasil não pode ingressar nessas coalizões apenas como mercado consumidor, fornecedor de energia, minerais e dados. Precisa negociar capacidade computacional instalada no território nacional, transferência tecnológica, formação de pesquisadores, participação na definição de padrões, desenvolvimento de modelos em português e autonomia sobre infraestruturas críticas.

Isso exige também regulação adequada. O país não pode tratar a inteligência artificial apenas como fonte de risco, discriminação ou responsabilidade civil. Esses temas são relevantes, mas uma legislação excessivamente restritiva pode bloquear justamente a formação das empresas, dos modelos e das capacidades estratégicas que o Brasil precisará para preservar sua autonomia.

Uma boa regulação deve diferenciar usos de baixo e alto risco, proteger direitos fundamentais e, ao mesmo tempo, permitir experimentação, investimento, acesso a dados, pesquisa e desenvolvimento de sistemas nacionais. Regular IA sem política industrial, energética, militar e científica é regular a dependência.

A adoção também precisa ser real. Não basta que empresas assinem plataformas estrangeiras e que governos anunciem projetos-piloto. Empresas brasileiras devem incorporar IA à produção, à logística, à pesquisa, à segurança e à tomada de decisão. O Estado deve utilizá-la na saúde, educação, fiscalização e prestação de serviços, mas também em inteligência, defesa, cibersegurança, política externa e planejamento estratégico.

O debate brasileiro costuma limitar a IA à produtividade administrativa ou ao medo da substituição de empregos. Essa visão é pequena. Inteligência artificial é infraestrutura econômica, política e militar. Um país incapaz de desenvolver, auditar e operar seus próprios sistemas ficará vulnerável não apenas comercialmente, mas também em sua capacidade de compreender ameaças, proteger fronteiras, combater ataques cibernéticos e tomar decisões soberanas.

Também não basta assinar acordos externos enquanto internamente tratamos data centers como ameaça, energia para computação como desperdício e inteligência artificial como objeto exclusivo de contenção regulatória. Soberania tecnológica não se proclama em conferências.

Constrói-se com infraestrutura, capital, pesquisa, empresas competitivas, capacidade militar e regulação que proteja sem inviabilizar.

O Brasil possui energia, território, mercado, universidades, dados, minerais e posição diplomática para atuar entre blocos. Mas diplomacia de múltiplos alinhamentos só funciona quando existe capacidade própria. Sem ela, a suposta autonomia vira apenas liberdade para escolher de qual potência seremos clientes.

A inteligência artificial será para o século XXI o que a indústria pesada, o petróleo e o poder nuclear foram para o século XX. Quem não compreender isso continuará discutindo ética abstrata enquanto outros países constroem as máquinas, os armamentos, os tratados e as alianças que organizarão o novo equilíbrio global de poder.

Os artigos publicados pelo Amado Mundo não refletem necessariamente a opinião do site. O objetivo ao publicá-los é estimular o necessário debate em qualquer democracia.
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