Reportagem

Vovó Vota: a mobilização para netas que querem levar avós às urnas

Idealizada pelo Movimento Voto 70+ e UBES, iniciativa engaja jovens para acompanharem suas avós no dia da eleição

por Letícia Corrêa
Publicado em 04/10/2026 às 05:45
vovó
O voto a partir dos 70 anos é facultativo (Alejandro Zambrana/TSE)

Em um cenário eleitoral no qual a população com 70 anos ou mais atinge a marca histórica de 17,25 milhões de brasileiros aptos a votar — representando 10,87% de todo o eleitorado nacional —, uma articulação decidiu transformar o dia da votação em um pacto de afeto e cidadania entre duas gerações de mulheres. Trata-se da iniciativa “Vovó Vota”, uma campanha idealizada pelo Movimento Voto 70+ e pelo hub de inteligência data8, em parceria com a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) e os coletivos Elas Decidem e Serenas.

Leia mais: O poder político da velhice feminina: como as idosas viraram fiéis da balança em 2026

A ação digital convida meninas e jovens mulheres a acompanharem suas avós às seções eleitorais, oferecendo apoio logístico, combate ao isolamento e incentivo cívico sob slogans como “Se vovó vota, vovó decide” e “Neta boa é neta que defende a democracia junto com a avó”.

A mobilização nasce para responder a uma contradição estatística identificada nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Embora o eleitorado com mais de 70 anos seja o que mais cresce no país — acumulando uma expansão de 59,37% entre 2014 e 2026 —, esse grupo mantém taxas de abstenção que superam 58% a 60% nas urnas.

Enquanto abaixo dos 70 anos as mulheres se abstêm menos que os homens, a partir dos 70 anos o padrão se inverte. No primeiro turno das eleições de 2024, 55,4% das mulheres 70+ deixaram de votar, contra 45,4% dos homens; no segundo turno, a ausência feminina saltou para 63,7%, ante 53,0% da masculina.

Confira o guia do Voto 70+:

Os quatro fatores da abstenção das ‘vovós’, segundo Cléa Klouri

Para compreender o que afasta as eleitoras idosas das urnas, levantamentos qualitativos do data8 identificaram quatro gargalos estruturais nas histórias de vida dessas mulheres. O primeiro é a socialização política passiva vivida na juventude por gerações de 75 a 80 anos, quando a política era tratada socialmente como um ambiente masculino. O segundo fator é a sobrecarga contínua da economia do cuidado, na qual a mulher idosa permanece responsável pelo cuidado não remunerado de netos, cônjuges ou parentes enfermos e, sem rede de apoio ou com quem deixar os dependentes, acaba sacrificando o seu direito ao voto.

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O terceiro obstáculo é o desestímulo no próprio ambiente familiar, onde parentes frequentemente desencorajam o deslocamento da idosa argumentando que o voto já não é mais obrigatório pela Constituição. A cofundadora do data8 Cléa Klouri adverte que essa abordagem familiar esconde uma armadilha cultural perigosa.

“A lei diz que, depois dos 70 anos, votar é uma escolha. Mas, nas falas dessas mulheres, encontramos situações em que essa liberdade vai sendo traduzida como ‘você não precisa mais ir’ ou ‘para que você vai votar?’. O risco é transformar facultatividade em desimportância. O voto continua tendo exatamente o mesmo valor; o que muda é a obrigação de comparecer”, aponta a coordenadora.

Por fim, o quarto fator é a internalização do etarismo e a consequente sensação de invisibilidade social.

“A mulher sofre mais o impacto do envelhecimento do que os homens. Ela sofre mais esse etarismo e começa a achar que o voto dela e a sua participação não têm mais tanta importância. Ela traz essa invisibilidade de pensar: ‘já estou velha, ninguém mais faz questão de me ouvir, então para que preciso votar?'”, explica Klouri. Ela ressalta que esse conjunto de barreiras desestimula o exercício cívico.

Invertendo a lógica familiar: o guia prático e o apoio entre gerações

A proposta da campanha “Vovó Vota” é justamente inverter essa lógica de exclusão. Em vez de a família desencorajar a idosa ou deixá-la isolada, a geração mais jovem se coloca à disposição para ajudá-la a exercer sua escolha democrática. A articulação produziu o guia digital “Vovó Vota”, que orienta as netas a iniciarem uma conversa afetuosa, confirmarem a zona e a seção eleitoral da avó, separarem um documento oficial com foto, prepararem a “colinha” de votação e organizarem o transporte acessível.

O guia sugere ainda integrar o ato de votar a uma experiência familiar acolhedora, como almoçar juntas, preparar uma receita tradicional ou tomar um café após a votação.

Roberta Pontes, de 20 anos, moradora da periferia do Recife e presidenta da Ubes, destaca o caráter pedagógico e afetivo da iniciativa.

“É fundamental manter viva a participação política da geração da minha avó. Se hoje tenho consciência da importância da política, é porque aprendi com meus avós. Foram eles que vieram antes de nós e ajudaram a construir o país. Minha avó entende que, mesmo não sendo obrigada a votar, participar das eleições é uma forma de continuar defendendo a democracia”, afirma a liderança estudantil”, disse.

A mobilização também reforça um incentivo prático inédito nas eleições de 2026: o comparecimento às urnas passa a ser utilizado pelo INSS como Prova de Vida automática para aposentados e pensionistas.

A cobrança sobre os candidatos e a Justiça Eleitoral

Além do engajamento familiar e do apoio comunitário, Klouri enfatiza que o resgate do eleitorado idoso exige compromissos concretos por parte da Justiça Eleitoral e das candidaturas partidárias. No caso do TSE, a especialista em longevidade cobra a eliminação de barreiras arquitetônicas nas seções, a garantia de acessibilidade sem filas e a oferta de transporte individual gratuito para eleitores com mobilidade reduzida.

Em relação às campanhas políticas, Cléa aponta que a falta de propostas direcionadas à longevidade afasta os idosos do pleito. Ela defende que o voto sênior deve ser valorizado como o repositório de décadas de experiência democrática do país.

“Se os candidatos não promovem um programa político e não fazem projetos públicos para garantir uma longevidade saudável, por que essas pessoas vão votar? Existe uma via de mão dupla. Ainda não há uma percepção clara das campanhas sobre o envelhecimento da população e sobre quais ações deveriam ser feitas para garantir que essa longevidade seja plena”, conclui.

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