Entre o escândalo e o voto
Expectativas sobre dimensão de um escândalo e seu efeito no voto muitas vezes deixam de considerar série de fatores envolvidos em uma escolha eleitoral
Fábio Vasconcellos*

As primeiras pesquisas após as revelações do caso Master envolvendo o pré-candidato a presidente da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) identificaram um efeito menor do que se imaginava. A queda de quatro pontos percentuais nas intenções de voto para Flávio, segundo o Datafolha, demonstrou o grau de imprecisão das expectativas bastante elevadas na véspera.
Essa dissociação decorre de uma compreensão razoável. Um áudio de um candidato a presidente da República envolvido com um banqueiro acusado de uma fraude bilionária não é um fato desprezível em uma campanha. Adicione a essa leitura a velocidade com que as informações hoje circulam pelo ambiente digital. Resultado: “Flávio poderia derreter”.
Há dois problemas nessa hipótese. O primeiro é considerar que as informações chegaram a um número expressivo de eleitores desprovidos de valores e crenças estabelecidas. O segundo é mirar nas curvas de intenção de voto como principal indicador dos efeitos.
Enquanto o primeiro desconsidera os mecanismos de mediação cognitiva que os eleitores utilizam nas suas avaliações, o segundo espera que as inflexões sejam diretas sobre a escolha eleitoral. Mas há diferenças entre saber do caso, reprová-lo e mudar a atitude eleitoral, fenômeno que depende de mais tempo e maturação.
Eleitores não são uma tábua rasa que apenas reagem aos estímulos que recebem, nem necessariamente ignoraram o escândalo. Embora a cobertura jornalística e a campanha eleitoral produzam mudanças na opinião pública, muitas vezes elas são mais sutis do que imaginamos.
Desgaste mais sutil que o imaginado sobre o voto
Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, segundo o Datafolha, 37% consideram que o senador “agiu mal” ao pedir dinheiro para Daniel Vorcaro. A maioria (54%) considera que ele tem relação próxima com o banqueiro. Cerca de 18% disseram que confiam menos no candidato. Houve um desgaste na base de Flávio.
Esses números conjugados com a variação negativa não tão expressiva nas intenções de voto demonstram como se organizam as percepções dos eleitores. Os eleitores de Flávio sabem do escândalo e parte não aprova o comportamento do senador, mas eles carregam percepções e motivações para ainda apoiar o candidato.
O efeito do caso, portanto, é mais indireto e sutil do que as expectativas de véspera. É provável que antes de mudar sua intenção de voto, parte dos eleitores esteja mais próximos hoje de uma “lealdade condicional”. Eles vão aguardar os desdobramentos para, talvez mais à frente, decidir se permanecem ou abandonam o candidato.
Mesmo que decidam mudar, não há sinais, até aqui, de que Flávio perderá uma proporção considerável de votos. Apesar da velocidade das informações e do dano para a imagem do pré-candidato, há uma baixa volatilidade eleitoral na atual disputa. Boa parte dos eleitores de Flávio apresenta razões ideológicas (conservadorismo e antipetismo), psicológicas (identificação efetiva com Bolsonaro pai) ou estratégicas (é mais importante trocar o governo) consistentes para filtrar as informações e justificar a sua escolha.
*Fábio Vasconcellos é cientista político, professor da Uerj e da PUC-Rio e pesquisador do INCT ReDem da UFPR