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Análise

Virginia, com grande influência vem grande responsabilidade

À medida que o alcance cresce, aumenta também a responsabilidade; influenciadora há mais de uma década no digital, Virginia sabe que criadores de conteúdo moldam posicionamentos — e, sobretudo, monetizam

Publicado em 26/05/2026 às 06:00
virgínia
Influenciadora Virgínia (Crédito: Reprodução/Instagram)

Na última terça-feira, a influenciadora Virginia Fonseca — que soma dezenas de milhões de seguidores no Instagram, YouTube e TikTok — publicou um vídeo beijando um macaco em um zoológico em Dubai, nos Emirados Árabes. A postagem, feita dias após o anúncio do término de seu relacionamento com Vini Jr. — jogador frequentemente alvo de ataques racistas — gerou críticas imediatas.

Parte do público associou o conteúdo a imaginários historicamente usados para desumanizar pessoas negras. A questão que se coloca é inevitável: em 2026, ainda é plausível alegar desconhecimento sobre o peso simbólico que certos conteúdos carregam — especialmente na economia da influência?

Virginia afirmou, em vídeo e em nota oficial, que jamais faria qualquer ataque ao jogador e que sempre esteve ao seu lado na luta contra o racismo. Disse ainda que o conteúdo foi interpretado fora de contexto. Mas reconheceu que o momento da publicação “talvez” não tenha sido o mais adequado.

Sim, pessoas erram. Mas há aqui uma assimetria que não pode ser ignorada.

Virginia está na internet há mais de uma década. Tempo suficiente não apenas para acumular milhões de seguidores e de reais, mas para desenvolver leitura de contexto, sensibilidade de audiência e consciência sobre os efeitos de suas publicações. Influência não é apenas alcance — é poder simbólico.

O que Virginia poderia aprender com a CPI das Bets?

Independentemente da intenção declarada, o episódio revela um problema recorrente: grandes influenciadores operam em um campo de alta responsabilidade simbólica, mas frequentemente se comportam como se isso não existisse.

A associação entre pessoas negras e macacos não é um detalhe obscuro — é um dos imaginários racistas mais antigos e violentos da cultura ocidental, amplamente debatido, especialmente no contexto do futebol. Vini Jr. é alvo deste tipo específico de racismo há muitos anos, impossível não associar rapidamente o vídeo a isso. Tanto que ela recebeu centenas de comentários fazendo essa assimilação. Ignorá-lo não é neutralidade; é, no mínimo, negligência. 

Criadores de conteúdo moldam linguagem, estética, comportamento e posicionamentos sociais. Eles sabem disso — e, mais importante, monetizam isso. Não é razoável reivindicar os benefícios dessa posição sem assumir seus custos.

Em um ambiente digital em que conteúdos circulam com velocidade e escala inéditas, o que parece banal pode rapidamente ganhar dimensão política. E quanto maior a audiência, menor o espaço para a ingenuidade.

Virginia não parece ter aprendido muito com a experiência na CPI das Bets. Porque, no ambiente digital, o impacto de uma publicação não se mede pela intenção, mas pela responsabilidade que a acompanha. De boas intenções… a internet está cheia.

Colaborou Ellen Paes

Os artigos publicados pelo Amado Mundo não refletem necessariamente a opinião do site. O objetivo ao publicá-los é estimular o necessário debate em qualquer democracia.
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