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Análise

Virginia Fonseca e o vazio da influência

Virginia não é jornalista nem especialista em futebol. Foi escolhida para cobertura da Globo na Copa porque mobiliza atenção. E talvez isso explique melhor o momento atual da indústria da comunicação do que qualquer pesquisa acadêmica

Publicado em 07/06/2026 às 06:00
Virginia Fonseca
Virginia Fonseca desfila no Carnaval do Rio de Janeiro (Foto de Pablo PORCIUNCULA / AFP)

Virginia Fonseca talvez seja a maior influenciadora do Brasil. Os números dizem isso. Os algoritmos confirmam. Marcas pagam por isso. A televisão se rende a isso. Mas existe uma pergunta que continua sem resposta: afinal, o que Virginia influencia?

Não é uma provocação gratuita. É uma questão legítima sobre o nosso tempo.

Ao longo dos últimos anos, Virginia construiu um império baseado na exposição permanente da própria vida. Casamento, gravidez, maternidade, rotina doméstica, viagens, compras, festas, separações… tudo vira conteúdo! Tudo vira produto! Tudo vira oportunidade de monetização! Até mesmo os filhos…

Numa época em que se discute cada vez mais os limites da exposição infantil nas redes sociais, Virginia se tornou um dos maiores símbolos da transformação da infância em ativo de engajamento. Milhões de brasileiros acompanham o crescimento de crianças que nem sequer tiveram idade para consentir com a própria presença nesse gigantesco reality show familiar. Não se trata de uma exclusividade dela. Mas poucos elevaram essa prática a um modelo de negócios tão rentável.

Leia também: Por que não devemos pedir conselhos políticos à inteligência artificial?

A questão se torna ainda mais delicada quando observamos a natureza dos produtos que ajudaram a construir a fortuna da loira que nasceu em Danbury, no estado de Connecticut, nos Estados Unidos, e cresceu em Governador Valadares, Minas Gerais. O episódio mais emblemático foi a participação da influenciadora na CPI das Bets. Convocada para explicar contratos de publicidade com plataformas de apostas, Virginia afirmou não se arrepender das campanhas que realizou e negou ter lucrado com uma espécie de comissão sobre as perdas de seguidores. A discussão, porém, ultrapassava a legalidade do contrato: dizia respeito à responsabilidade de quem fala diariamente para dezenas de milhões de pessoas.

Durante anos, influenciadores venderam apostas como entretenimento inofensivo enquanto milhares de brasileiros mergulhavam em dívidas, compulsão e sofrimento financeiro. A CPI fracassou politicamente e teve o relatório final rejeitado. Mas o debate moral permanece.

Virginia é investigada pela PF, segundo reportagem

Agora, reportagem da revista “piauí” adiciona uma nova camada de questionamentos. Segundo a publicação, Virginia passou a ser investigada pela Polícia Federal após informações analisadas durante a CPI. A investigação busca apurar a legalidade de operações financeiras envolvendo empresas ligadas à influenciadora. É importante destacar: investigação não é condenação. Até o momento, não há acusação formal nem decisão judicial contra ela. Mas o simples fato de uma das maiores celebridades do país estar no radar da PF já é um acontecimento relevante.

A mesma reportagem descreve movimentações financeiras milionárias envolvendo empresas como a Talismã Digital e levanta questionamentos sobre operações consideradas atípicas por instituições financeiras. Também recupera episódios da trajetória empresarial da Wepink, empresa que faturou cerca de R$ 1,3 bilhão em 2025 e se tornou a principal fonte de riqueza da influenciadora.

Mas as polêmicas não impediram que Virginia continuasse acumulando contratos, visibilidade e poder.
Pelo contrário.

A influenciadora foi contratada pela Globo para atuar como enviada especial durante a Copa do Mundo. A decisão provocou desconforto entre profissionais da emissora e reacendeu uma discussão antiga: qual é o critério para ocupar espaços de destaque na comunicação brasileira? Audiência? Alcance? Engajamento?
Ou credibilidade?

Virginia não é jornalista. Não é especialista em futebol. Não é comentarista esportiva. Foi escolhida porque mobiliza atenção. E talvez isso explique melhor o momento atual da indústria da comunicação do que qualquer pesquisa acadêmica.

Hoje, a atenção vale mais do que a expertise.

Mas voltemos à pergunta inicial:

O que Virginia influencia?

Sabemos o que ela vende. Sabemos o que ela anuncia. Sabemos o que ela posta. Sabemos quantos milhões de pessoas acompanham seus stories. Mas sabemos o que ela pensa? Qual é sua visão de mundo? O que ela defende? Quais causas considera importantes? Que valores deseja transmitir para as pessoas que a seguem?

É difícil responder. E talvez esteja aí o centro da questão.

Virginia se tornou uma das maiores influenciadoras do Brasil sem que o país necessariamente conheça suas ideias. Sua influência parece estar menos associada à formação de opinião e mais à capacidade de movimentar consumo.

Ela influencia compras, tendências, algoritmos…

Mas será que influencia reflexão?

Durante muito tempo, a palavra “influência” esteve associada à capacidade de mudar percepções, comportamentos e debates. Hoje, cada vez mais, ela parece significar apenas a capacidade de vender.
Talvez Virginia não seja apenas um fenômeno individual. Talvez ela seja o retrato perfeito de uma era em que popularidade virou sinônimo de relevância e engajamento virou sinônimo de autoridade. Uma era em que milhões acompanham cada passo de uma pessoa sem necessariamente saber quem ela é.

E isso diz menos sobre Virginia Fonseca do que sobre todos nós.

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