Reportagem

Vini Jr. x Haaland: o que cada astro de Brasil e Noruega leva para o duelo das oitavas

Artilheiros de suas seleções, Vini Jr. e Haaland protagonizam oitavas de final entre Brasil e Noruega, adversário que a Amarelinha nunca venceu

por Eduarda Farias
05/07/2026 às 06:00 · Atualizado há 2 semanas
Vini Júnior e Haaland fazem duelo de atacantes em alta na Copa do Mundo / Foto: Rafael Ribeiro/CBF; Angela Weiss/AFP
Vini Júnior e Haaland fazem duelo de atacantes em alta na Copa do Mundo (fotos: Rafael Ribeiro/CBF; Angela Weiss/AFP)

Depois de 28 anos, Brasil e Noruega voltam a se cruzar em uma Copa do Mundo. E o roteiro, ao menos no papel, é de novela. Os dois times chegam às oitavas de final embalados por viradas heroicas: a seleção brasileira superou o Japão com gol de Gabriel Martinelli aos 50 minutos do segundo tempo, enquanto a Noruega derrubou a Costa do Marfim com Erling Haaland decidindo aos 41 da segunda etapa. No domingo (5/7), no MetLife Stadium, em Nova Jersey, o duelo coloca frente a frente os dois jogadores que mais simbolizam o momento de suas seleções: Vinícius Júnior e Haaland.

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Não é força de expressão dizer que o Brasil tem um problema histórico chamado Noruega. Em quatro confrontos disputados entre as seleções, a Amarelinha nunca venceu os noruegueses — foram dois empates e duas vitórias da equipe nórdica. O único encontro entre as seleções em Copas aconteceu em 1998, na França: o Brasil de Zagallo, com Ronaldo, Rivaldo e Cafu, abriu o placar com Bebeto, mas sofreu a virada e perdeu por 2 a 1 na fase de grupos, em resultado que ainda hoje é citado pela imprensa norueguesa como uma das maiores zebras da história do país no futebol.

O clima em torno do jogo já esquentou antes de a bola rolar. Após a vitória sobre a Costa do Marfim, o técnico Stale Solbakken discursou no vestiário do AT&T Stadium a seus jogadores e, na reta final da fala, mandou um recado direto a Carlo Ancelotti: “Vocês não estão apenas mudando a história do futebol da Noruega, mas a história da Noruega como um todo. E, Carlo Ancelotti, pode esperar! Vamos atrás de você”.

A frase viralizou e foi tratada como provocação, mas, em coletiva no dia seguinte, o treinador amenizou o tom, dizendo que se tratava de uma homenagem ao italiano, que classificou como “um dos maiores, se não o maior, treinador da história do futebol europeu”, ao lado de nomes como Pep Guardiola e José Mourinho. A imprensa norueguesa, porém, manteve o tom de provocação: o jornal “Dagbladet” publicou que “o Brasil está tremendo” diante da perspectiva de enfrentar Haaland.

Vini Jr. na versão mais decisiva

Se a Copa de 2022 marcou a estreia de Vinícius Júnior como titular absoluto, a de 2026 tem sido a confirmação. O atacante balançou as redes nas três partidas da fase de grupos, contra Marrocos, Haiti e Escócia, repetindo um feito que, no século 21, só havia sido alcançado por Ronaldo e Rivaldo, em 2002. Chegou às oitavas com cinco gols em oito jogos pela Seleção em 2026, média de 0,62 – que supera a de sua melhor temporada pelo Real Madrid (0,61, em 2023/24). Contra o Japão, foi novamente decisivo na construção da virada, acertando a trave de Zion Suzuki após arrancada individual e empolgando o time (e a torcida).

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Os números do mapa de calor de suas finalizações reforçam o perfil. Segundo dados da Opta Analyst, sobre os primeiros sete jogos de Vini em mundiais (exceção do mata-mata com o Japão) foram 21 chutes, 4,6 de gols esperados (xG) acumulado e cinco gols já convertidos — quase todos de dentro da pequena área ou nas imediações, fruto de sua capacidade de encontrar espaço em profundidade e de definir em situações de um contra um. É um jogador que se apoia menos no faro de artilheiro puro e mais na criação de superioridade tática pela lateral esquerda.

Haaland, o artilheiro que precisa de pouco

Do outro lado, Haaland chega embalado por uma campanha de artilheiro nato. Estreou com dois gols contra o Iraque, ampliou a contagem com outro par diante do Senegal e decidiu a classificação sobre a Costa do Marfim. São cinco gols em apenas 270 minutos disputados – com exceção da goleada sofrida para a França, quando Solbakken preservou parte do time titular e o atacante nem entrou em campo.

O que chama atenção não é apenas a frequência dos gols, mas a eficiência: Haaland converteu 7,25% de seus toques na bola em gols nesta Copa, a maior marca entre jogadores com pelo menos 60 toques desde 1966, à frente de nomes como Oleg Salenko (1994) e Gonçalo Ramos (2022).

Contra a Costa do Marfim, teve apenas 27 toques em 90 minutos (menos que qualquer outro jogador de linha que atuou mais de 60 minutos), mas isso não o impediu de finalizar quatro vezes e marcar o gol da vitória, um lance de xG de 0,80 concluído com apenas um toque. É a lógica do centroavante moderno levada ao extremo: pouca participação no jogo construído, mas letalidade quase absoluta nos momentos em que a bola chega até ele.

O duelo dentro do duelo

Fora das seleções, Vini Jr. e Haaland já se enfrentaram nove vezes pela Champions League, representando Real Madrid e Manchester City. O retrospecto direto favorece o brasileiro – quatro vitórias do Real, duas do City e três empates –, mas, no quesito gols, quem leva vantagem é o norueguês: Haaland balançou as redes quatro vezes contra o Real Madrid de Vini, enquanto o brasileiro soma três gols e cinco assistências nos jogos contra o City.

É um retrato que se encaixa nos perfis dos dois. Vinícius como o jogador que decide, mas também constrói, Haaland como a fome de gol que raramente falha quando a bola chega em sua área.

Para Ancelotti, a missão passa menos por conter o cometa Haaland com um único marcador e mais por evitar que a zaga adiantada do Brasil, peça central do estilo de jogo da equipe nesta Copa, ofereça o espaço nas costas que o norueguês mais gosta de atacar. Do lado oposto, caberá a Solbakken decidir se dobra a marcação sobre Vinícius, abrindo mão de superioridade numérica no meio, ou se confia no um contra um na ala.

O vencedor da partida enfrentará, nas quartas de final, o classificado do confronto entre Inglaterra e México. Para o Brasil, quebrar o tabu de quase quatro décadas sem vencer os noruegueses seria, além de um passo rumo ao hexacampeonato, o fim de uma das últimas estatísticas negativas que ainda perseguem a Seleção na história das Copas.

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