Pesquisa indica que vape gera danos pulmonares mais rapidamente que cigarro tradicional
Estudo revela potencial destrutivo dos cigarros eletrônicos, os vapes

Um estudo científico publicado na revista “Fisioterapia em Movimento” revelou que o uso de cigarros eletrônicos (vapes) pode provocar prejuízos à função pulmonar mais severos do que o tabagismo convencional em jovens adultos. Embora os pesquisadores ressaltem que é uma pesquisa ainda incipiente, com limitações de tamanho e abrangência, os resultados indicam claramente a necessidade de que se aprofunde a investigação, pela gravidade dos achados.
Conduzido por pesquisadores das Faculdades Integradas de Taquara (Faccat) e da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o trabalho avaliou 45 voluntários entre 18 e 40 anos, divididos em três grupos iguais: não fumantes, fumantes de tabaco tradicional e usuários de cigarro eletrônico. Todos os participantes do estudo que consumiam nicotina mantinham o hábito há pelo menos um ano.
Os resultados mostraram que, embora ambos os grupos de fumantes tenham registrado alterações funcionais em relação aos não fumantes, os usuários de cigarro eletrônico apresentaram os piores índices respiratórios nos testes espirométricos. Essa constatação, segundo os autores Juliana Muniz da Silva, Jocilene Pedroso Albuquerque, Soraia Genebra Ibrahim e Emmanuel Souza da Rocha, indica um impacto funcional precoce que supera o dano observado no uso do tabaco convencional com tempo de exposição equivalente.
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Sinais precoces de obstrução respiratória
A avaliação da saúde pulmonar foi realizada por meio da espirometria, um teste considerado não invasivo que mede a capacidade e a velocidade do fluxo de ar nos pulmões através de parâmetros como a Capacidade Vital Forçada (CVF), o Volume Expiratório Forçado no primeiro segundo (VEF1) e a relação entre ambos (VEF1/CVF). Nos exames, a média da Capacidade Vital Forçada se manteve em níveis normais em todos os grupos, com 95,06% no grupo controle, 95,80% nos fumantes de tabaco e 99,93% nos usuários de vape.
No entanto, os indicadores de fluxo aéreo demonstraram uma queda entre os adeptos do dispositivo eletrônico. O VEF1 no grupo de cigarros eletrônicos caiu para 75,53%, valor inferior aos 94,13% observados nos não fumantes, enquanto o grupo de tabaco convencional atingiu 87,13%. A diferença foi ainda mais marcante na relação VEF1/CVF, o principal indicador de limitação e obstrução do fluxo aéreo, na qual os usuários de vape registraram média de 73,80%, resultado estatisticamente inferior tanto ao do grupo controle (95,93%) quanto ao dos fumantes de cigarro tradicional (89,26%).
De acordo com os pesquisadores, essa combinação de fatores sugere um padrão de aprisionamento de ar e redução no desempenho expiratório. Esse quadro, para eles, aponta para um comprometimento funcional precoce das vias aéreas que supera o impacto observado em jovens que utilizam o tabaco tradicional.
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Tosse vs. dispneia
Além dos testes objetivos de sopro, a pesquisa colheu informações sobre a percepção de saúde dos voluntários desde o início do consumo. A vasta maioria dos voluntários relatou impacto negativo, com queixas registradas por 93,33% dos fumantes de tabaco convencional e 80% dos usuários de cigarro eletrônico.
As manifestações clínicas, contudo, divergiram de acordo com o tipo de produto utilizado. Enquanto os fumantes de cigarro tradicional relataram com maior frequência a dispneia — dificuldade para respirar ao esforço— e a sensação contínua de falta de ar, o perfil sintomático dos usuários de dispositivos eletrônicos foi dominado pela tosse persistente e pela falta de ar.
Alerta de saúde pública e mitos sobre redução de danos
A comercialização, importação e fabricação de sistemas eletrônicos de entrega de nicotina são proibidas no Brasil pelas normas regulatórias da Anvisa, de acordo com as diretrizes de cerca de três dezenas de países. Apesar da proibição legal, o consumo informal permanece elevado, alimentado pela falsa crença de que esses aparelhos seriam inofensivos ou ferramentas seguras para a redução de danos em relação ao tabaco comum.
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Os cientistas destacam que a ausência de fumaça derivada da combustão do tabaco não significa isenção de risco respiratório. Os aerossóis e substâncias químicas inalados nos vapes promovem inflamação, aumento da resistência das vias aéreas e alteração mecânica pulmonar, o que desmistifica a ideia de que o cigarro eletrônico é isento de toxicidade para o sistema respiratório.
Limitações do estudo
Os autores ponderam que o trabalho apresenta limitações metodológicas que devem ser consideradas na análise dos resultados. Entre elas estão a amostragem por conveniência composta por 45 participantes, o desenho transversal que impede estabelecer relações de causalidade direta ao longo do tempo, e a ausência de controle estrito sobre variáveis como a carga tabágica acumulada exata, a potência dos aparelhos ou a composição das essências utilizadas.
Em função dessas restrições, os pesquisadores recomendam a realização de estudos longitudinais com amostras mais amplas e representativas para monitorar a evolução da função pulmonar ao longo dos anos e compreender de forma aprofundada os efeitos prolongados do vape sobre a saúde.
Fonte da pesquisa: Agência Bori