Reportagem

Suspensa há 75 dias, vacina do Butantan contra a dengue segue sem previsão de retomada

Saúde parou a aplicação do imunizante nacional após relatos de 42 reações adversas severas, com duas mortes. Investigação testa se há ligação com a vacina

por Cedê Silva
Publicado em 22/08/2026 às 05:59
Vacinação contra a dengue
Vacinação contra a dengue (Paulo Pinto/Agência Brasil)

A vacina do Instituto Butantan contra a dengue chega neste sábado (22/8) a 75 dias suspensa. E não há qualquer previsão de data para a conclusão da investigação sobre potenciais efeitos adversos, aberta em 8 de junho último.

O Ministério da Saúde anunciou, na época, que a suspensão temporária da aplicação da vacina Butantan-DV contra a dengue era necessária para que se investigassem os registros de 42 reações adversas severas, incluindo três eventos graves, depois de aplicação do imunizante. Dos três relatos de casos graves, dois foram de mortes.

Uma nota técnica do ministério mostra que até 30 de maio tinham sido aplicadas 501.044 doses da vacina – uma das vantagens do produto é ser aplicado em dose única. Ainda não é possível concluir se as mortes tiveram ou não relação com a vacina. O protocolo prevê, contudo, que, por segurança, a aplicação seja interrompida enquanto os relatos são analisados.

Procurado, o Ministério da Saúde direcionou as perguntas sobre o estudo dos efeitos adversos à Anvisa, que respondeu apenas: “As discussões e avaliações técnicas conduzidas no âmbito do grupo de trabalho permanecem em andamento. No momento, não há conclusões ou anúncio previsto”. 

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Compra de vacina japonesa contra a dengue

Em 16 de junho, oito dias depois da suspensão da vacina do Butantan, o Diário Oficial trouxe o extrato de um novo contrato entre o Ministério da Saúde e a farmacêutica japonesa Takeda para a compra de 18 milhões de doses da vacina Qdenga, no valor total de R$ 1,5 bilhão. A previsão é entregar as últimas doses em agosto de 2027.

O Ministério da Saúde não respondeu à reportagem se a decisão dessa compra só ocorreu depois da suspensão da vacina do Butantan.

A Takeda já tinha fornecido 15,6 milhões de doses da Qdenga em outro contrato, ao longo de 2024 e 2025.

Com o avanço do ensaio clínico da vacina do Butantan, a estratégia da pasta mudou. Em fevereiro de 2025, a então ministra Nísia Trindade anunciou acordo com o Butantan e a chinesa WuXi Biologics para produzir 60 milhões de doses por ano da nova vacina contra a dengue. 

De então até junho deste ano, o ministério não tinha firmado compromissos para comprar novas doses da vacina japonesa. Ou seja, o Butantan ficava como único fornecedor.

A Qdenga também é vendida em clínicas e farmácias. A Takeda informou que não divulga a quantidade vendida no setor privado. No verão de 2023 para 2024, com a grande procura, a Qdenga chegou a esgotar em clínicas e farmácias em vários estados do Brasil.

Em 2024, a dengue matou mais pessoas que a Covid-19 no Brasil, um feito inédito desde que a pandemia começou. Foram 5.959 mortes por Covid-19, e 6.321 por dengue. Em 2025, as mortes por dengue caíram a 1.855. E, neste ano, até meados de agosto, a doença fez 300 vítimas.

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