Uma final de Copa como símbolo de um tempo
A final da Copa de 2026 capta, quase como se conduzida por um editor cuidadoso, o zeitgeist desse tempo na história, dessa era tão distópica

“Zeitgeist” é uma expressão alemã que se traduz como o “espírito do tempo”. O tempo em que vivemos parece ter um “editor geral” que alinha eventos aparentemente desconectados em um mesmo “argumento”, como se tudo fosse parte de um grande filme. Revoluções frequentemente ocorrem próximas umas das outras, e a música de uma era dialoga com a pintura do mesmo período. Isso acontece porque, mesmo fisicamente distantes e sem redes sociais, as pessoas estavam conectadas por sentimentos que dominavam a época.
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O que muitas vezes parece coincidência é, na verdade, a força das ideias se impondo. Victor Hugo disse: “Não existe força que pare uma ideia cuja hora tenha chegado”. Em outras palavras, nada pode conter o
zeitgeist. Às vezes, essa força é tão intensa que até eventos que parecem impossíveis de serem
influenciados por ela acabam revelando e explicando a história do nosso tempo. Esses eventos agem como
faróis, iluminando o que estamos vivendo. Com a sua simplicidade emprestam sentido ao completo.
Assim será a final da Copa do Mundo de 2026, disputada pela Espanha e pela Argentina em posições geopolíticas invertidas: o ex-conquistador se opõe frontalmente ao colonialismo político promovido por Trump, enquanto o colonizado se comporta como um vassalo dos Estados Unidos. Essa dinâmica inverte a
lógica histórica. Da mesma forma que, hoje, os Estados Unidos, que foram os garantidores de uma ordem mundial mínima, tornaram-se a maior ameaça a essa mesma ordem.
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Vivemos em uma era tão distópica que o país que desenhou o livre comércio e fomentou a globalização agora impõe tarifas até mesmo a nações com as quais tem superávit comercial. Esse é o “zeitgeist” do nosso tempo. E a distopia também chega à torcida: assim como há aqueles no Brasil que torcem pelas tarifas contra nós, justificando essa postura com uma desavergonhada sabujice — como se a responsabilidade recaísse sobre nosso governo e não sobre a irracionalidade instalada em Washington —, também haverá torcida pela Argentina por motivos políticos errados.
A Argentina se tornou um símbolo da extrema direita e do capitalismo anárquico na América Latina, representando os valores perigosos, quase como prepostos orgulhosos, de Trump na região.
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Entretanto, também haveria razões políticas válidas para torcer pela Argentina, mas essas são menos
relevantes neste momento. Sim, eles foram colonizados, mas essa não é a condição que define a Argentina de hoje, dada a natureza do seu governo. A luta do nosso tempo é contra o domínio da extrema direita e a favor da democracia liberal. Esses são os valores pelos quais acredito que vale a pena lutar, e, nessa disputa, não há dúvida de que a Espanha está do lado certo.
No tempo em que vivemos, o simbólico é fundamental
Não estou sugerindo que, se a Argentina vencer, a extrema direita triunfará. O que ressalto são os eventos que criam o imagético, que explicam o tempo em que vivemos. Se os jogadores mais conhecidos da Argentina não são críticos públicos do governo atual, o imagético que se formará será a de que a Argentina de hoje, incluindo sua posição política, conseguiu vencer o país mais crítico do trumpismo na Europa.
Essa final, portanto, não será apenas uma disputa esportiva, mas um reflexo das tensões e contradições que definem nosso presente.
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