Um ano depois, Preta Gil já é eterna
Preta Gil teve uma vida esculpida no afeto, na congregação e na lealdade irrestrita aos seus. Nunca andou só. Para ela, amizade nunca foi substantivo abstrato

Há uma poética incontornável no fato de que o calendário tenha escolhido o dia 20 de julho para marcar a despedida de Preta Gil. Há um ano, o Brasil perdia uma de suas vozes mais vibrantes, justamente na data em que se celebra o Dia do Amigo. Para uma mulher cuja vida foi esculpida no afeto, na congregação e na lealdade irrestrita aos seus, a coincidência soa como um epitáfio traçado pelo destino. Preta nunca andou só. E, até o fim, cercada por uma fortaleza inabalável de amigos nos Estados Unidos, provou que a amizade, para ela, nunca foi um substantivo abstrato, mas sinônimo de ação, de cuidado e de salvação.
Nesta segunda-feira (20/7), a estreia dos documentários “Preta Gil: Eu Não Ando Só” e “Meu Nome é Preta” materializa em som e imagem a agonia pública que o país acompanhou com o coração apertado. Mas engana-se quem enxerga nesses registros um mero diário de sofrimento. A decisão de documentar a própria dor foi, antes de tudo, um ato político de quem entendia a dimensão de sua voz.
Ao compartilhar suas vulnerabilidades, Preta tomou as rédeas da própria narrativa, impondo dignidade onde parte da mídia tentou instalar o sensacionalismo. Enquanto manchetes e cliques muitas vezes buscaram espetacularizar a fragilidade de um corpo adoecido, ela respondeu com transparência absoluta, ensinando ao país como se olha a finitude de frente, sem perder a altivez.
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Preta Gil, uma força da natureza
Essa mesma altivez marcou sua trajetória muito antes do diagnóstico. Preta Gil foi uma força da natureza que não recuava diante de temas sensíveis. Em um país adoecido pelo preconceito, ela colocou seu corpo e sua arte na linha de frente contra o racismo, a gordofobia e a LGBTfobia. Não hesitava em tensionar as estruturas de poder, como ficou evidente em seu embate público com Jair Bolsonaro. Ao afirmar que já havia sentido “na pele a fúria dele”, Preta demonstrou uma coragem cívica rara, provando que sua voz não servia apenas para embalar o carnaval, mas para denunciar as violências estruturais que sufocam as minorias no Brasil.
A comoção nacional que se seguiu à morte da cantora foi o reflexo exato do espaço que ela ocupava no imaginário brasileiro. É impossível não revisitar, com os olhos marejados, a sua última grande apresentação no Allianz Parque, em abril de 2025. Ao lado do pai, Gilberto Gil, ela entoou “Drão”, canção feita por ele para sua mãe, Sandra Gadelha. Naquele palco, diante de uma multidão e sob o olhar emocionado da família, a artista não estava apenas se despedindo da música; estava celebrando a própria essência de sua existência: o amor em sua forma mais pura e ancestral.
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Um ano depois, o vazio deixado por Preta Gil ainda reverbera, mas seu legado é de uma perenidade comovente. Ela nos deixou a certeza de que a fragilidade não anula a força, e de que a alegria pode ser, sim, uma ferramenta de resistência. A mensagem de amor, acolhimento e respeito inegociável às diferenças que Preta plantou continuará florescendo a cada carnaval, a cada abraço de amigo e a cada voz que se levanta contra a injustiça.
Preta Gil partiu, e isso ainda soa inacreditável. Mas não dá pra duvidar de que sua luz imensa permanecerá por muito tempo guiando todos nós.
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