Reportagem

TSE insere gênero feminino em cargos de candidatas, menos no de presidenta

Mesmo 92 anos após o voto feminino e com o termo reconhecido pelos dicionários, candidatas à Presidência seguem registradas como "presidente" no TSE

por Letícia Corrêa
02/10/2026 às 19:04 · Atualizado há 1 semana
TSE
Divulgação de candidaturas de Samara Martins (UP) e Manuela d’Ávila (Reprodução TSE/DivulgaCand)

Depois de 92 anos do voto feminino no Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) inseriu, pela primeira vez, o gênero feminino em cargos de senadora, governadora e deputada no cadastro de candidaturas. A mudança, no entanto, não ocorreu para as candidatas à Presidência, Samara Martins (UP) e Clariana Zacarkim (DC), que continuam registradas no DivulgaCand (Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais) como presidente e não presidenta.

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A mudança entrou em vigor no dia 15 de setembro de 2026, após a presidência da Corte acatar uma ação protocolada pela candidata ao Senado Manuela d’Ávila (Psol-RS) e pelas candidatas à Câmara dos Deputados Luciana Genro (Psol-RS) e Fernanda Melchionna (Psol-RS). O Amado Mundo entrou em contato com o TSE e com a assessoria da Manuela d’Ávila para entender o porquê da exclusão do cargo da presidência no novo formato, mas não obteve respostas até a publicação da reportagem.

A polêmica em torno do termo ‘presidenta’ desde a época de Dilma

A discussão sobre a flexão de gênero para o cargo máximo do Executivo ganhou forte projeção nacional em 2011, quando Dilma Rousseff assumiu a Presidência da República e optou por se autointitular presidenta. A escolha teve um caráter político e simbólico, com o intuito de evidenciar o fato histórico de ser a primeira mulher a governar o país e reforçar a presença feminina nos espaços de poder.

Candidatura de Dilma Rousseff nos arquivos do TSE (Reprodução TSE/Observatório de Maringá)

Do ponto de vista gramatical e lexico gráfico, o termo “presidenta” é correto e registrado nos principais dicionários da Língua Portuguesa, como o Houaiss e o Aurélio, além de ser reconhecido pela Academia Brasileira de Letras (ABL). A palavra integra o vocabulário oficial ao menos desde o século XIX, constando no dicionário de Cândido de Figueiredo em 1899 e tendo sido utilizada por escritores consagrados, como Machado de Assis em “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1880). Embora palavras terminadas no sufixo “-ente” sejam gramaticalmente classificadas como comuns de dois gêneros, a flexão feminina é uma exceção respaldada na tradição do idioma.

Apesar do amparo linguístico, o emprego da palavra gera divergências de estilo em órgãos públicos e veículos de imprensa. O Manual de Comunicação do Senado Federal, por exemplo, na época em que uma presidenta governava o país, orientava o uso da forma “presidente” como padrão para ambos os gêneros, restringindo “presidenta” apenas para declarações e citações diretas.

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Na administração pública federal, o termo passou por oscilações institucionais: após o impeachment de Dilma em 2016, a palavra foi vetada nas matérias oficiais da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) durante a gestão de Michel Temer. Mais recentemente, a flexão voltou a figurar na comunicação governamental, impulsionada pela adoção espontânea por parte de servidoras e gestoras no comando de autarquias e empresas públicas — como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Ipea — como marca de pioneirismo e representatividade de gênero.

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