Reportagem

Senadores dos EUA alertam governo Trump contra interferência em eleições no Brasil

Trio de políticos democratas questiona se administração Trump reconhecerá resultado das urnas no pleito brasileiro

por Weslley Neto
29/09/2026 às 12:46 · Atualizado há 6 dias
digital
O senador Flávio Bolsonaro e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos (Reprodução/X)

Um trio de senadores democratas dos Estados Unidos alertou o governo liderado por Donald Trump contra possíveis interferências antes da realização das eleições presidenciais no Brasil. Detalhes sobre uma carta recebida pelo secretário de Estado Marco Rubio foram divulgados com exclusividade pelo jornal The Hill.

O posicionamento, elaborado pelos senadores Jeanne Shaheen, Tim Kaine e Peter Welch, teria sido recebido por Rubio na última segunda-feira, 28/9. O trio apontou Darren Beattie, assessor do Departamento de Estado para assuntos do hemisfério ocidental, como o responsável por um padrão de ações agressivas contra a democracia brasileira.

“O governo se comprometerá a reconhecer o resultado oficial das eleições democráticas brasileiras de 2026 e a manter relações diplomáticas normais com qualquer candidato que seja escolhido livre e justamente pelo povo brasileiro?”, questiona um trecho da carta elaborada pelos senadores.

Leia mais: Orgias, Rolex e lobby com ministro do STF: ex-sócio revela segredos de Flávio Bolsonaro

Polêmicas envolvendo Darren Beattie

Beattie teve o visto negado para entrar no Brasil em março deste ano em decorrência de uma disputa diplomática entre os países. O presidente Lula afirmou que a entrada não foi permitida porque o governo Trump também impediu Alexandre Padilha, ministro da Saúde do Brasil, de viajar aos Estados Unidos em 2025.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, Beattie havia omitido ou falsificado informações relevantes sobre o motivo da visita, informou a Reuters na época. Em julho deste ano, Trump impôs tarifas de 25% ao Brasil como retaliação alegando práticas comerciais desleais.

Comece o dia sabendo o que importa. Receba gratuitamente a Antes da Reunião, a newsletter de política e economia do Amado Mundo. De 2ª a 6ª, às 6h30. Assine!

Beattie fez parte do primeiro governo de Donald Trump nos Estados Unidos, mas foi demitido do cargo de redator de discursos após ter participado de uma reunião de supremacistas brancos. Ele também teria feito comentários depreciativos sobre pessoas negras em redes sociais.

A nomeação de Beattie para o cargo de “conselheiro sênior” ocorreu em fevereiro deste ano. O site do Departamento de Estado aponta que ele “atua como uma das principais vozes da instituição em relação à política do Brasil desde novembro de 2025”.

“Beattie, um notório militante de extrema direita e supremacista branco, assumiu este cargo com um histórico de declarações públicas que sinalizam um compromisso ideológico explícito em minar as instituições democráticas do Brasil e promover os interesses da extrema direita brasileira”, completa a carta elaborada pelo trio de senadores.

Trump recebe Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e o blogueiro Paulo Figueiredo no Salão Oval
Trump recebeu Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e o blogueiro Paulo Figueiredo no Salão Oval (Divulgação)

Encontro entre Trump e Flávio

Trump não declarou apoio explícito nas eleições brasileiras, mas recebeu a visita do senador Flávio Bolsonaro (PL) em maio deste ano. Anteriormente, o político norte-americano era ligado a Jair Bolsonaro — tendo lamentado a prisão do ex-presidente brasileiro após a condenação em decorrência da tentativa de liderar um golpe de Estado em janeiro de 2023.

Logo após o encontro com Flávio, o presidente dos Estados Unidos designou as duas maiores facções criminosas do narcotráfico brasileiro como grupos terroristas — a medida foi considerada uma “interferência inaceitável” por Lula.

“Hoje, em vez de ajudar a defender a democracia brasileira, os Estados Unidos estão usando pressão diplomática, econômica e política de maneiras que correm o risco de enfraquecer as instituições democráticas do país, minar a confiança no processo eleitoral brasileiro e causar ainda mais danos à nossa relação com um aliado estratégico e parceiro comercial dos EUA”, segue o posicionamento dos senadores.

Leia mais: Flávio Bolsonaro cogitou ir a Aparecida, mas desistiu por receio da recepção

“Esse padrão corre o risco não apenas de minar a integridade dos processos eleitorais em cada país, mas também de corroer progressivamente a confiança pública nos processos e instituições democráticas em toda a América Latina”, concluiu o posicionamento dos três senadores.

A campanha de Flávio Bolsonaro está sob suspeita de receber financiamento da Rockbridge, uma poderosa e opaca rede de empresários americanos ligada ao trumpismo, segundo apuração do Amado Mundo. O grupo participou ativamente da montagem do QG da campanha de Flávio em São Paulo e tem conexão com um projeto de exploração de terras raras na Bahia.

PLAYLISTS